Por conforto, “esquerda autorizada” se soma ao imperialismo contra a Venezuela
Quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Por conforto, “esquerda autorizada” se soma ao imperialismo contra a Venezuela

Nos últimos anos, a crise política e econômica na Venezuela vem dividindo opiniões até mesmo dentro da própria esquerda brasileira. A situação do país vizinho é, realmente, muito complexa. Uma pena que a grande mídia do nosso país, porém, trate o tema (propositalmente) com tanta superficialidade. Mais triste ainda que tenha gente (teoricamente) dentro do campo anti-imperialista engolindo essa narrativa.

Isso porque, na esquerda brasileira, tem quem ache uma boa ideia a derrubada de Maduro e do chavismo para abrir espaço, de forma completamente antidemocrática, para a oposição. É a tal da “esquerda autorizada”, ou seja, aquela esquerda que o status quo permite existir e emitir opiniões.


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É lamentável, porém, que a esquerda de um país que sofreu um golpe com claras intervenções estrangeiras em 2016, motivadas pelo mesmo petróleo que impulsiona o golpismo venezuelano, faça coro com o que há de pior na direita latina.Uma direita entreguista que, aliás, age há anos na Venezuela.

Sim, ao contrário do que as redes de televisão pregam, a história da Venezuela não começou em 2014. Mas ela mudou completamente de rumo a partir de 1999, quando Hugo Chávez foi eleito democraticamente Presidente do país. Uma eleição que lavou a alma de um país manchado pelo “Caracazo”, 10 anos antes, quando a Venezuela entrou em ebulição com manifestações massivas contra as medidas liberais impostas pelo FMI. Violentamente reprimido pelo Estado, estima-se que o evento resultou na morte de mais de 3 mil venezuelanos, embora, à época, os números oficiais falassem em “apenas” 300.

É nesse cenário que ganha força o “bolivarianismo”, na figura de Hugo Chávez, militar insubordinado que lidera uma fracassada tentativa de revolta em 1992, sendo preso e ganhando a simpatia das camadas mais pobres do povo venezuelano. Anos mais tarde, se tornaria Presidente do país, levando a Venezuela a um estado de revolução permanente, num período em que os índices sociais e econômicos do país apresentaram melhoras jamais vistas.

E realmente não se pode dizer o contrário. Foi em seu governo que o PIB per capita do país ultrapassou a média mundial, algo que não acontecia desde 1987. Foi com Chávez, também, que a taxa de pobreza urbana caiu de 49% (1999) pra 29% (2010) e o índice de Gini, que mede a desigualdade social, se tornou o mais baixo (0,41) da América Latina em 2012.

Sucessos[1] que, por si só, já poderiam explicar boa parte da insatisfação da direita liberal com o Governo de Caracas. Mas não só. Na Venezuela, não há nada que explique mais o contexto político do que a sua maior riqueza: o petróleo. Somando cerca de 90% das exportações do país, o “ouro negro” sempre colocou a Venezuela na mira do imperialismo mundial. E o Governo de Washington não aceitaria perder seu poder sobre ele.

Mas o chavismo tinha outros planos para a Venezuela. Após a eleição de Hugo, o país foi deixando de lado sua tradicional política liberal alinhada ao imperialismo norte-americano para ingressar num período pautado pela soberania, pela autodeterminação de seu povo e pela integração latino-americana. E isso incluía, é claro, uma nova política sobre o petróleo.

E foram as primeiras medidas nesse setor que deram início à perseguição internacional à Venezuela e, principalmente, ao “vale-tudo” como modus operandi de uma oposição irresponsável e entreguista na direita do país.

Mas foi um longo caminho percorrido pelo chavismo e pelo povo venezuelano até a nacionalização efetiva do petróleo em 2007. Em 2001, quando o Governo Chávez, apesar de todo o ódio da imprensa mundial, não apresentava nenhum motivo plausível para ser contestado pela opinião internacional, as mudanças na PDVSA (a “Petrobras” venezuelana) começaram, bem como leis com viés mais nacionalista no setor do petróleo passaram a ser aprovadas.


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A reação da oposição foi enérgica, através de uma grande greve que começou puxada por sindicatos patronais e acabou culminando no Golpe de Estado que chegou a retirar Chávez do poder (e do país) por um dia em um episódio em que quase foi assassinado em 2002. Mas a oposição não contava com uma força: a reação popular ao afastamento de Chávez foi tão intensa que ele logo teve de ser reconduzido ao poder.

