Nota de pesar da Coluna Féministas: A luta de Sabrina é a luta de todas nós
Terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Nota de pesar da Coluna Féministas: A luta de Sabrina é a luta de todas nós

Se desconfiarem que alguma mulher sofre abusos em sua religião, procurem redes de mulheres religiosas que possam prestar solidariedade

Imagem: youtube.

Por Simony dos Anjos

 

No último sábado a Sabrina Bittencourt nos deixou, infelizmente. Muitas de nós foram surpreendidos com a notícia de que Sabrina pôs fim à sua dor e perseguição, um fim ao que seu corpo e mente não aguentavam mais. Um ato que evidencia a angústia de alguém que vive em um mundo no qual mulheres são abusadas dentro de suas casas, de suas igrejas e templos religiosos.

Sabrina protagonizou uma trajetória de ressignificação da dor e da violência sofrida, desde a infância sofreu abusos de pessoas de seu grupo religioso, os mórmons. Durante a juventude, transformou toda dor em militância, numa trajetória de 20 anos de luta incansável. Sabrina coletou denúncias contra o médium João de Deus e criou o movimento Combate ao Abuso no Meio Espiritual (Coame). Segundo reportagem publicada pelo Jornal O Estado de São Paulo, em 03 de fevereiro de 2019, Sabrina disse ter recebido ao menos 185 denúncias contra 13 líderes espirituais brasileiros desde setembro.

Nós da Coluna Féministas nos solidarizamos com familiares, amigos e companheiros de militância da Sabrina. Lamentamos que as estruturas sociais vigentes façam que uma mulher tão forte sucumba à perseguição, dor e à cruel realidade que envolve o poder religioso. Sabrina não deveria ter nos deixado, deveria ter vivido ao lado dos filhos, da companheira e demais pessoas queridas. Sabrina nunca deveria ter sido abusada por pessoas que se diziam mensageiras de Deus, nesta terra. Acreditamos que a luta de Sabrina é a luta de todas nós mulheres, é a luta de todos nós que desejamos uma sociedade justa e equânime.

Desse modo, chamamos a atenção de todos para a necessidade de entendermos como esse tipo de abuso ocorre, no qual o abusador tem prestígio religioso. É pelo o que Sabrina lutava, organizando coletivos e grupos de trabalhos mistos de mulheres religiosas e laicas para apoiarem vítimas de abusos cometidos por religiosos. Sabrina nos orientava a fazer grupos inter religiosos, nos quais as vítimas eram levadas a compreender que o problema não estava com elas e sim no modo machista e patriarcal das lideranças religiosas.

O que temos que entender desse tipo de abuso é que quem procura uma casa religiosa, qualquer que seja, busca conforto, alento e um lugar para pertencer. A perversidade desse tipo de abusador é que ele se aproveita da vulnerabilidade psicossocial de suas vítimas de modo que elas não tenham força o suficiente para combatê-los, denunciá-los e, até mesmo, fazê-los parar. Grande parte das vítimas do João de Deus o procuravam pelo desejo de ter filhos, para se curarem de traumas anteriores ou de sofrimentos que as tornavam “menos mulheres” (dentre o desejo de estar nos padrões de beleza, comportamental e econômico). É evidente que pessoas em sofrimento estão mais suscetíveis a abusos, e os templos religiosos estão cheios de pessoas em sofrimento, em busca de ajuda.

O segundo ponto é que geralmente a religião está diretamente vinculada ao círculo afetivo dos fiéis – pais, irmãos, filhos e amigos, dentre outros. Denunciar esse tipo de abuso é expor a família e ter a “moral manchada”, pois é muito comum acreditar-se que o líder religioso foi tentado. O pastor, padre ou guru é geralmente ligado à figura messiânica que é tentada pelo mal. Ao sucumbir à tentação, esse líder pode acusar essa mulher de o ter seduzido – assim como Eva seduziu Adão a comer do fruto proibido. Em outras palavras, um líder com prestígio religioso é respaldado pelo prestígio moral daquela comunidade. Desse modo, é necessário pensar maneiras de estarmos presentes para milhares de mulheres que sofrem abusos nos templos religiosos.

Se desconfiarem que alguma mulher sofre abusos em sua religião, procurem redes de mulheres religiosas que possam prestar solidariedade como a COAME, Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG), Católicas pelo Direito de Decidir (CDD), dentre outras. Ou mandem um e-mail para [email protected].É  necessário que essas mulheres saibam que existem grupos que podem ajudá-las a denunciar líderes religiosos abusadores.

Por fim, fazemos um apelo a todos militantes e ativistas: vamos nos cuidar! Vamos nos apoiar, a militância é dura, é difícil, mas não precisa ser solitária. Ninguém solta a mão de ninguém!

Sabrina presente, hoje e sempre!

Deixamos um vídeo que Sabrina gravou para o evento: Meu corpo, minha fé: violências e abusos na religião, realizado no último final de semana.

 

Simony dos Anjos é graduada em Ciências Sociais (Unifesp), mestranda em Educação (USP) e tem estudado a relação entre antropologia, educação e a diversidade.

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