A ideologia da cor, racismo e seus danos ao Brasil
Segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

A ideologia da cor, racismo e seus danos ao Brasil

Ouve-se dizer com frequência que a depressão é o mal do século, especialmente após o aumento considerável dos casos desta enfermidade entre as pessoas que sempre viveram encasteladas no mundo dos sonhos, no estilo do american way of life, na ilusão consumista de que o sistema do capital tudo alcança, esquecendo-se que este modo de produção ‘coisificou’ não apenas os bens, mas também as pessoas em geral, privando muitos de autoestima, criando os quadros generalizados de depressão.

Contudo, o que se viu em meados do século XX e veremos com frequência no século XXI é o cotidiano de milhões de africanos e afrodescendentes[1] desde o século XVI, uma vez que estes, como diz Mbembe (2014, p. 19): “negro é, na ordem da Modernidade, o único de todos humanos cuja carne foi transformada em coisa e o espírito em mercadoria, a cripta viva do capital”. Sobre estes advinha o famoso ‘banzo’.

Alguns dicionários de língua portuguesa, evidentemente produzidos por caucasianos, definem o banzo como sendo ‘nostalgia mortal dos negros da África, quando cativos ou ausentes do seu país’. Quanta falácia! Apenas uma maquiagem para arrefecer a realidade: o europeu destituiu os africanos e afrodescendentes de dignidade e até de vida, expondo tais a humilhações que nem mesmo animais sofriam ao ponto de estes serem acometidos do que hoje a Medicina chama de depressão; muitos chegavam ao suicídio, outros morriam pela inanição, em suma, a tristeza profunda não estava relacionada com a distância da África em si, mas com a perda de sua condição humana.

 


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 Reconhece-se em nossos dias que as pessoas vítimas de discriminação racial, direta ou indireta, declarada ou velada, discreta ou escandalosa serão em algum momento das suas vidas, sofrerão:

[…] transtornos tais como taquicardia, hipertensão arterial, úlcera gástrica, ansiedade, ataques de pânico, depressão, dificuldade de se abrir, ataques de raiva violenta e aparentemente não provocada, comprometimento da identidade e distorção do autoconceito (DAMASCENO; ZANELLO, 2018, p. 452).

A depressão não é mal do século XX ou XXI. Esta enfermidade é companheira de seres humanos desde sempre, com maior ênfase a partir da Modernidade[2], especialmente quando os europeus lançaram-se à sanha dominadora de modo mais cruel e sangrento do que seus antecessores os romanos, ao ponto de brutalizar um continente inteiro, em alguns casos usando a autorização da Igreja[3] para exterminar povos inteiros de maneira física e os que sobreviveram fisicamente não conseguiram sobreviver emocionalmente, nem naqueles dias, tampouco nos dias atuais, haja vista que, mesmo sendo vítimas cotidianamente de abusos, são tidos por culpados.

Por que, este fato é desconsiderado? Ora, qual a razão de se recordar o sofrimento dos milhões de humilhados, objetificados e banidos de existência, sendo que fazer isso implica em reconhecer nossa culpa, nossa máxima culpa? Além disso, num país em que matar afrodescendentes é mera questão de opção, não de motivação, haja vista os casos recentes: Marielle, o jovem do supermercado, as chacinas etc. pra que falar a realidade? Sejamos realistas: que vale a vida de afrodescendentes no Brasil?


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Diferentemente do racismo europeu, estadunidense, asiático e de outras partes do planeta em que se vê branco e não branco, de modo muito binário e claro, sem muitas distinções ou separações, o Brasil tem suas jabuticabas. O racismo, como indica o sufixo ‘ismo’ tem caráter de crença e doutrina, o que por si só tornaria tal uma ideologia. Antropólogos estadunidenses foram os primeiros a usarem este termo academicamente nos anos 1940 (CAMPOS, 2017). De fato, o racismo, além de doentio, é comportamento religioso.

Campos (op. cit., p. 2) ressalta algo que distingue, todavia, este fenômeno no Brasil, tirando o mesmo do fenômeno binário branco vs. não branco para uma série de detalhes que formam uma teia complexa, pois, criam estruturas “diametralmente opostas, [e] essas abordagens teóricas se distinguem ao atribuírem a um desses elementos (ideologia, atitudes e estruturas) poderes causais superiores”. Logo, racismo no Brasil vai muito além da rejeição aos não brancos.

Ninguém no Brasil se entende por racista, embora todos sejam cheios de preconceitos e, consequentemente, racistas em certo nível. A dificuldade de assumir o racismo estrutural que existe na sociedade brasileira advém, em grande parte pela ideologia que serve de escudo para os racistas em geral. Como definir quem é negro numa nação cujo povo é essencialmente miscigenado? Assim, com base neste argumento, alguns se desculpam porque supostamente não é possível determinar quem é afrodescendente ou não. Porém, a questão é mais profunda: se todos respeitassem a dignidade da pessoa humana, pelo fato de ser humana, a questão de ser ou não afrodescendente não teria relevância. Portanto, este argumento apenas revela quão contaminada pelo racismo está a pessoa.

