China Miéville: A cidade e a Outra-Cidade
Sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

China Miéville: A cidade e a Outra-Cidade

China Miéville, britânico, formado em Antropologia e com Doutorado em Relações Internacionais é um autor de romances e ficções com uma incrível capacidade de transmitir, através da fantasia, algumas visões do nosso mundo que faz dialogar aspectos socais, econômicos e políticos. Me deparei inicialmente com a obra Outubro, publicada pelo selo da Boitempo, onde narra a história da revolução russa de forma peculiar.

Mais recentemente conheci outra obra do autor chamada “A Cidade e a Cidade”. Como sinal da minha lealdade, evitarei spoilers e apenas apresento o elemento inicial da narrativa: no livro, em algum lugar do leste europeu, um Inspetor (Borlú) passa a investigar um homicídio hediondo. O que torna tudo muito mais complexo narrativamente é a geografia local. O personagem principal vive na cidade de Beszel, mas precisa dialogar diretamente com outra cidade – Ul Qoma, algo que poderia ser extremamente ordinário, mas na geografia de China  Miéville, as duas cidades coexistem no mesmo tempo e espaço. São como cidades que se sobrepõe uma à outra, embora totalmente separadas.

Em cada uma das cidades há uma existência própria. A geografia que separa as duas é mais psíquica que física, o que se faz por um “adestramento” que é imposto desde criança aos habitantes das duas cidades. E essa separação provoca a existência real de diferenças, desde as cores de cada uma das cidades, os cheiros, as fisionomias daqueles que nasceram em um ou no outro lado da mesma cidade-moeda.

O treinamento para respeitar a geografia justaposta das cidades faz com que os habitantes de ambas aprendam a “desver” a outra cidade. Uma habilidade não natural, mas que se torna um meio eficiente de manter as cidades separadas. Ao “desver”, você consegue façanhas incríveis que vão desde evitar colidir com um veículo que trafega na mesma via, mas em outra cidade, até ignorar a presença de uma pessoa que está do outro lado dessa geopolítica.

Não se trata de uma divisão tradicional entre cidades, como o próprio personagem principal deixa claro ao indignar-se com comparações como Berlim Oriental e Ocidental, Cisjordânia-Israel, Muro de Evros ou de Ceuta e Melilla. Essas divisões físicas de concreto não são equiparáveis à separação entre as cidades de Ul Qoma e Beszel. Por isso, desver é uma habilidade adquirida e necessária.

Como forma de tornar permanente a divisão entre as fronteiras das cidades, além da naturalização do “desver”, existe um controle violento, praticado por uma entidade terceira e superior, que reprime ferozmente qualquer falha na separação entre as cidades. Seu funcionamento sequer é compreendido pelos moradores, mas todos sentem o medo que ela causa e, por isso, mantém funcionando as divisões estabelecidas e as fronteiras delineadas. Esse mecanismo é acionado eventualmente, pois, embora todos se esforcem para manter as cidades separadas, é inevitável que aconteçam eventuais choques e confusões entre as fronteiras. Quando isso ocorre, uma soma de energia gigantesca é investida para, através da repressão violenta, reestabelecer a ordem e, simultaneamente, ampliar o medo e a vigilância de todos para evitar que tais eventos se repitam. Ou seja, o medo é tão necessário à separação quanto a habilidade de desver.

Apropriando dessas duas características dessa narrativa – a capacidade de desver e o medo – podemos enxergar a nossa geografia cotidiana de forma muito mais límpida. Vivemos numa separação cotidiana dentro de nossas cidades, o que impacta, como na ficção de China Miéville, em transformações reais de como nos enxergamos (ou não), o que ouvimos, sentimos etc.

Entretanto, algo que parece ser comum a qualquer dos lados das cidades que habitamos, assim como na ficção, é que o único elemento democratizado que se impõe sobre todos os lados da cidade: o medo. O medo é um sentimento constante na cidade. Medo de que? A resposta do momento parece ser o medo da violência. A violência que assola as cidades e amedronta as pessoas à construírem muros e sitiarem suas vidas, um componente indispensável para aprender a habilidade de desver.

Assim como na geopolítica fantástica de China, nossa cidade possui dois espaços bem delimitados e cuja violência, em cada um deles, tem sua própria natureza. Nas favelas, a violência é cruenta e promovida oficialmente pelo Estado. O caveirão que sobe, o rabecão que desce. A violência é, antes de tudo, social, com a privação de tantos acessos e investimentos. Do outro lado da cidade, a violência, quando notada, é sofisticada e íntima, sofrendo as vítimas, por exemplo, na privacidade dos lares e das famílias que escondem as agressões. Contudo, mesmo vivendo em cidades bem distintas, o medo de que aquilo que ocorre de forma sitiada no lado de lá chegue até o lado de cá é algo pungente.

Embora o medo seja democratizado, a sua origem, que é a violência, não é. E isso é feito através de um intrincado sistema de comunicação entre os dois lados da cidade, bem como a exploração dos eventuais desvios que ocorrem quando, por exemplo, a parte baixa da cidade se depara com os inevitáveis choques e confusões entre as fronteiras, experimentando episódios de violência que não estão acostumados. Portanto, a repressão precisa ser forte o suficiente para reestabelecer a divisão, bem como reforçar o medo de todos para que aquilo não aconteça novamente, embora inevitavelmente venha a acontecer. Tudo para manter a violência – manancial do medo –  viva, porém sitiada nos espaços periféricos.

É um processo trabalhoso, por isso que todo o aparato precisa colaborar: mídia, sistema de justiça, agências de segurança etc. Toda tecnologia precisa ser, de forma mais ou menos direta, direcionada para alimentar essa fronteira entre as cidades que permite a exploração do medo. Entre essas tecnologias, as agências de força passam a se sofisticar cada vez mais na manutenção da ordem – entendida, a desordem, como qualquer forma de questionar essa violência sitiada, por exemplo. A manutenção da violência de um lado da cidade exigiu a complexificação dos confrontos. Muito foi aprendido, por exemplo, quando o Brasil enviou suas tropas ao Haiti, sobre combate em regiões urbanas e periféricas, contra “inimigos” que não são ostensivos, o que pode ser utilizado como equipamento de conflito em ocupações de cidades e centros urbanos mais recentemente.

Em um efeito “boomerang”, aquilo que se aprende em experiências anteriores, através de laboratórios vivos, passa a ser experimentado paulatinamente como tecnologia para manter as fronteiras bem delimitadas. Após o Haiti, o Exército pode experimentar diversas técnicas em laboratórios cujos experimentos ocorreram, por exemplo, em Natal, Manaus, Fortaleza e outros locais, sob o mote da ausência do controle da violência e rebeliões em presídios que de nada eram imprevisíveis de ocorrer. Até se tornar ainda mais eficiente, com uma intervenção militar duradoura no Rio de Janeiro, com uma “maré” de violências provocadas pelo Estado.

A presença do medo não é algo de boa aceita aos habitantes, por isso, é preciso naturalizar a sua participação na vida da cidade. (Re)acostumar-se aos blindados camuflados nas calçadas, transmitir a frágil sensação de segurança pelos fuzis ostentados em cada esquina, e depois retirá-los, o que também provoca um esvaziamento daquela sensação criada. Além disso, é preciso também naturalizar o soldado-cidadão, responsável por um vigilantismo civil, uma cultura bélica que exalta a violência e os conflitos (na televisão, no cinema, em vários meios), além da cessão de dados da vida privada de forma destemida às agências.

Assim como na narrativa de China Miéville, a quebra da fronteira das cidades aparenta ser algo muito tênue, mas é forte como um muro. Democratizar as cidades seria, antes de tudo, democratizar a violência, e não o medo. Contudo, manter uma outra cidade – justaposta – isolada é uma forma de manter o “outro” em espaços controlados, impedir o fluxo de pessoas e retardar a democratização dos acessos aos direitos mais básicos.

Se entre as coisas que sustentam essas fronteiras entre as nossas cidades está o medo e o desver, o primeiro parece ser algo que precisa ser desestruturado, enquanto o segundo é um desafio muito mais subjetivo e humano. Ensinar a não desver é ensinar ao outro a habilidade de (re)ver. É exercitar a empatia, não tomada como um sentimento de humanização do próximo pela caridade ou benevolência. Enquanto colocarmos a empatia como algo fruto da bondade natural, estaremos tornando-a mais um elemento de retórica dos inúmeros discursos que temos em nossa sociedade. A empatia, que anula a habilidade de desver – ou lhe reduz – é uma empatia construída a partir das experiências e vivências. É o contato cotidiano com pessoas da outra cidade, experimentando suas realidades. É sair da sua cidade e subir ou descer até a outra, e não ignorando que se note diferenças, pois você está habituado à ver naqueles o “outro” – o “não-eu”, mas perceber que essas diferenças não nos afasta, mais aproxima. É desafiar a fronteira entre as cidades, pois todo muro deve ser derrubado.

 

Rochester Oliveira Araújo é mestre em Direito Constitucional, Defensor Público do Estado do Espírito Santo.

 

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