O Grande Protetor da Face da Terra
Segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O Grande Protetor da Face da Terra

“O país e boa parte do mundo seguem ignorando os riscos para a vida na Terra, agindo com descaso com as questões sociais, ambientais e políticas, fazendo pouco da democracia. Ultrapassamos a linha, estamos vivendo com base na violência”

Arte: Daniel Caseiro. Montagem com escultura francesa do séc XVIII talhada em presa de elefante (marfim).

Por Valdirene Daufemback

 

O mundo anda estranho, parece que abandonou sua capacidade de aprender com o passado e reconhecer os seus limites. Em vários momentos, as reações aos problemas contemporâneos têm o caráter de aprofundá-los. Permitam-me uma digressão realística para pensar sobre isso.

Um sujeito intenso, espontâneo e com surpreendentes pitadas de humor e sabedoria. Assim definiria Giuliani, a figura que vive na minha história. Em 1994, ele tinha um pouco mais que 30 anos. Chamava atenção por sua altura e explícitas marcas da descendência dos migrantes italianos que tentaram a vida no sul do país e foram se desdobrando em gerações. Logo que nos conhecemos, relampeou uma preferência. Dele comigo e minha com ele. Entre o corpo técnico que atuava no manicômio judiciário e os pacientes, cerca de 500 homens e mulheres, haviam fios que se ligavam com mais fluidez. É assim na vida.

Nos encontros diários essa relação foi se iluminando. Para além das compulsões e dos padrões que nos fazem existir, Giuliani insistia na minha presença. Já eu, fazia um esforço para não demonstrar distinção, era parte da liturgia profissional. Mas sabíamos que estava ali a conexão, numa dimensão subjetiva e coletiva, que os pacientes inclusive acessavam com mais sabedoria – uma galáxia de simbolismos, afetos, representações que convivem com a racionalidade.

Comprovação disso, veio num episódio inusitado. Após uma assembleia dos pacientes, Giuliani se dirige aos estagiários, na saída do auditório, que acompanhavam o fluxo do retorno às galerias, e puxou uma conversa certeira com o estagiário de odontologia:

– Tu gostas dela né? Estão namorando? – Falou, esticando o olhar para mim.

Todos atônitos, tentamos disfarçar com risinhos desconcertados e com um ar de distanciamento que afinal pode-se recorrer entre semiprofissionais e pacientes.

– Sim gosto dela, somos amigos. Você é muito atento. Agora, vamos seguir para a enfermaria?

A cena foi repassada várias vezes no chopp do final do dia. Tínhamos uma rotina universitária típica de sair para bater papo e beber após o trabalho e, de fato, estava rolando uma “pegação” entre nós, o estagiário de odontologia e eu, a estagiária de psicologia. Todos sabiam. Mas no manicômio, não. O que nos intrigou foi o quão improvável era Giuliani ter pescado essa informação. As atividades da psicologia aconteciam nas enfermarias, já o consultório odontológico era em outro prédio e não tínhamos ações conjuntas. Havia sido a primeira vez que nos reuníamos na mesma sala, pela excepcionalidade da assembleia, sendo que ficamos a maior parte do tempo espalhados entre os pacientes. Como ele percebeu, nos perguntamos até a última cerveja da noite. Era a galáxia subconsciente dando seus sinais.

Aliás, a situação odontológica dos pacientes era sofrível. Com medicações fortes, sequelas da época do uso dos eletrochoques, hábitos de prevenção pouco ortodoxos e serviços precários, a maioria tinha sorrisos rarefeitos. No consultório do manicômio, a prática era a restauração de amálgama ou extração, sem mais opções. No caso do Giuliani, havia vários dentes comprometidos e era hora de minimizar a dor. Pensar em extrair dentes não é confortável para ninguém, mas as circunstâncias exigiram uma preparação com requintes de uma operação de guerra. Previamente, foi tratado com Giuliani o que aconteceria, porque era necessário, como iria ser. Estudamos a melhor conduta clínica para o padrão comportamental e psicológico dele, preservando a sua autonomia e buscando estimular o seu autocuidado. Convencido, Giuliani concordou em ir ao consultório para o evento. Estariam um dentista e dois estagiários. Ademais de contribuir com o atendimento, os estagiários tinham a importante função de captar os delírios dos pacientes e entrar na onda fazendo fluir o momento. Considerando a relação que Giuliani nutria comigo, entendemos adequada a minha participação também.

O ar entrava apreensivo. Como Giuliani era um tanto agitado e grandão, estavam todos com receio de um rompante. Outro ponto de dúvidas era o número de extrações. Provavelmente ele não iria concordar novamente com aquele procedimento tão cedo, então estabeleceu-se a orientação de fazer as extrações possíveis, no limite da saúde física e mental dele.

Após conversas e orientações, ele sentou na cadeira intimidadora e começamos. Cada um em seu posto, combinamos que ele iria dar um sinal caso quisesse parar ou se comunicar. Tudo estava caminhando, havia ocorrido duas extrações. De repente um olhar nervoso e o sinal. 

– Giuliani, está tudo bem?

– Este não, este não.

– Como assim? Me explica melhor.

– Este dente não pode arrancar.

– Entendi. Por que este não pode arrancar?

– Porque ele é o “Grande Protetor da Face da Terra”.

Chegamos no limite, confirmamos nos entreolhando. Retirar o “Grande Protetor da Face da Terra” seria romper a camada que organiza e viabiliza uma existência estruturada. Dali para frente, cruzaríamos a linha do cuidado para a violência.

– Você tem razão, ele fica. Agora, vamos terminar de limpar sua boca e passar um remédio na gengiva para você se recuperar do corte que foi feito. Depois, acabou.

Este causo me traz reflexões sobre 2019. A habilidade de reconhecer e comunicar o perigo precisa vir acompanhada de sensibilidade e de capacidade de compreensão. Nos dias atuais, os sinais estão escancarados: tragédias como as de Mariana e Brumadinho; a alta taxa de homicídio e de falta de elucidação da autoria desses crimes; o superencarceramento de pobres, negros e jovens; as estratégias do governo para burlar a transparência e o acesso à informação; a intolerância com o diferente. No entanto, o país e boa parte do mundo seguem ignorando os riscos para a vida no planeta, agindo com descaso com as questões sociais, ambientais e políticas, fazendo pouco da democracia. Ultrapassamos a linha, estamos vivendo com base na violência. Reconheçamos e tomemos uma atitude diferente.   

Sobre Giuliani, depois que sai do estágio, passou a ser uma presente lembrança. Em 2015, tive oportunidade de retornar ao manicômio para uma visita, como Diretora de Políticas Penitenciárias do então Ministério da Justiça. Encontrei um psiquiatra da época, ele também recordava de Giuliani e contou sobre seu paradeiro. Havia mudado para uma residência terapêutica no interior, por um movimento de desinternação em acordo com a reforma psiquiátrica. Fiquei feliz por ele, um outro final é possível. Demorou vários anos e foi muito rápido. 

Valdirene Daufemback é psicóloga, doutora em Direito e coordenadora do Laboratório de Gestão de Políticas Penais da UnB. Atuou como psicóloga na prisão, foi Ouvidora e Diretora do Departamento Penitenciário Nacional. Acredita na promoção de políticas públicas e numa visão interdisciplinar e comunitária para termos um mundo melhor para todxs.

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