E Marx estava certo
Sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

E Marx estava certo

Desde os primórdios
Até hoje em dia
O homem ainda faz o que o macaco fazia
Eu não trabalhava, eu não sabia
Que o homem criava e também destruía
Homem primata
Capitalismo selvagens.”

Titãs

Começo este texto com a fala do Rei Creonte, pinçada da trágica história de Antígona, personagem da peça homônima de Sófocles, encenada pela primeira vez em 441 a.C:

Nunca entre os homens floresceu uma invenção pior que o ouro; até cidades ele arrasa, afasta os homens de seus lares, arrebata e impele almas honestas às ações mais torpes e incita ainda os homens ao aviltamento, à impiedade em tudo. Mas, quem age assim por interesse, um dia paga o justo preço.

As tragédias/crimes de Mariana e Brumadinho fazem emergir o lado fétido e parasitário do capitalismo, hodiernamente apresentado em sua face financeira.
Como já denunciou o sociólogo Zygmunt Bauman:

“Sem meias palavras, o capitalismo é um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento. Mas não pode fazer isso sem prejudicar o hospedeiro, destruindo assim, cedo ou tarde, as condições de sua prosperidade ou mesmo de sua sobrevivência”. (Zygmunt Bauman. Capitalismo Parasitário. Zahar, 2010).

O solo e subsolo que em algum momento conheceram a sanha insaciável e destrutiva das empresas mineradoras, jamais se restabelecem inteiramente, restando, depois de sua exploração, uma terra inóspita e extenuada: um cenário digno das piores distopias futuristas. Como constata Bauman:

“… sabemos que a força do capitalismo está na extraordinária engenhosidade com que busca e descobre novas espécies hospedeiras sempre que as espécies anteriormente exploradas se tornam escassas ou se extinguem. E também no oportunismo e na rapidez, dignos de um vírus, com que se adapta às idiossincrasias de seus novos pastos”. (Zygmunt Bauman. Capitalismo Parasitário. Zahar, 2010).

Agora que a destruição e a morte são escancaradas nas manchetes dos jornais diários se faz necessário refazer o itinerário de exploração, que continuará seu caminho em busca de, como diria Bauman, novas “terras virgens” que serão encontradas e novos esforços que serão feitos para explorá-las, por bem ou por mal, até o momento em que sua capacidade de engordar os lucros dos acionistas e as gratificações dos dirigentes for exaurida.

Terry Eagleton já nos advertiu que:

“Pela primeira vez na história, nossa forma prevalente de vida tem o poder não apenas de alimentar o racismo e disseminar o cretinismo cultural, nos levar à guerra ou nos tocar como rebanhos para os campos de trabalho, mas também de nos riscar do planeta. O capitalismo se comportará de maneira antissocial se considerar essa atitude lucrativa, e isso atualmente pode significar a devastação humana numa escala inimaginável. O que antes não passava de fantasia apocalíptica é agora realismo sóbrio. O tradicional slogan esquerdista “Socialismo ou barbárie” nunca foi mais sombriamente adequado e nunca equivaleu menos a um mero floreio retórico”. (grifamos). (Terry Eagleton. Marx Estava Certo. Nova Fronteira, 2012).

Os crimes perpetrados em Mariana e Brumadinho, com tamanha e singular destruição da vida natural e humana, devem ter o condão de nos ensinar alguma coisa, de nos fazer questionar, repensar nosso itinerário civilizacional e corrigir a rota, antes que seja impossível fazê-lo. Penso que um pensador como Karl Marx pode nos fornecer algumas respostas, além de aguçar nosso senso crítico para a necessária reavaliação do capitalismo financista, rentista e selvagem que lançou seus dejetos sobre todos nós, ao atingir nossas cidades mineiras.

Nos tempos sombrios em que vivemos, com a captura do imaginário social e político global pela extrema direita neoliberal e por seu viés tupiniquim, com a demonização de pensadores e de ideias, ia dizer ideologia, mas o vocábulo está proscrito do léxico político e gramatical, segundo os ditames da “nova era”. Assim, em cenário tão desalentado, talvez se mostre oportuno falarmos, como eu disse, de um pensador e sua concepção de nossas sociedades capitalistas: Marx e o Marxismo.