Guimarães (2004, p. 20), referindo-se aos estudos realizados no Brasil nos anos 1950-1970 sobre a lenda da ‘democracia racial[4]’ que supostamente existia no Brasil, recorda-nos do que realmente existe no Brasil:

[…] o preconceito de cor, entre nós, seria um sintoma da incompletude da revolução burguesa e da sociedade de classes. Seria uma persistência do passado enquanto “negros” e “mulatos” seriam apenas “metamorfoses do escravo” (grifos nossos).

Eis o diagnóstico preciso do racismo brasileiro: reside na cor da pele, não da raça em si porque, entre brasileiros, não se vê os afrodescendentes como não brasileiros ou como raça separada, distinta. Todavia, devido à ideologia de cor, ou o colorismo as relações de poder são desenhadas: quanto mais melanina, menos favorecimento; quanto mais diferenciado os cabelos, menos reconhecimento. Assim, discretamente as pessoas são vítimas de segregação sem se aperceber desta prática abominável.

A preocupação maior que vivemos, especialmente após a ascensão do atual manicômio ao Palácio do Planalto, cujo projeto de governo é a mistura bizarra de evangelicalismo neopentecostal, capitaneado pela Igreja Batista, temperado com as Forças Armadas e liderados por uma pessoa que é sumidade de tudo que é mais tosco em sentido político, moral, ético e até religioso (irônico, não?), são as discussões que tomam a pauta do Congresso Nacional: passou a ser similar a um Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HCTP).

Brasília atualmente vive seus dias de Colônia, o mais famoso, nefasto e temido HCTP do Brasil que estava em Barbacena, MG. O Ministro da Justiça tem a convicção de que é o xerife dos cantões brasileiros e busca emplacar seu projeto de extermínio que atingiria, evidentemente, afrodescendentes e pobres; o Ministro da Economia sente-se Merlin e deseja fazer feitiçaria para aprovar reformas no sistema de Seguridade Social que vão deixar os mais vulneráveis (vasta maioria afrodescendentes, claro) à mercê do nada; a Ministra da Família parece sofrer de psicose obsessiva e cada discurso seu é um jorro de lavagem para porcos; a Ministra da Agricultura conseguiu algo único: o direito de cuidar das terras indígenas, ou seja, a raposa tem que vigiar o galinheiro! Sem dúvida, o atual governo formou um Machistério, pois, as duas únicas mulheres são machistas e todos são brancos, dominados pela ideologia, não a de gênero, a psicose dos neopentecostais e da Ministra Damares, mas a ideologia da cor, a doença social brasileira.

Enquanto Brasília está preocupada com ‘ideologia de gênero’, algo que não existe porque gênero não envolve crenças e atitudes ser ideologia, o problema  que persiste por séculos é ignorado no HCTP. Eis os ‘dignos’:

Foto Oficial do Ministério de Jair Bolsonaro

Disponível em: <https://www.flickr.com/photos/palaciodoplanalto/44746704510/in/album-72157705280248024/>. Acesso em: 17 fev. 2019.

A foto mostra a realidade social brasileira: duas mulheres machistas, homens e todos são brancos. Mesmo sendo o Brasil país com maioria de afrodescendentes, não há nenhum que seja representado! Por quê? Porque a ideologia da cor incomoda. Neste caso específico incomoda tanto que não há sequer traços que possam recordar a presença de tais. Esta conduta é reproduzida no Judiciário, setor do Poder Público chamado de ‘Poder da República’, mesmo não estando sob qualquer crivo do povo, condição constitucional básica para ser, de fato, Poder do Estado Democrático de Direito, algo que torna praticamente inacessível aos afrodescendentes. No Legislativo, a Casa do Povo, o desequilíbrio também existe.

Todo este desequilíbrio está endossado pela ideologia da cor, também conhecida nas ‘delicadas’ frases racistas’: ‘você não é negra, é moreninha’; ‘seu cabelo não é crespo, é ondulado’; ‘você não parece negro porque tem traços finos’; ‘você é negro de pele clara’ etc. Desnecessário é recordar os axiomas racistas, tais como: ‘fulano é negro de alma branca’; ‘estou sentindo inveja branca’; ‘fulana fez serviço de preto’ etc. Sim, a ideologia da cor é a força motriz do racismo no Brasil e como o grau de colorismo define a intensidade da violência, real ou simbólica, o Brasil vai ignorando sua face racista e maldosa.

