Vale S.A., quando as corporações regem o mundo
Terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Vale S.A., quando as corporações regem o mundo

Uma democracia não funciona assim

Imagem: Agência Brasil – manifestantes protestam em frente à Vale depois de crime em Brumadinho, Minas Gerais

A história econômica do Brasil costuma ser bastante enfática ao apontar o modelo de negócios dominante nessa parte dos trópicos: a exportação de commodities. Por aqui, desde que foi “descoberto”, o país buscou se especializar na extração de algum recurso abundante, no início era o pau-brasil, coletado com a participação de mão de obra indígena para em seguida ser enviado a Portugal para tingir tecidos. Depois veio o açúcar e o ouro, fruto de trabalho escravizado. Ambos os produtos tinham o mesmo destino que o primeiro. Em tempos mais recentes, tivemos o café como protagonista da pauta exportadora, artigo tão importante para a economia brasileira que quando o seu preço caiu no mercado mundial o governo passou a comprar as sacas excedentes para em seguida queimá-las, tudo para manter a renda dos seus produtores.

Há quem diga que atualmente estamos mais modernizados, afinal o Brasil possui um rol de empresas que dominam o país e uma pauta exportadora mais “diversificada”. O país tem a Raízen que exporta etanol, a JBS que vende carne, a Petrobras que extrai petróleo e claro temos uma empresa que vende essencialmente minério de ferro. A “grande mudança” nos tempos recentes é que agora não dependemos mais de apenas uma commoditie, mas sim de umas cinco ou talvez seis. A ironia é que a única empresa nacional que possui elevado grau de progresso tecnológico – Embraer – está prestes a ser incorporada pela Boing, na prática será uma venda embora não usem essa palavra, mas esse é um assunto para outra ocasião.

Aqui focaremos na Companhia Vale S.A. que ocupa as páginas dos noticiários mais recentes pelo mesmo motivo que os ocupava há três anos: outro rompimento de barragem. Criada no governo de Getúlio Vargas em 1942, foi privatizada em 1997 no governo FHC. Uma privatização cercada de controvérsias, pois supostamente foi vendida muito abaixo de seu valor de mercado. Também cabe ressaltar que no momento da privatização, a Vale do Rio Doce, como era então chamada, era uma grande companhia e um importante ativo do Estado, que tinha outras atividades em seu portfólio, além da extração de minérios.

No momento em que o rompimento da barragem foi anunciado, as redes sociais e articulistas de muitos veículos de comunicação começaram a acirrar a guerra ideológica em voga no Brasil. Muitos responsabilizaram o setor privado, reincidente no crime, relembrando a privatização barata e a ausência de reparações no caso Mariana. Outros, não menos parciais, relembraram a participação petista na condução do processo regulatório que permitiu a possibilidade de que casos assim ocorressem. A verdade é que examinam apenas as partes, enxergar o todo significa reconhecer que um longo processo histórico propiciou a construção de um desenho institucional onde os agentes envolvidos pudessem aceitar riscos que levassem a esses tipos de tragédia.

No livro “Quando as corporações regem o mundo”, David Korten demonstra preocupação com o tamanho excessivo de algumas empresas. Uma empresa grande demais teria um poder difícil de regular ou coagir, como também possuiria condições para influenciar o Estado, patrocinando políticos que atendessem seus interesses. Essas corporações seriam entraves para a manutenção de uma democracia de qualidade, devido ao desequilíbrio de poder que causariam ao sistema. Nas eleições de 2014, a Vale contribuiu financeiramente com as candidaturas dos dois presidenciáveis que chegaram ao segundo turno[1], Dilma e Aécio, ou seja, independente do escolhido pelo voto popular, o presidente estaria em débito com a empresa. Uma democracia não funciona assim.

