Jean Wyllys, o fascismo e as vidas que não são possíveis viver
Quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Jean Wyllys, o fascismo e as vidas que não são possíveis viver

Arte: Caroline Oliveira

O fascismo é um movimento que se ergue a partir da destruição das redes de amparo dos sujeitos vulnerabilizados[1], impossibilitando que estes possam ter uma vida passível de ser vivida. Avesso às diferenças, o fascismo objetiva destruir cada espaço onde a democracia instaurou-se, cada lugar onde o desejo pode existir livremente. Isso porque o grande terror do fascismo são a igualdade e a liberdade de viver. O fascista goza na tentativa de castrar o outro. E é por esse motivo que seu principal alvo são os defensores da diferença.

Muitas das redes de amparo que o fascismo objetiva destruir perpassam a esfera jurídica. Da criminalização dos movimentos de luta pela efetivação de direitos (como o feminismo, o MST e outros) à precarização e hiperexploração do labor humano através de reformas legais, inúmeros são os exemplos em que o âmbito jurídico garante a maior ou menor proteção social dos grupos vulnerabilizados. A possibilidade de viver, contudo, não está restrita à previsão de direitos e eficácia das normas legais.

Por diferentes maneiras, o fascismo pretende conservar o privilégio de quem é branco, cristão, cis-heterossexual e proprietário. Mais usualmente, isso ocorre através da violência ou da ameaça, que espraiam o terror e devastam o sujeito. Entre o desamparo jurídico e a violência cotidiana, as condições precárias de existência matam um pouco, todos os dias, muita gente.

Em 24 de janeiro de 2019, ecoou para o Brasil um grito de alerta contra o fascismo. Jean Wyllys, deputado eleito pelo PSOL-RJ, anunciou a renúncia ao terceiro mandato de parlamentar devido às ameaças de morte que sofre. Vivendo sob escolta policial desde o assassinato de Marielle Franco (há dez meses sem resolução), o parlamentar afirma em entrevista ao jornal Folha de São Paulo que a decisão foi tomada “No dia em que ocorreu o eclipse lunar [27/07], aquele em que a Lua ficou vermelha”, quando “não podia descer porque eu estava ameaçado. Só podia descer com a escolta, e a escolta não estava lá. Uma coisa simples, um fenômeno do céu que eu não podia ver.”

Entre Jean Wyllys e o vermelho socialista da Lua, aí se instaurou o fascismo. E se ao deputado não é permitido sequer admirar “um fenômeno do céu”, quem são os responsáveis por terem lhe tirado a oportunidade (única) de viver? E, não satisfeitos, quererem também lhe tirar a vida? É por não conseguirem reduzir o viver de Jean Wyllys que os fascistas desejam lhe sacar até mesmo o sopro da existência.

Há também entre a vida e o viver uma distância de caráter político. Enquanto aquela é apenas um efeito biológico que nos aproxima dos animais, este é uma ação sempre política que nos dirige ao mundo. As redes de amparo social oferecem à vida a proteção necessária para que exista em comunhão com as outras. É na comunhão (no elo dar-receber-transformar) que a vida deixa de ser mero substantivo para tornar-se verbo[2], indicando não só o estado de um corpo, mas também uma ação. A distância entre a vida e o viver é a mesma entre o estar e o ser-no-mundo. E toda a atual agenda política parece girar em torno da gestão da vida, decidindo quem merece essa proteção, designando quais seres podem ou não ser expostos ao perigo. Um quadro que só consegue ser identificado em seu contexto social específico.

A função de um governo democrático é fortalecer os laços de amparo social dos sujeitos vulnerabilizados, garantindo-lhes acesso a condições básicas que promovam uma vida vivível. Um governo é tão mais democrático quanto mais igualmente fortalecidas estão as redes de amparado dos sujeitos, de modo que a uma quantidade maior de pessoas seja possível usufruir de bens materiais, reconhecimento social e representatividade política. Quanto mais essa rede de amparo abarca as diversas formas de ser-no-mundo, mais democrática ela é. Somente através da destruição das redes de amparo social democraticamente construídas é que o fascismo transforma o direito de viver em um privilégio político.

No Brasil, a forte retomada do poder branco, cis, heterossexual, cristão e burguês faz com que todas as outras pessoas de identidades não-hegemônicas passem a correr mais riscos. Além disso, “ser de esquerda” acabou tornando-se um marcador social (não corporal) que vulnerabiliza os sujeitos. Foi por isso que não houve contra Jair Bolsonaro qualquer represália por parte dos poderes da república quando em palanque incentivou os acreanos a “fuzilar essa petralhada” e anunciou em campanha: “Vamos varrer os bandidos vermelhos do Brasil”. A vida, assim, parece não importar quando a vítima está de rubro.

O processo de desdemocratização que vem ocorrendo no Brasil desde 2016 está profundamente relacionado à destruição das redes de amparo social de LGBTs, indígenas, praticantes de religiões afro-ameríndias, pessoas negras e afiliados à esquerda política. A violência eleitoral desvelou os tempos vindouros e serviu de alerta para essas comunidades. Não à toa, através do Twitter, o presidente Jair Bolsonaro comemorou a renúncia do militante com a frase “Grande dia!”, ficando claro que não está preocupado com o avanço da violência política no país, posto que esta violência é exatamente sua estratégia de luta contra a esquerda.

Para finalizar este texto, deixo aqui um incrível conselho de Jean Wyllys que, ao falar de si, acaba por dirigir-se a todos os democratas que vivem em tempos de cólera: “Quero cuidar de mim e me manter vivo”. Só é possível viver se estivermos vivos.

 

Emerson Erivan de Araújo Ramos é professor universitário, mestre em Ciências Jurídicas pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Jurídicas da Universidade Federal da Paraíba e doutorando em Sociologia pela mesma instituição.

 

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[1] Utilizo o termo “vulnerabilizadas” para indicar que a maior ou menor vulnerabilidade social não é um problema pré-social. Antes, trata-se de uma questão política sobre que tipo de vida merece ser protegida.
[2] A análise gramatical é aqui oportunamente interessante para compreender a diferença entre a vida e o viver. Enquanto “vida” é substantivo abstrato que nomeia o estado de algo que está vivo, “viver” é verbo que indica, mormente, uma ação daquilo que possui vida. A passagem da simples existência biológica para uma ação dirigida a um determinado fim pode ser representada linguisticamente pela transformação do substantivo em verbo. Ainda em termos gramaticais, os verbos existem enquanto categoria morfológica para indicarem ação, estado ou fenômeno da natureza. Se é verdade que “viver” pode ser classificado como verbo de estado quando se comportar tal que um predicativo de sujeito, também pode ser classificado como verbo de ação, indicando uma atividade.

Quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019
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