Devo advertir, por um dever de honestidade intelectual, que não reúno as credenciais necessárias e nem os estudos e leituras indispensáveis para a elucidação e exposição de uma teoria econômica, política, social e filosófica da dimensão e complexidade da obra de Marx, a qual absorveu boa e significativa parte de sua existência, em meio a atribulações e aflições que teriam facilmente feito vergar o homem comum. Porém, Marx as enfrentou, a seu modo, com uma invejável e admirável resistência estóica.

Os objetivos que me movem a escrever este texto são bem modestos. Visam a divulgação e, porque não dizer, a “vulgarização” da obra de Marx, nestes tempos de um capitalismo antropofágico, trazendo até vocês algumas importantes referências bibliográficas, que os possibilitariam ir mais fundo no conhecimento do autor e sua obra.

Marxismo, Comunismo e Socialismo são palavras que têm baixa cotação na bolsa das apostas ideológicas da extrema direita neoliberal, que por ora comanda o pregão, satanizando-as, depreciando-as, deturpando-as sem nenhum pudor, compostura ou civilidade.

Em uma das obras fundamentais do pensamento marxiano colhe-se o seguinte:

“Qual partido de oposição não foi qualificado de comunista por seus adversários no poder? Qual partido de oposição, por sua vez, não lançou de volta a acusação de comunista, tanto a outros opositores mais progressistas quanto a seus adversários reacionários? … A história de todas as sociedades até agora tem sido a história das lutas de classe”. (Friedrich Engels. O Manifesto Comunista 150 anos depois. Fundação Perseu Abramo e Contraponto, 1998).

Em tempos de tendências ideológicas conservadoras, retrógradas, primitivas, misóginas, homofóbicas, que se escondem sob uma pretensa e impossível neutralidade, em algum momento as máscaras sociais caem e sob as mesmas desnuda-se uma horrenda e ignóbil face, com seus abjetos sulcos de preconceitos, intolerância e atraso.

Diante de tudo isso, resolvi buscar luzes e respostas na complexa obra de um autor, que muitos fizeram questão de nos convencer que estava banido, expatriado, exilado, degredado e suprimido do campo das interpretações econômicas, filosóficas e sociais da sociedade contemporânea. Seu amigo, coautor e sustentáculo material Friedrich Engels, quando das exéquias de Marx, em 1883, vaticinou: “Seu nome e sua obra permanecerão por séculos afora”.

Segundo o economista francês Jacques Attali, citado por Eric Hobasbawm:

“Marx ainda tem muito a dizer àqueles que desejam que o mundo seja uma sociedade diferente e melhor do que a que temos atualmente. É bom lembrar que mesmo desse ponto de vista precisamos levar Karl Marx em conta hoje em dia”. (Eric Hobsbawm. Como Mudar o Mundo. Companhia das Letras, 2011).
Realmente o capitalismo, até o advento de Karl Marx, não tinha encontrado um intérprete que o estudasse de forma crítica, com tamanho afinco, zelo e erudição, de forma obstinada e ininterrupta por décadas, como ele o fez, expondo suas entranhas pútridas, seus estratagemas, seu camaleonismo, sua ideologia.

Nas palavras de um de seus biógrafos:

“… menos de cem anos depois de sua morte, metade da população mundial era dominada por governos que professam ter no marxismo seu credo norteador. As ideias de Marx transformaram o estudo da economia, da história, da geografia, da sociologia e da literatura. Desde Jesus Cristo, nenhum pobretão obscuro havia inspirado tanta devoção global – ou sido tão calamitosamente mal interpretado”. (Francis Wheen. Karl Marx. Record, 2001).

Transcorridos cento e trinta e seis anos de sua morte, ocorrida em 1883, Marx é ainda “calamitosamente mal interpretado”. Sua teoria econômica e social foi durante toda a sua vida e continua, ainda hoje, a ser vítima de deturpações, eivadas de desconhecimento e corrosiva má-fé, se tornando, nos dias atuais quase inacessível, por diferentes motivos, àquela classe social à qual ele buscou esclarecer e proteger: a classe proletária.

