Primeiro exilado desde a ditadura, Jean Wyllys abre mão do mandato para não ter de voltar ao Brasil
Quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Primeiro exilado desde a ditadura, Jean Wyllys abre mão do mandato para não ter de voltar ao Brasil

Wyllys vivia sob escolta policial desde o assassinato de Marielle Franco. “Para o futuro dessa causa [LGBTI+], eu preciso estar vivo”.

Imagem: foto de Wilson Dias/ Agência Brasil

Por Daniel Caseiro, com informações da Folha de São Paulo. 

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Após sofrer graves ameaças de morte, o deputado federal Jean Wyllys (PSOL) anunciou nesta quinta-feira (24/1) que abrirá mão do mandato e não voltará ao Brasil, situação que pode ser considerada o primeiro caso de exílio político voluntário de um parlamentar após o fim da ditadura. O parlamentar vivia sob escolta policial desde o assassinato da vereadora Marielle Franco, em março do ano passado.

Eleito pela terceira vez consecutiva deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro, Jean Wyllys, primeiro parlamentar assumidamente gay no Congresso Nacional, se tornou um dos principais defensores das pautas progressistas na política nacional e um dos principais alvos de grupos conservadores e fake news nas redes sociais.

Wyllys já venceu ao menos cinco processos por injúrias, calúnias e difamações divulgadas contra ele, mas com o aumento das ameaças de morte contra ele, decidiu deixar o país para se dedicar à carreira acadêmica. De férias no exterior, revelou que não pretende voltar.

Em entrevista à Folha de São Paulo, Wyllys afirmou que além da execução por grupos de milícias passou a temer também a possibilidade de um atentado praticado por pessoas fanático religiosas.

“Estava me sentindo inseguro, mesmo com a escolta me acompanhando”, afirmou Wyllys à Folha. “Como é que eu vou viver quatro anos da minha vida dentro de um carro blindado e sobre escolta?”, questiona. “Sou humano e cheguei no meu limite”.

Jean conta que a tomada desta decisão não foi fácil e “implicou em muita dor”, pois envolveu abrir mão da proximidade da família e amigos queridos, além da carreira política.

“O [ex-presidente do Uruguai] Pepe Mujica, quando soube que eu estava ameaçado de morte, falou pra mim: ‘Rapaz, se cuide. Os martires não são heróis’. E é isso: não quero me sacrificar”, disse à Folha. “Para o futuro dessa causa [LGBTI+], eu preciso estar vivo”.

Wyllys afirma que seu partido, o PSOL, reconheceu os riscos que ele corria, por se tratar de um alvo preferencial dos grupos de oposição, e o apoiou em sua decisão de não voltar ao Brasil.

Com a decisão do deputado de não assumir o mandato, quem podem ocupar o lugar de Jean Wyllys na Câmara é o suplente David Miranda (PSOL-RJ), vereador carioca. Ativista LGBT, casado com o jornalista Glenn Greenwald, David é jornalista e vencedor do Prêmio Pullitzer em 2014 por sua reportagem sobre programas de vigilância secretos dos Estados Unidos.

Ameaças e violências

Jean Wyllys conta que já sofria ameaças antes, mas nunca achou que pudessem se concretizar. Entretanto, com a execução de Marielle Franco e a intensificação das ameaças contra ele, percebeu que o risco era real.

O deputado relata que a situação se agravou com as últimas eleições, em grande parte devido às fake news: no período eleitoral,  Jean Wyllys foi alvo de diversas notícias falsas, como as relacionadas ao inexistente “kit gay”.

 “A Comissão Interamericana de Direitos Humanos emitiu uma medida cautelar logo depois da eleição. O documento é claríssimo: é baseado em todas as denúncias que nós fizemos à Polícia Federal, no fato de que a Polícia Federal não avançou nas investigações sobre as ameaças contra mim. No fato de que a proteção era pífia”, disse em entrevista à Folha, destacando que o Estado brasileiro não reconheceu que havia um quadro de violência motivado por homofóbia no Brasil.

Por fim, lembra o episódio envolvendo a desembargadora Marília Castro Neves:

“A violência contra mim foi banalizada de tal maneira que Marília Castro Neves, Desembargadora do Rio de Janeiro, sugeriu a minha execução num grupo de magistrados no Facebook. Ela disse que era a favor de uma ‘execução profilática’, mas que eu não valeria a bala que me mataria e o pano que limparia a lambança. Na sequência, um dos magistrados falou que eu gostaria de ser executado de costas. E ela respondeu: ‘não, porque a bala é fina’”.

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Mensagens de apoio

Após o anúncio de sua decisão, milhares de apoiadores foram ao perfil de Jean Wyllys nas redes sociais para demonstrar solidariedade.

“Jean, você sempre foi um símbolo de esperança para mim. Sua decisão é compreensível. Obrigado por ser linha de frente em um ambiente tão hostil. Obrigado por se manter vivo. Fico triste, resignado, mas com gigante admiração”, escreveu um seguidor. “Parabéns por toda a sua luta, por todo o seu serviço ao país. Espero que tempos melhores lhe acolham de volta no futuro”, disse outro internauta.

O ex-parlamentar publicou nas redes sociais uma mensagem agradecendo seus apoiadores e lembrando que manter-se vivo “também é uma forma de resistência”.

O advogado, professor e colunista do Justificando e ativista da causa LGBTI+, Paulo Iotti, também prestou solidariedade à Wyllys:

“Exílios podem ser voluntários ou forçados, os voluntários servindo para garantir a sobrevivência e realizar protestos políticos. É o caso de Jean, que faz um exílio por sua sobrevivência, já que sofre ameaças pesadas há muitos anos, que se agravaram após o assassinato de Marielle e a deplorável ascenção política de Bolsonaro. Triste e deplorável país que naturaliza isso, deplorável a postura de pessoas que comemoram isso apenas por não gostarem de Jean. São mais sinais dos tempos nefastos que se avizinham em nosso país, desde a eleição bolsonárica e tudo que representou – em síntese, o desprezo aos direitos humanos por discursos absurdamente preconceituosos desse cidadão, absurdamente eleito presidente da república – com letras minúsculas mesmo, nesse contexto…”.

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