A companhia causou frisson no mundo dos negócios ao anunciar no ano passado um audacioso plano de recompra de ações[2], algo em torno de um bilhão de reais. Um programa de recompra de ações é implementado quando as empresas percebem que o mercado sub-precifica seus ativos, ou seja, os executivos (devido a posse de informações privilegiadas) sabem com certa margem de acerto qual seria o preço real de uma ação e quando a cotação estivesse abaixo desse preço eles iniciariam a recompra (recompra nada mais é do que uma empresa comprando suas próprias ações no mercado financeiro). Os acionistas ao perceberem o movimento de recompra buscariam oportunidades de curto prazo e também começariam a comprar as ações da empresa, a maior procura elevaria o preço dos papéis.

Entretanto, o economista canadense William Lazonick em um artigo intitulado “Profits without prosperity” (Lucros sem prosperidade”) demonstra que não é sempre que as empresas agem por esse motivo. Muitos executivos recebem incentivos financeiros por bom desempenho, cuja medida ás vezes é o preço das ações. Logo, esses executivos utilizam o dinheiro em caixa das corporações para realizar manobras de recompra, mesmo quando o preço da ação não está desvalorizado pelo mercado. O intuito é manipular o mercado para elevar o preço das ações de suas companhias e com isso conseguir os bônus prometidos.

Lazonick expõe que a estratégia de recompra apresenta um alto custo de oportunidade, esse dinheiro poderia ser aplicado na própria empresa em outros investimentos, como treinamento de funcionários, reposição ou manutenção de capital fixo (maquinário, equipamentos) e até mesmo em medidas de cautela que impedissem o rompimento de barragens. Adotar a estratégia de recompra é perseguir lucros no curto prazo, sem a prosperidade oferecida por uma empresa que inclua sua função social e interesses nacionais dentre as variáveis consideradas na alocação de seus investimentos.

Em “Por que as nações fracassam”, Acemoglu e Robinson argumentam que as instituições extrativistas são as responsáveis pela pobreza das nações. Países, como o Brasil, que possuem um conjunto de instituições incapazes de planejar em longo prazo e priorizar os benefícios sociais tendem a se manter subdesenvolvidos. Essas instituições podem ser empresas privadas que orientam suas estratégias para manipular o preço de suas ações na bolsa de valores, ou podem ser públicas como um governador mais afeito aos interesses empresariais do que ao de seus eleitores, e um presidente que assume com discurso anti-ambientalista, considerando leis ambientais um retrocesso.

Outro ponto que merece destaque é a produção econômica sempre organizada para atender uma demanda externa, e isso corre desde a invenção do Brasil. Logo se os consumidores das nossas maiores empresas estão fora do país todo o cuidado, atenção e zelo na relação firma-consumidor será com eles, custe a vida de quem custar. Os esforços empresariais são empenhados para satisfazer o cliente, nesse caso, sempre o estrangeiro. Portanto, enxergar o todo é entender que houve mais do que um crime ambiental, é o modo como se faz grandes negócios no Brasil.

Tragédias como a de Mariana e a de Brumadinho nos força a refletir sobre o modelo de crescimento adotado pelo país. Formou-se uma economia reflexa nunca superada, cujo centro dinâmico se encontra no setor externo, especializada em recursos naturais, movida pela busca do lucro á curto prazo, sem considerar os limites ecológicos e humanos que, além de tudo, possui empresas com tamanho difícil de controlar pelos meios tradicionais. Sem mencionar a existência de políticos inclinados a receber afagos dessas empresas, e agências reguladoras sem poder de regulação. Nos poucos momentos da História do Brasil em que houve um projeto ambicioso de desenvolvimento, o momento seguinte engendrava seu desmonte.

 

Luiz Henrique Bispo Santos é mestrando em Ciência Econômica pela UFV (Universidade Federal de Viçosa – MG).

 

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________________
[1] https://outraspalavras.net/alceucastilho/2015/11/12/tragedia-em-mariana-quem-recebe-dinheiro-da-vale/
[2] https://www.valor.com.br/empresas/5689501/recompra-de-acoes-e-sinal-de-confianca-na-vale-diz-presidente

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