Os arautos do capitalismo e, por conseguinte, os detratores de Marx e do Marxismo, conseguiram, ao longo dos séculos XIX, XX e XXI, infundir no imaginário social um pavor e um medo irracionais contra Marx, o Marxismo, o Comunismo e o Socialismo. Essas palavras foram transformadas em palavras sacrílegas, para tanto, usando seus difamadores de artimanhas sórdidas e abomináveis. Táticas que os nazistas foram exímios em usar contra os indefesos judeus e, entre nós, Getúlio Vargas contra os insurretos comunistas de 1935, incrustando-se no imaginário social brasileiro, até hoje, a ideia do comunista como um monstro sanguinário que “come criancinhas”, entre outras atrocidades que seria capaz de cometer. Esses expedientes ignóbeis fazem hoje parte da cartilha da extrema direita que, tem acendido ao poder mundo afora, a exemplo de Donald Trump nos EUA e de Bolsonaro no Brasil, à base do medo irracional e incongruente que souberam perpetrar, alimentar e difundir.

No intuito de exemplificar as mais bizarras e inverossímeis ideias sobre Marx recolho a seguinte passagem da citada biografia escrita por Francis Wheen:
Assim houve seguidores imbecis ou ávidos de poder que endeusaram Marx, também seus críticos caíram com freqüência no erro equivalente e oposto de imaginá-lo um agente de Satanás. “Havia momentos em que Marx parecia possuído pelos demônios”, escreveu um biógrafo moderno, Robert Payne. “Ele tinha do mundo uma visão diabólica, assim como a malignidade do diabo.” Essa escola de pensamento – que mais parece um reformatório, na verdade – chegou a sua conclusão absurda em Era Karl Marx satanista?, um livro extravagante, publicado em 1976 por um célebre pregador norte-americano, o reverendo Richard Wurmbrand, autor de obras primas imperecíveis, como Tortured for Christ (Torturado em nome de Cristo), (“mais de dois milhões de exemplares vendidos”) e The Answer to Moscow’s Bible (Resposta à Bíblia de Moscou).

Vejamos que as mesmas artimanhas, repulsivas e sórdidas, foram usadas pelos nazistas, que se valeram de preconceitos ancestrais, difundidos na sociedade alemã. Daniel Jonah Goldhagen em seu inestimável estudo sobre o holocausto e o povo alemão nos esclarece que:

O anti-semitismo não nos diz nada sobre os judeus, mas muito sobre os anti-semitas e a cultura que os gerou. Mesmo um olhar superficial sobre as qualidades e poderes atribuídos aos judeus pelos anti-semitas ao longo das eras – poderes sobrenaturais, conspirações internacionais e a habilidade de fazer naufragar economias; a utilização do sangue de crianças cristãs em seus rituais, até mesmo assassinando para obter seu sangue; aliança com o Demônio; controle simultâneo sobre o capital internacional e o bolchevismo – indica que o anti-semitismo vai em busca, fundamentalmente, de fontes culturais independentes da natureza dos judeus e de suas ações, e os próprios judeus passam a ser definidos por noções culturalmente derivadas de imposições anti-semitas.

Esse mecanismo subjacente ao anti-semitismo é característico do preconceito geral, embora, através de arroubos imaginários assombrosos, tenha sido cultivado pelos anti-semitas, repetida e rotineiramente, de forma rara nos anais do preconceito. O preconceito não é conseqüência das ações e atributos de seu objeto. Não é uma aversão objetiva à natureza real do objeto. Classicamente, não importa o que o objeto faça, o fanático o difama por isso. A fonte do preconceito é o portador das crenças, seu modelo cognitivo e sua cultura.

