A estrela de Zygmunt Bauman: completam-se dois anos sem a voz pensante da pós-modernidade
Quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

A estrela de Zygmunt Bauman: completam-se dois anos sem a voz pensante da pós-modernidade

Imagem: Babbi Matteo

As relações líquidas tendem a persistir numa sociedade em que o individualismo e o consumismo se tornaram fatores que incitam a degradação humana. A memória, todavia, jamais deve perecer: Bauman ainda é solidez

Entremeio a datas comemorativas – de caráter religioso ou não –, o início do mês de janeiro nos entrega a triste lembrança de que se completaram dois anos desde a morte do polonês Zygmunt Bauman. Conhecido sociólogo e pensador da contemporaneidade, cujas reflexões acerca da pós-modernidade e da liquidez das relações humanas impactaram de maneira bastante positiva o meio intelectual e, sobretudo, o acadêmico, influenciando não apenas as ciências humanas em geral – especificamente as ciências sociais e a filosofia, mais afins ao objeto de estudo do autor –, mas atingindo também estudiosos da arquitetura, por exemplo, que aplicam o pensamento baumaniano às relações pessoais travadas no contexto urbanístico e como isso determina o comportamento dos citadinos.

Nascido em novembro de 1925, Zygmunt Bauman iniciou sua carreira profissional na Universidade de Varsóvia, na qual ocupou a cadeira de sociologia geral até que alguns de seus escritos atingiram diretamente interesses contrários aos do centro de estudos, ocasionando a censura dos trabalhos e seu afastamento da cátedra, inclusive perpassando e sofrendo os males do século XX, quais sejam, a perseguição, o exílio e a guerra. Anos após, fixou-se na Grã-Bretanha, onde se tornou professor titular de sociologia na Universidade de Leeds e por lá permaneceu por mais vinte anos. Nesse ínterim, até o término de seus 91 anos, Bauman colecionou os mais diversos escritos, que possuíam as seguintes finalidades: criticar vorazmente as relações humanas existentes naquilo que ele optou por denominar de pós-modernidade – os tempos de hoje – e, por outro lado, denunciar e alertar sobre a persistência da liquidez na sociedade.

Sem prejuízo de outras contribuições de grande monta, é certo que Bauman se tornou bastante reconhecido no meio intelectual – citando-se como exemplo o Brasil, em que seus trabalhos ganharam projeção por meio das redações de vestibulares e das referências acadêmicas, como argumento de autoridade, cuja citação é recorrente nos mais diversos textos – em virtude de sua reflexão sobre a sociedade líquida, na qual nada é feito para durar e todas as coisas (e pessoas) possuem prazos de validade, podendo ser facilmente descartadas. Ou seja, trata-se de “uma forma de vida que tende a ser levada à frente numa sociedade líquido-moderna”.

Para o autor, a sociedade dos tempos de hoje – da pós-modernidade – está condenada a sobreviver diante do estado de liquidez. Valendo-se de uma analogia relacionada ao fato de que os líquidos não possuem uma forma própria e trazendo a ideia de algo eminentemente volúvel e momentâneo, ou, para utilizar uma metáfora marxista, uma sociedade em que “tudo que é sólido desmancha no ar”, Bauman quer dizer que o momento em que vivemos é determinado por uma regra geral de convivência. Esta impulsiona os sentidos e a atuação dos integrantes da sociedade, regra essa que impõe que os indivíduos não possam se quedar inertes, sem se entregarem aos deleites da modernização, de modo que, caso optem por esse “trágico” caminho, tanto eles, individualmente considerados, quanto a sociedade serão consumidos pelo tempo e se desvanecerão.

O esvaziamento das instituições encarregadas de moldar e balizar o comportamento do indivíduo entremeio à sociedade e a facilidade com que relacionamentos – aqui incluídos os amistosos e os amorosos – são quebrados na pós-modernidade são algumas das características que o sociólogo polonês atribuiu a esse novo período da história humana. Quando questionado, afirmava categoricamente ele, no alto de seus 91 anos de pura lucidez e sabedoria, que vivemos em um mundo cercado de incertezas, em que as relações sociais deixaram de ser pautadas pelo princípio de responsabilidade mútua e se deixaram levar pela liquidez.

Em resumo, a memória e o estudo sociológico de Bauman merecem visitação pelo fato de que a sociedade líquido-moderna é um fato não passível de afastamento de nossa vivência cotidiana. Basta analisarmos a realidade que estamos inseridos para perceber que o sociólogo acertou ao afirmar, por exemplo, que nos relacionamos com outras pessoas sem nos importarmos – ou, ao menos, lembrarmos da existência – de uma responsabilidade e alteridade para com o outro. Ou seja, trocam-se os parceiros por outros agraciados pelo título de “melhores”, tudo pela facilidade com que as desconexões acontecem.

Rememorar Zygmunt Bauman significa não apenas tecer uma elegia, mas também saber que as afirmações que fizera em vida continuam especialmente atuais. A lógica baumaniana da modernidade líquida se apresenta persistente e não há qualquer indício de que terminará em breve: como previsto pelo sociólogo, estamos fadados a uma realidade cíclica ou a uma vida líquida, marcada por uma sucessão de reinícios e na qual a conexão deve ser lida como desconexão.

 

André Luiz Pereira Spinieli é mestrando em Direito pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/Franca).

 

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