Qual é a graça, Fetter?
Quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Qual é a graça, Fetter?

Alexandre Fetter, âncora do programa de rádio Pretinho Básico (RBS/ Porto Alegre), noticiou na última semana, com entusiasmo e nem tão fina ironia, o exílio de Jean Wyllys do país diante das ameaças de morte que sofreu.

Afinal, por quê desejar boa viagem à Jean Wyllys? O que há de engraçado (já que a notícia de Fetter foi seguida de sonoras gargalhadas dos demais membros do programa) na saída forçada de Jean Wyllys do país?

O Pretinho Básico é um programa líder de audiência e tem qualidade realística: reproduz com humor o melhor e o pior do espírito do nosso tempo. Claro que isso faz do programa um influenciador em potencial para uma parcela considerável de cidadãos.

Quem dispõe, nesse cenário, de um tal potencial de alcance, ganha em eficiência na formação de consciência psicossocial e poder de convencimento. A história de êxito do programa, que já tem mais de 10 anos, especialmente com um produto moribundo como o rádio, só aumenta o poder de influência de Fetter e do programa.

Qualquer que seja o viés ideológico – afinal, mesmo quem o condena acaba condenando-o a partir de algum –, a influência dos meios de comunicação no campo político são conhecidos. Isso faz com que tenhamos, de um lado, figuras como Romário, Tiririca, Ratinho Jr. e Dória ocupando cargos públicos, e, de outro, gente como Brizola, que morreu sem ser presidente do Brasil, em grande parte por conta da antológica peleia que travou com a Globo.

Definitivamente, nesses novos tempos, a mídia consegue reprimir com delicadeza aquilo que as ditaduras conseguiam com tortura. Por isso que acertadamente Noam Chomsky afirma, no livro Mídia: propaganda política e manipulação, que “a propaganda representa para a democracia aquilo que o cacetete significa para o estado totalitário”.

Claro que o uso da ponte que são os meios de comunicação não é, em si, um problema. Há de haver políticos que prestem eleitos pela força das mídias. O viés aqui é outro: qual a responsabilidade política de quem usa os canhões de comunicação? Quais os impactos das mensagens que se transmite? Que sentido é lançado e gradativamente amalgamado no naquilo que o pessoal da academia gosta de chamar, charmosamente, de “tecido social”?

Wyllys, primeiro parlamentar assumidamente LGBT+ do Brasil, informou que abriu mão do mandato de deputado federal para seguir carreira acadêmica. Não é preciso muito discernimento para saber como a classe dos professores não tem muito prestígio ou expectativas se comparada à dos políticos. De mais a mais, considerando as regras de aposentadoria de parlamentares, Wyllys sai literalmente sem nada. Tenho que isso é suficiente para demonstrar que é nada além do medo motivou o exílio de Wyllys.

Não custa lembrar que Marielle Franco, assassinada por motivos políticos, era correligionária de Wyllys. Também não é demais lembrar que Wyllys teve uma carreira pública imaculada, fazendo esforços contra majoritários com pautas estranhíssimas para um parlamento conservador crivado de latifundiários, evangélicos evangelizadores e trogloditas simplistas que imaginam, com suas cabeças de porongo, que os dilemas do Brasil se resolvem na bala. Portanto, qual é a graça Fetter?

Fetter, em outro episódio polêmico de 2016, incitou ouvintes a cuspir em Lula. Depois, como faz o presidente, recuou… e pediu desculpas, alegando que “preza a vida, a família e o bem”. Aliás, a “desculpa” é uma das novas fontes do Direito nesse início da era Bolsonaro. Onyx se desculpou e tudo ficou limpo nos céus dos super-coroinhas de Bolsonaro. Acho que o Bolsonaro, como Jesus, vai inaugurar uma nova era. Em breve estará nos livros de história: ano 5 d.B (depois de Bolsonaro).

Em que pese ser uma pessoa que tem minha sincera admiração como profissional, Fetter é a encarnação desses típicos neoconservadores do sul: parciais na direção dos cuspes e inconscientes daquilo que fica no plano latente. Enquanto a fachada é de respeito à diversidade, na inconsciência pulula, sem que o dono perceba, uma ojeriza cultural encravada aos estereótipos que  são contrários aos valores ingênuos que os homens de bem pregam. Fetter é só mais um dos tantos homens “de bem” que não sabem (assim acredito…) o quanto também são “do mal”.

Por fim. Em dezembro de 2018, há apenas 1 mês atrás, resolvi abandonar a profissão de advogado. Uma série de boas razões me fizeram tomar a decisão. Algumas delas até têm estreita relação com o tema dessa minha doce indignação, afinal, meu propósito como advogado trabalhista era como o de Jean Wyllys na política: defender os mais fracos dos monstros abortados pelo capitalismo, aquela gente que, no fim das contas, sempre se fode mais.

Digo isso porque quero, gentilmente, solicitar ao Alexandre Fetter que retire do ar, em todos os canais, o áudio e o vídeo em que noticia o exílio de Jean Wyllys. No entanto, caso meu pedido não seja atendido, ainda que já tenha enchido o saco de advogar, vou propor, por puro dever simbólico, minha última ação judicial como advogado. Para defender o direito de que se cuspa saliva na cara de quem potencialmente cospe lama barrenta.

 

Paulo Ferrareze Filho é doutor em Filosofia do Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina, professor de Psicologia Jurídica e psicanalista em formação.

 

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