O preconceito é a manifestação da busca de significado pelas pessoas (individual ou coletivamente). Não faz sentido discutir a natureza real do objeto do fanatismo – neste caso os judeus – quando tentamos entender a gênese e a manutenção dessas crenças. Fazê-lo seria certamente desnortear o entendimento sobre o preconceito – neste caso, o anti-semitismo. (Daniel Jonah Goldhagen. Os carrascos voluntários de Hitler – O povo alemão e o holocausto. Companhia das Letras, 1997).

Essa longa citação se mostra importante como uma tentativa de nos fazer perceber como os preconceitos são capazes de nos cegar e suprimir nossa racionalidade. Tais preconceitos que cercaram e, em alguma medida, ainda pairam sobre os judeus e o judaísmo, também pontilharam o caminho de Marx e do Marxismo. Em alguma medida, encontram esses preconceitos pontos de aproximação, se não parecer exagero pretendê-lo, com o que se deu em relação aos judeus. Como se depreende do trecho do livro de Daniel Jonah Goldhagen, com relação a Marx, ao Marxismo e ao Comunismo são utilizados os mesmos artifícios da depreciação do objeto e da disseminação de preconceitos disparatados, ilógicos, irracionais, incoerentes e incongruentes.

Marx, já em 1848, no Manifesto comunista, alertava para o fato de o comunismo, àquela época, ser reconhecido como uma força poderosa por todas as potências européias, às quais desde então vêem tentando, com relativo êxito em dados setores da sociedade mundial e brasileira, infelizmente, aniquilá-lo ou ao menos minimizar sua importância e centralidade para a compreensão de nossas sociedades contemporâneas.

A obra de Marx é colossal, englobando livros escritos a partir da década de 40 do século XIX, tendo sua produção seguido ininterrupta até sua morte, na Inglaterra, em 1883.

Em uma ambiciosa biografia, prevista para três volumes, cujo volume I foi recentemente vertido para o português, o cientista político alemão Michael Heinrich assevera:

Sabe-se que os textos publicados pelo próprio Marx são apenas a ponta de um gigantesco iceberg que só seria explorado gradativamente no decorrer do século XX. Cada geração teve acesso a uma “obra completa” diferente, da qual se retirava apenas o que parecia ser mais relevante. Só hoje, no início do século XXI, graças à nova Marx-Engels-Gesamtausgabe (Edição Completa da Obra de Marx e Engels – MEGA 2), é que temos um panorama – aproximado – de sua obra completa. (Michael Heinrich. Karl Marx e o Nascimento da Sociedade Moderna. Biografia e Desenvolvimento de sua obra. Boitempo, 2018).

Karl Marx nasceu em 1818, na pequena cidade alemã de Trier, no Império da então Prússia, parte daquela região que seria conhecida a partir de 1871, com a unificação, como Alemanha. Foi o terceiro, de nove filhos de uma família de classe média e de origem judaica. O pai viu-se compelido a converter a si e sua família ao luteranismo, para protegê-la da perseguição a que os judeus, já naquela época, sofriam e, também, como condição para que pudesse exercer sua profissão de advogado.

Marx, a exemplo de seu pai e por sua influência, cursou Direito, iniciando seus estudos em Bonn e os concluindo em Berlim. Descobre e encanta-se, no entanto, pela Filosofia, que exercerá um magnetismo imorredouro sobre ele por toda a sua vida, em detrimento do Direito.

Marx foi um pensador, como poucos, que durante toda a sua vida conciliou e conjugou teoria e prática. Não se restringiu a ser um homem de gabinete, um teórico em sua torre de marfim. Ao contrário, teve envolvimento direito em vários movimentos sociais, atuando em diferentes Associações de trabalhadores e Sindicatos. Foi perseguido em razão disso e expulso de seu torrão natal, tornando-se um apátrida. Em sua vida de militante político-social – atribulada e errante – morou em diferentes cidades. Em Paris, de onde seria, também, expulso pelo governo. De Paris emigrou para Bruxelas, cidade da qual, igualmente, seria expulso, até mudar-se para Londres, cidade que adotou e na qual passou os últimos trinta anos de sua vida, até sua morte em 1883. Londres foi o epicentro e nascedouro do capitalismo industrial, o que lhe permitiu observar, in loco, suas peculiaridades e idiossincrasias.