O golpismo da direita venezuelana fracassou e, cinicamente, foi repudiado por toda a comunidade internacional, mas jurou tornar a Venezuela ingovernável. Vale lembrar que os golpistas de 2002 são os mesmos opositores “democráticos” da atualidade.

Leopoldo López, por exemplo, à época Prefeito de Chacao, participou ativamente desse golpe, partindo diretamente dele a ordem para a prisão do Ministro da Justiçachavista e outros apoiadores de Hugo. Fosse nos EUA ou em qualquer “democracia liberal” da Europa, López estaria preso desde 2002, cumprindo pena máxima. Isso, claro, se não tivesse sido morto. Na Venezuela, entre vídeos em Miami e incitações à violência, segue, há 17 anos, como um dos principais nomes da tal “oposição democrática” defendida pela comunidade internacional.

Membro da elite venezuelana e ligado à indústria do petróleo, López tem no sangue a busca pelo poder. Como bem mostra o Observador, “a lista de familiares que ascenderam ao poder estende-se — como o avô Eduardo Mendoza Goiticoa, que foi ministro da Agricultura; ou o trisavô, Cristobal Mendoza, o primeiro Presidente da Venezuela. O seu pai, Leopoldo López Gil, foi diretor do El Nacional, um dos jornais mais lidos do país”[2].

Talvez por isso, ou simplesmente pelo golpismo latente, documentos vazados pelo Wikileaks tenham mostrado como consultores políticos da embaixada norte-americana no país o veem: “arrogante, vingativo e sedento por poder”[3].

Companheiro de López no golpe em 2002, então Prefeito de Baruta, outro que sempre deu as cartas nessa “oposição democrática” é Henrique Capriles. Responsável, no ato, pelo cerco à embaixada de Cuba em busca de chavistas, momento onde o mesmo incitou vandalismo contra o prédio, Capriles apelou ao cinismo depois do fracasso do golpe, afirmando que estava lá como um mediador que tentava evitar o pior.

Vindo de uma família de barões da mídia, Capriles chegou a concorrer nas eleições presidenciais contra Chávez e, mais tarde, contra Maduro, sendo derrotado por pequena margem nas disputas. Ao melhor estilo Aécio Neves, jamais reconheceu os resultados que o derrotaram, incitando discursos de fraude eleitoral sem prova alguma.

López e Capriles são, sem dúvidas, símbolos de uma tática de “vale-tudo” adotada pela oposição venezuelana desde o fracasso do golpe de 2002. Do boicote às eleições de 2005, do qual a própria oposição se arrependeu depois, passando por atos de vandalismo contra galpões que estocavam comida e contrabando de alimentos e outros insumos básicos na fronteira da Colômbiaem plena crise social e econômica, a direita venezuelana foi levando o país ao limite.

É claro que o Governo chavista não pode ser eximido de culpa na crise econômica que assola o país desde 2014. O bolivarianismo falhou ao apostar todas as suas fichas na indústria petrolífera, deixando de investir na diversificação de sua economia. Falhou, também, ao não promover maior controle financeiro sobre o país, continuando eterno refém do rentismo e da especulação monetária.

Porém, são de uma desonestidade enorme as frequentes críticas econômicas ao país, inclusive de progressistas brasileiros, que deixam de levar em conta outros fatores essenciais. Como um economista sério pode, por exemplo, ignorar, em suas análises, que a Venezuela sofre uma série de sanções econômicas dos EUA desde 2014?

Tais sanções, aliás, foram descritas por Alfred de Zayas, o primeiro relator da ONU a analisar a Venezuela em 21 anos, como “ilegais” e “crimes contra a humanidade”. O relatório de DeZayas feito em 2017, porém, tem sido sumariamente ignorado pela própria ONU. O relator reclama que a ONU não se interessa por ele não estar “tocando a música que eles queriam”, pontuando que seu relatório foi ignorado por “ir contra a narrativa popular de que a Venezuela precisa de uma mudança de regime”[4].

Depois da visita e do relatório ignorado de DeZayas, porém, as sanções norte-americanas e de outros países à Venezuela só se intensificaram. Essa semana, Trump anunciou o bloqueio de US$ 7 bi em ativos da PDVSA. A medida se soma a outras, como a do Banco da Inglaterra, que impediu o Governo de Maduro de retirar US$ 1,2 bi em ouro do país. Nada mais clássico do que ingleses tomando o ouro de países latinos, não é mesmo?