A gravidade deste problema é bem descrito, bem como sua solução proposta nas palavras de Damasceno e Zanello (op. cit., p. 452, 461) que escreveram:

Em sendo um problema para a saúde física e mental da pessoa, esse sofrimento causado pelo racismo passa, necessariamente, a ser um problema de saúde pública. Como tal requer proposições de políticas públicas que garantam o direito a um serviço de saúde mental eficaz direcionado especificamente ao sofrimento da população negra produzido pelo racismo. […]

Para o usuário afrodescendente, tal experiência estressante e traumática tem efeito cumulativo ao longo da vida e impactará a saúde mental da pessoa. O profissional que, teoricamente, contribuiria para o alívio da pessoa, ao contrário, lhe inflige mais dor. Essa invisibilidade do racismo no campo dos dispositivos da saúde mental é aparentemente ainda muito pouco problematizada. Assim, a inserção da temática do racismo como estressor responsável por dor, sofrimento e até morte, na agenda da Psicologia deve ser feita não apenas de forma transversal no currículo, mas também como disciplina específica; é necessária no ensino/treinamento, na prática clínica, e na pesquisa psicológica.

A realidade premente que não pode ser negligenciada: estamos adoecendo nossas gerações afrodescendentes pela prática ostensiva do racismo com base no critério colorista, criando considerável faixa de seres humanos que não se veem como tais e, pior: que não são tratados assim por outros, mesmo que de modo ‘discreto’. Não é preciso ser muito inteligente para descobrir que são raríssimos casos de crime de racismo no Brasil, se é que há algum, exceto se a vítima for rica e famosa. A maioria dos casos são  qualificados como injúria racial que, basicamente, não significa nada.

Nossas populações afrodescendentes são exterminadas, os esfarrapados do mundo, esquecidos e ignorados porque não são considerados dignos de vida. Como recorda Mbembe (2011, p. 33) têm-se a mesma disposição de “atuar de forma cruel e imoderada [criando] o espetáculo de sofrimentos infligidos ao corpo do escravo”. Os afrodescendentes, a constante “metamorfose do escravo” dos processos inacabados da sociedade brasileira, sempre receberá o tratamento cruel do espancamento, estupro, morte e abandono, seja este literal, social, simbólico ou emocional. O banzo (depressão) não é o mal do século XXI, é fruto da ideologia da cor.

Marcio José Silva é Mestre em Educação, Arte E História Da Cultura, com MBA em Gestão Escolar pela Universidade de São Paulo (USP) e graduado em Ciências Sociais – Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUC) e em Letras pela Universidade de Guarulhos

 

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CAMPOS, Luiz Augusto. Racismo em três dimensões. Uma abordagem realista-crítica. Revista brasileira de Ciências Sociais, vol. 32, n° 95, p. 1-19, 2017. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.17666/329507/2017>. Acesso em: 17 fev. 2019.

DAMASCENO, Marizete Gouveia; ZANELLO, Valeska M. Loyola. Saúde Mental e racismo contra negros: produção bibliográfica brasileira nos últimos quinze anos. Revista Psicologia: Ciência e Profissão, vol. 38, n° 3, p. 450-464, jul./set. 2018. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/1982-37030003262017>. Acesso em: 19 fev. 2019.

GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Preconceito de cor e racismo no Brasil. Revista de Antropologia, vol. 47, n° 1, p. 9-43, 2004. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0034-77012004000100001>. Acesso em: 17 fev. 2019.

MBEMBE, Achille. Crítica da Razão Negra. 2ª. Ed. Trad. Marta Lança. Lisboa, Antígona, 2014.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Trad. Elizabeth Falomir Archambault. S.C. Tenerife: Melusina, 2011.

[1] O autor evita usar o termo negro/negra, preto/preta por entender que é o sujeito que deve determinar como deve se autointitular. Acredita que afrodescendente é neutro e africano refere-se aos nascidos no continente.

[2] A Modernidade em referência não é o período da História que se inicia com a queda de Constantinopla em 1453, mas o período historiográfico caracterizado pelo desenvolvimento mercantilista europeu, pós-Renascimento, cujo apogeu será a partir do século XVI, gerando, posteriormente as Revoluções Industriais e o nascimento do sistema de produção capitalista.

[3] É necessária cautela quanto às assertivas sobre o papel da Igreja Católica e escravidão, pois, embora esta não se opusesse a este regime de trabalho, nunca autorizou tratamento desumano aos escravizados, havendo encíclicas, bulas e cartas papais que  falam do assunto. Há documentos da Companhia de Jesus em que se condena claramente o tratamento desumano dispensado aos escravizados, bem como existem muitos relatos de escravizados fugitivos que foram acolhidos em Conventos, Igrejas e terras da Igreja. Este assunto ensejaria um artigo específico para ser imparcial. Há responsabilidade, mas há que se verificar a culpa.

[4] Alguns atribuem tal mito a Gilberto Freyre, escritor de Casa Grande & Senzala, contudo, não há em sua obra afirmação explícita sobre este tema. É mais provável que o uso político de sua obra, escrita em um momento em que se desejava ‘vender’ esta ideia do Brasil ao mundo, tenha originado tal conceito, não Freyre.

Segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019
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