Este espírito revolucionário, que animou toda a vida de Marx, foi evocado no discurso fúnebre feito por seu amigo Engels:

Marx era, antes de tudo, um revolucionário. Contribuir, de uma maneira ou de outra, para o declínio da sociedade capitalista e das instituições estatais criadas por ela, contribuir para a libertação do proletariado moderno (…), essa era a verdadeira tarefa de sua vida. (Michael Heinrich. Karl Marx e o Nascimento da Sociedade Moderna. Biografia e Desenvolvimento de sua obra. Boitempo, 2018).

Como atesta Michael Heinrich:

“… nenhum autor dos últimos duzentos ou trezentos anos exerceu influência tão abrangente e duradoura com suas perspectivas e análises, tanto no plano científico quanto no político, como Marx. Já há uns cem anos, muitos críticos proclamam, repetidamente, a novidade em tom triunfal: “Marx está morto”. Pois essas afirmações, repetidas com freqüência, são justamente o indício mais certo de seu contrário: se Marx estivesse de fato obsoleto em termos científicos e políticos, não seria necessário evocar tanto sua morte”. (Michael Heinrich. Karl Marx e o Nascimento da Sociedade Moderna. Biografia e Desenvolvimento de sua obra. Boitempo, 2018).

Poderíamos nos perguntar por que a teoria marxista exerce, ainda hoje, tamanha e assombrosa influência. Teria ela ainda alguma validade para nossos problemas atuais?

Terry Eagleton responde afirmativamente a essas indagações:

Desigualdades espetaculares de riqueza e poder, beligerância imperialista, exploração intensificada, um Estado cada vez mais repressivo: se tudo isso caracteriza o mundo de hoje, trata-se, também, de questões sobre as quais o marxismo atuou e refletiu durante quase dois séculos. Seria de esperar, então, que ele tivesse algumas lições a ensinar ao presente. (Terry Eagleton. Marx Estava Certo. Nova Fronteira, 2012).

Poderíamos identificar a presença, na cena internacional e interna, de cada uma das mazelas apontadas no texto de Terry Eagleton.

A literatura já retratou o regime de espoliação, miséria e degradação a que eram submetidos trabalhadores franceses nas minas de carvão espalhadas pelo país. Em Germinal, obra prima do naturalismo francês, o escritor Émile Zola retrata a vida e os dramas vivenciados por esses trabalhadores. O romance é um libelo acusatório das condições subumanas a que era submetida a classe trabalhadora. Foi publicado em 1885, apenas dois anos depois da morte de Marx. Um dos personagens, tem uma atuação protagonista na tomada de consciência de classe trabalhadora, no romance representada por mineiros. Em dado momento do romance, evoca as ideias marxistas que circulavam, com menção expressa à internacional comunista:

Etienne, no entanto, estava muito animado. Uma predisposição para a revolta o impelia à luta do trabalho contra o capital, numa primeira ilusão, que era produto da ignorância. Tratava-se da Associação Internacional dos Trabalhadores, da famosa Internacional que acabava de ser criada em Londres. Não havia nisso um esforço maravilhoso, uma campanha onde a justiça ia enfim triunfar? O fim das fronteiras, os trabalhadores do mundo inteiro levantando-se, unindo-se para assegurar ao operário o pão que ganha. E que organização simples e grandiosa! Embaixo a seção que representa a comuna, em seguida a federação que agrupa as seções de uma mesma província, depois a nação e por fim, no topo, a humanidade encarnada num conselho geral onde cada nação está representada por um secretário correspondente. Antes de seis meses a terra seria conquistada e ditar-se-iam as leis aos patrões se eles se fizessem de espertos. (Émile Zola. Germinal. Victor Civita, 1979).

Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo do último dia 31 de janeiro do corrente ano ratifica a perenidade e atualidade da obra de Marx. A manchete está estampada em letras garrafais: “Desemprego médio fecha 2018 em 12,3% em ano marcado por recorde na informalidade. Taxa recua a 2017, mas geração se concentra em trabalhos de baixa qualificação e salário”. (grifamos).

Destaque-se da matéria jornalista supra aludida:

O contingente de desocupados na média do ano passado foi de 12,8 milhões de pessoas, queda frente as 13,2 milhões nessa condição em dezembro do ano anterior. No intervalo de um ano, a fila de emprego foi reduzida em 400 mil pessoas. A fila é menor porque muitas pessoas, levadas pela crise, aceitaram empregos de qualidade mais baixa para sobreviver. São estudantes, idosos ou mães com filhos pequenos que antes não trabalhavam e que agora estão tendo que complementar a renda do domicílio. A entrada desses novos atores no mercado fez explodir o número de pessoas ocupadas do país.

A questão da exploração do trabalho pelo capital, denunciada em vários escritos de Marx e, de modo mais sistemático e científico, em sua obra “O Capital”, continua de triste e tormentosa realidade, mostrando sua atualidade na análise que empreendeu da relação capital-trabalho.

Para ilustrar tal assertiva valho-me de um livro recentemente publicado pela editora Boitempo: “O Privilégio da Servidão”. O livro foi escrito pelo sociólogo Ricardo Antunes, um dos mais importantes estudiosos da questão do trabalho no mundo contemporâneo.

Na apresentação de mencionada obra Michael Lowy diz:

O livro que o leitor tem em mãos é de uma extraordinária riqueza, da qual o título só abarca uma expressão parcial. Aqui Antunes estuda não só o novo proletariado, dito “informal” ou “digital”, do setor de serviços – vítima de precariedade e reificação -, mas também a tendência geral de precarização e terceirização do trabalho no Brasil: a “devastação do trabalho”, promovida pelo capitalismo global, tanto na indústria como no agronegócio. Um processo com consequências dramáticas para os explorados – a “sociedade do adoecimento no trabalho” – e que se realiza, infelizmente, com a cumplicidade do “sindicalismo negocial”. (Ricardo Antunes. O Privilégio da Servidão. O Novo Proletariado de Serviços na Era Digital. Boitempo, 2018).

Ricardo Antunes é um ardoroso leitor e entusiasta da obra de Marx, cujas lições estão indubitavelmente incorporadas em seus escritos. E já que a mineração e as mineradoras fazem parte da temática atual, vejamos como elas se relacionam com um aparelhinho que todos nós temos como nossos amiginhos de estimação:

Se o universo do trabalho on-line e digital não para de se expandir em todos os cantos do mundo, é vital recordar também que o primeiro passo para se chegar ao smartphone e seus assemelhados começa com a extração de minério, sem o qual os ditos cujos não podem ser produzidos. E as minas de carvão mineral na China e em tantos outros países, especialmente do sul, mostram que o ponto de partida do trabalho digital se encontra no duro ofício realizado pelos mineiros. Da extração até a ebulição, assim caminha o trabalho no inferno mineral.

É justamente esse o tema de Behemoth, dirigido por Zhao Liang, filme devastador. Do formigueiro composto pelos caminhões adentrando as minas até o trabalho sob temperatura mais que diversificada, Behemoth mostra como as minas são uma verdadeira sucursal do inferno. Acidentes, contaminação, devastação do corpo produtivo, mortes, tudo isso ocorre na sociedade dos que imaginaram que as tecnologias da informação eliminariam o trabalho mutilador. (Ricardo Antunes. O Privilégio da Servidão. O Novo Proletariado de Serviços na Era Digital. Boitempo, 2018).

Livro instigante e imprescindível para se entender as configurações e metamorfoses do trabalho no capitalismo contemporâneo. Ricardo Antunes sumaria, no mesmo, vários outros filmes que nos põem em contato, em pleno século XXI, com um trabalho brutal e degradante que conhecíamos, até então, dos livros de história dos primórdios da Revolução Industrial, nos séculos XVII e XVIII.

Já chamei a atenção para a prolífera obra de Marx, fazendo-se necessário agora nos determos um pouco mais sobre aquela é unanimemente considerada sua obra prima: “O Capital”. Para essa obra terá confluído toda a sua erudição e nela se cristaliza todo o pecúlio de seus conhecimentos, amealhados em décadas de leituras e estudos intensos e extensos.

Marx projetou “O Capital” para ser desdobrado em quatro volumes. No entanto, só assistiu a publicação do volume I, em 1867, depois de mais de duas décadas de intenso trabalho, interrompido pela produção de outros textos e por uma gama diversificada de atribuições e atribulações.

Quando morreu, em 1883, ainda estava às voltas com essa obra infindável. A partir dos manuscritos deixados por Marx, seu amigo Engels publicou os volumes II e III, chegando até nós como obra incompleta e inacabada. Como esclarece Jacob Gorender:

Os manuscritos de Marx encontravam-se em diversos graus de preparação. Só a menor parte ganhara redação definitiva. Havia, porém, longas exposições com lacunas e desprovidas de vínculos mediadores. Vários assuntos tinham sido abordados tão somente em notas soltas. Por fim, um capítulo imprescindível apenas contava com o título. Tudo isso sem falar na péssima caligrafia dos manuscritos, às vezes incompreensível até para o autor. A tarefa, por conseguinte, ia muito além do que, em regra, se atribui a um editor. Seria preciso que Engels assumisse certo grau de coautoria, o que fez, não obstante, com o máximo escrúpulo. Conforme explicou minuciosamente nos prefácios, evitou substituir a redação de Marx pela sua própria em qualquer parte. (Karl Marx. O Capital – Crítica da Economia Política. Boitempo, 2017).

O professor Francisco Pinheiro, louvando a edição da obra “O Capital”, com tradução diretamente do alemão, tarefa levada a cabo pela valorosa editora Boitempo, nos diz que:

Colocando o corpo do capitalismo sobre a lápide fria da realidade, Marx procede como um anatomista; abre o interior do sistema para uma sistemática exploração e depara-se com a simultânea maravilha do corpo e de sua miséria, no sentido de sua intrínseca e fatal deterioração – o horror, na célebre frase de Marlon Brando em Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola. Em muitas partes, essa minuciosa descrição contém as passagens mais difíceis e mais áridas do texto, diante das quais não se deve recuar. … Mas como um dos textos fundamentais da modernidade, ele abre as portas para sua compreensão no contexto das lutas de classes de nosso tempo, tarefa para a qual são chamadas as mulheres e os homens empenhados na transformação, esse trabalho de Sísifo ao qual estamos condenados até o raiar de uma nova era. (Karl Marx. O Capital – Crítica da Economia Política. Boitempo, 2017).

Jacob Gorender, em apresentação à obra capital de Marx deixa consignado o seguinte:

Em 1867, vinha à luz, na Alemanha, a primeira parte de uma obra intitulada O capital. Karl Marx, o autor, viveu então um momento de plena euforia, raro em sua atribulada existência. Durante quase vinte anos, penara duramente a fim de chegar a este momento – o de apresentar ao público, conquanto de maneira ainda parcial, o resultado de suas investigações no campo da economia política. Não se tratava, contudo, de autor estreante. À beira dos cinquenta anos, já imprimira o nome no frontispício de livros suficientes para lhe assegurar destacado lugar na história do pensamento. Àquela altura, sua produção intelectual abrangia trabalhos de filosofia, teoria social, historiografia e também economia política.

Quem já publicara Miséria da filosofia, Manifesto do Partido Comunista, As lutas de classes na França de 1848 a 1850, O 18 de brumário de Luís Bonaparte e Para a crítica da economia política podia avaliar com justificada sobranceria o próprio currículo. No entanto, Marx afirmava que, até então, apenas escrevera bagatelas. Sentia-se, por isso, autor estreante e, demais, aliviado de um fardo que lhe vinha exaurindo as forças. Também os amigos e companheiros, sobretudo Engels, exultavam com a publicação, pois se satisfazia afinal a expectativa tantas vezes adiada. Na verdade, pouquíssimos livros dessa envergadura nasceram em condições tão difíceis. (Karl Marx. O Capital – Crítica da Economia Política. Boitempo, 2017).

Essa obra fundamental de Marx é, sem exagero, responsável pelo nascimento da sociedade moderna, como se colhe do subtítulo da biografia escrita pelo cientista político alemão Michael Heinrich.

O Capital é uma obra de concepção multidisciplinar, na qual Marx faz convergir uma gama espantosa de saberes, ilustrativos de sua incomensurável erudição.

O professor David Harvey estuda a obra de Marx há décadas, tendo publicado inúmeros livros sobre Marx e o Marxismo. Também ministra cursos, inclusive em vídeos, e em diversas instituições e para os mais variados públicos. Ele publicou dois livros inteiros no intuito de promover a interpretação do Capital, assim como torná-lo mais acessível a um público mais amplo. Dessa obra, publicada com o título “Para Entender o Capital”, extraio o seguinte trecho:

Uma importante razão para assumir uma postura aberta em relação a essa leitura é o fato de O Capital ser um livro extremamente rico. Shakespeare, os gregos, Fausto, Balzac, Shelley, contos de fadas, lobisomens, vampiros e poesia, encontramos tudo isso em suas páginas, ao lado de inúmeros economistas políticos, filósofos, antropólogos, jornalistas e cientistas políticos. Marx trabalha com uma imensa gama de fontes, e pode ser instrutivo – e divertido – refazer seu caminho até elas. Algumas dessas referências podem ser alusivas, já que muitas vezes ele não as indica diretamente; até hoje, à medida que ensino O Capital, continuo a encontrar novas conexões. Quando comecei, não tinha lido Balzac, por exemplo. Mais tarde, ao ler seus romances, peguei-me muitas vezes dizendo: “Ah, foi daqui que Marx tirou tal coisa”. Segundo consta, Marx leu extensivamente a obra de Balzac e ambicionava escrever um estudo completo sobre A comédia humana, depois de terminar O Capital. Ler ao mesmo tempo Balzac e O Capital ajuda a entender por quê. (David Harvey. Para Entender o Capital – Livro I. Boitempo, 2013).

Para que possamos já nos ir encaminhando para o final deste texto vou buscar apoio em Terry Eagleton para fornecer mais algumas idéias balizadoras da obra de Marx:

Duas grandes doutrinas residem no âmago do pensamento de Marx. Uma é o papel primordial da questão econômica na vida social; a outra, a ideia de uma sucessão de modos de produção ao longo da história.

(…)

A ideia de luta de classes de forma alguma é exclusiva de Marx, como ele próprio bem o sabia. Ainda assim, é bastante central para ele. Tão central que ele a vê como nada menos do que a força que move a história humana. Ela é o motor ou a dinâmica do desenvolvimento humano, ideia que não teria ocorrido a John Milton. Enquanto muitos pensadores sociais encaram a sociedade humana como uma unidade orgânica, na visão de Marx, o que a constitui é divisão. Ela é feita de interesses mutuamente incompatíveis. Sua lógica é de conflito, não de coesão. É do interesse da classe capitalista, por exemplo, manter baixos os salários e do interesse dos assalariados pressionar para empurrá-los para cima.

(…)

Ele não pretendia ser uma filosofia absoluta. Não nos dá conta da beleza, do erotismo ou do porquê de o poeta Yeats conseguir uma ressonância curiosa em seus versos. Praticamente nada diz sobre as questões do amor, da morte e do significado da vida. Tem, é verdade, uma imponente narrativa a fazer, que se estende desde a aurora da civilização até o presente e o futuro. Terry Eagleton. Marx Estava Certo. Nova Fronteira, 2012).

Espero que meu objetivo, exposto inicialmente, tenha sido minimamente alcançado e tendo você chegado até aqui, sinta-se estimulado a ir além e descobrir, com um grau de maior aprofundamento, o universo de Marx e do Marxismo.

 

Carlos Eduardo Araújo é professor Universitário e mestre em Teoria do Direito (PUC-MG).  

 

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