Ao mesmo tempo, o agora autoproclamado Presidente da Venezuela, Juan Guaidó, declarou que assumiu o controle de ativos da Venezuela no exterior. A medida é um ultraje à soberania da Venezuela e à autodeterminação dos povos. Um ultraje que, mais uma vez, ganha eco na direita venezuelana, um grupo político que chegou ao absurdo de pedir uma intervenção militar estrangeira contra o próprio povo. Intervenção essa que parece cada vez mais próxima, com movimentações como a entrada da Colômbia na OTAN ou a vitória de Bolsonaro, por exemplo.

Esse é, basicamente, o cenário que se desenrola nos últimos 17 anos na Venezuela. Não só nos últimos 4 anos, como a grande mídia pinta. Gente como Guaidó, López ou Capriles não nasceu ontem. A Venezuela não nasceu ontem. A luta do povo venezuelano por autodeterminação e soberania não nasceu ontem e, pra não chamar de desonestidade, é muita ignorância fazer qualquer leitura política sobre o país ignorando todo o contexto histórico venezuelano.

É desonesto, também, criar realidades que simplesmente não existem para analisar o país. Análises políticas, antes de tudo, devem se ater à realidade. E a realidade é que não há (nem nunca houve) oposição democrática no país. O que se tem é uma oposição que, desde 2002, aposta no golpismo, na violência e no caos social para a Venezuela. Uma oposição sem projeto de país, cujo único grande plano nas últimas eleições era entregá-lo ao FMI. Uma oposição que, curiosamente, só contesta os resultados eleitorais em que perde.

Sempre foi amplamente sabido que a queda do chavismo cederia espaço a essa oposição. Jamais mostrou-se outra alternativa. Aliás, o único grupo político na Venezuela que, hoje, mostra alternativas ao país é o próprio chavismo, com planos econômicos e políticos apresentados na Assembleia Constituinte.

O papel de qualquer diplomacia mundial nesse conflito que se desenrola há anos no país deveria ser o de promoção de diálogo. Porém, se a diplomacia mundial tivesse adotado essa postura, como o próprio nome diz, “diplomática”, sequer estaríamos presenciando tal conflito hoje. Ao contrário, pelo modo como a disputa venezuelana se desenrola e com todas as interferências estrangeiras, a impressão que fica é a de que a única saída pacífica para a Venezuela é seu Governo entregar de bandeja a exploração de seu petróleo às indústrias estrangeiras.

Fazendo um exercício de imaginação: se, numa hipótese absurda, Maduro renunciasse e entregasse o poder para a oposição de Capriles, López e Guaidó, como quer a comunidade internacional, e essa oposição, numa hipótese ainda mais absurda, tivesse um surto de bom senso patriótico pra dizer que manteria a política chavista nacional para o petróleo, podem ter certeza que as sanções dos EUA e de toda a comunidade internacional à Venezuela continuariam.

Nada que os EUA, a OEA ou o Grupo de Lima têm defendido para a Venezuela faz parte de um suposto anseio democrático. Fosse realmente isso, a Arábia Saudita não estaria na posição confortável em que está. Há muitos interesses econômicos no que acontece na Venezuela, e o petróleo está no centro deles.

É preciso saber que, quando o assunto é Venezuela, não há nuances, não há “espaços cinzentos” de conforto para a isenção. Ou se está ao lado da determinação dos povos, da soberania latina e da luta anti-imperialista, ou se está ao lado dos interesses imperialistas sobre o nosso continente. A esquerda de um país que sofreu um golpe “petro-parlamentar” em 2016 já deveria estar mais escolada.

Almir Felitte é graduado pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP).

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[1]http://www.justificando.com/2017/07/17/apesar-da-crise-venezuela-deve-seguir-pelo-caminho-bolivariano/

[2]https://observador.pt/especiais/quem-sao-os-opositores-de-nicolas-maduro-algum-podera-derruba-lo/

[3]http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/02/saiba-quem-e-leopoldo-lopez-lider-dos-protestos-na-venezuela.html

[4]https://www.independent.co.uk/news/world/americas/venezuela-us-sanctions-united-nations-oil-pdvsa-a8748201.html

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