Jana Viscardi: Quando a linguagem racista é disfarçada de notícia
Segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Jana Viscardi: Quando a linguagem racista é disfarçada de notícia

Tem uma estrutura em língua portuguesa chamada “voz passiva”. Não pretendo entrar em longos detalhes, afinal não estamos aqui em uma aula de português, mas importa dizer que os professores das escolas sempre dizem que quando se quer enfatizar uma ação ou quem a sofre, mas não o autor dela, a voz passiva é a melhor forma de fazê-lo. A voz passiva é também bastante empregada em textos e manchetes jornalísticos – muitos dizem que ela denota “isenção”, e por isso é um recurso empregado frequentemente.

Consequentemente, você lê muitas vezes nos jornais algo como “Mulher É MORTA no dia dos namorados” ou “Rapaz É ATACADO em festa”. Você não sabe quem ATACOU ou MATOU, mas reconhece quem FOI ATACADO ou MORTO. Interessam mais aqueles que sofrem a ação do que os que a cometem.


Leia também:

Manifestantes fecham Extra em SP durante protesto contra a morte de Pedro Gonzaga

Manifestantes fecham Extra em SP durante protesto contra a morte de Pedro Gonzaga


Pois bem. Você deve estar se perguntando: por que estamos falando disso? Porque eu quero chamar a sua atenção para como é importante a maneira como narramos os fatos de violência e, portanto, onde depositamos nossa atenção.

Quando focamos em quem sofreu a ação de violência, costumeiramente nos perguntamos: o que será que essa pessoa fez para passar por isso? É o modelo de sociedade em que vivemos, e também a forma como vamos construindo a realidade a partir das narrativas, que faz com que façamos essa pergunta, buscando na vítima as razões pelo ocorrido.

Esta semana o Brasil assistiu a um trágico caso de violência e racismo. Um segurança de um supermercado matou um jovem dentro do estabelecimento. Pedro é o nome do rapaz que estava com sua mãe no supermercado. Inúmeras manchetes fizeram uso do recurso que eu mostrei a você lá em cima e, ao invés de dizerem “Segurança mata jovem em supermercado”, disseram “Jovem é morto em supermercado”.



Qual não foi minha surpresa ao me dar conta de que inúmeras pessoas estavam justificando a violência, definindo que o rapaz tinha feito alguma coisa, que a culpa era dele. Histórias de que ele estava roubando foram disseminadas, e nessas primeiras horas, pouco se falou do segurança, o agressor. É dessa maneira que a linguagem ajuda a marcar a maneira como percebemos e discutimos a realidade. Na voz passiva é aquele que sofre a ação o foco, não quem a cometeu.

Aliada ao forte racismo que vivemos em nossa sociedade, que determina que um jovem negro é um potencial meliante, temos a bomba perfeita. As justificativas para a violência e para a atenção a quem sofreu a ação estavam dadas. Nessas primeiras longas horas, não se falou sobre a empresa de segurança, não se falou sobre o segurança, não se falou sobre a rede de supermercados. Qualquer questionamento era lido como equivocado, o rapaz, certamente, tinha culpa no cartório.

Pois bem, eis que saem as imagens das câmeras de segurança e a história muda. Mas o estrago já estava feito. Foram horas atentos apenas ao jovem estrangulado, o suposto ladrão.

O racismo tem aqui papel fundamental, moldando a visão das pessoas sobre os fatos. Não nos esqueçamos, contudo, que a linguagem vem, infelizmente, fortalecer esse entendimento, ao simplesmente colocar o agressor em segundo plano, distante na narrativa. A suposta isenção jornalística expressa na linguagem é, na verdade, reforço daquilo que a sociedade pratica todos os dias – a violência contra diferentes minorias, negros, mulheres, pessoas com deficiência.

Faço a você um convite: preste atenção às manchetes das notícias de violência. E me diga como elas ajudam a moldar a maneira como você pensa os atos de violência. Depois, volte aqui para me contar.

Jana Viscardi é doutora em Linguística pela UNICAMP, com passagem pela UniFreiburg, na Alemanha. Professora e palestrante, faz vídeos semanais sobre linguagem e comunicação (e otras cositas más) no canal do Youtube que leva seu nome.

Leia também

Luto para manter meu corpo longe das mãos do Estado

Luto para manter meu corpo longe das mãos do Estado


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

 

Segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend