Chamar movimentos de “identitários” é burrice engajada 
Terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Chamar movimentos de “identitários” é burrice engajada 

Arte: Caroline Oliveira

Tem me provocado muito incômodo a forma como alguns movimentos sociais têm sido unificados sob o nome de identitários. À direita e à esquerda do espectro político, o nome identitário parece querer encerrar sob as mesmas delimitações o movimento negro, o movimento indígena, o movimento LGBT, o movimento de mulheres, o movimento feminista, entre outros.

Por várias razões, esta forma de se referir a estes movimentos é profundamente problemática. Seja por ignorância, seja por interesse velado, quem assim o faz desconhece razões teóricas, práticas e políticas sobre o que é um movimento social, de modo geral, assim como não sabe absolutamente nada sobre cada um destes movimentos que quer homogeneizar, de modo específico.

Mas, primeiramente, é preciso dizer que fazer o uso de movimentos identitários é, antes de tudo, tomar posição. Isto é: chamar tais ou quais movimentos sociais de identitário é resumir, encerrar, limitar o movimento ou os movimentos a apenas uma de suas facetas, a chamada identidade, àquela gama de características que lhe dá sentido de grupo. Ao fazer isso, o locutor abandona, nega, combate todas as outras características, sociais, políticas, históricas e conjunturais.

Assim, esta forma de classificá-los restringe sua existência ao puro e simples exercício de uma subjetividade, dando ao que lhe garante forma de grupo a sua razão ser, existir e lutar. Seria como se todos os problemas dos identitários estivessem no campo do simbólico, do cultural, do subjetivo. E como se esse campo não mantivesse nenhuma relação com a vida prática, real, material e, por fim, econômica.

É por ignorar as variações entre cada um dos movimentos que procura unir em um mesmo canto, em uma mesma caixinha, que não convém repetir este cacoete. Ficarão escondidas as diversas formas de organização dos movimentos de mulheres, que não é a mesma coisa que o movimento feminista. Os movimentos negros serão iguais aos movimentos indígenas, quando na verdade, haverá entre eles os quilombolas, formando uma tríade repleta de especificidades. Ficarão também obliteradas as distâncias entre os movimentos LGBTs de outros, como os movimentos por liberdade religiosa ou a luta dos atingidos por barragens, populações ribeirinhas ou os imigrantes, ou ainda, os movimentos de familiares de vítimas da violência policial.

Abandonada a má vontade intelectual, para cada uma destas lutas erroneamente chamadas de identitárias, é possível notar uma relação íntima com a materialidade da vida social, ou melhor, com a base econômica ou jurídica. Aquela forma de analisar os movimentos sociais não verá a luta por igualdade salarial das mulheres, a luta por terra dos quilombolas, a luta por moradia digna dos negros, a luta contra o genocídio de negros, a luta contra o genocídio de indígenas. E por aí vai.

Usar o termo identitário, portanto, releva uma postura burra, isto é, uma ignorância ativa, a recusa do conhecimento e da reflexão são um bálsamo para o avanço do conservadorismo. O passo seguinte neste roteiro é anunciar a centralidade da luta de classes, esquecendo, obviamente, que até mesmo para a tomada dos meios de produção é preciso de uma construção… identitária, isto é, uma tomada de posição subjetiva com a passagem da consciência de classe em si para a consciência de classe para si.

O resultado dessa ignorância engajada é tal que se ignora que um dos grandes impasses hoje para a luta da classe trabalhadora é justamente… identitário. Ou seja, o proletariado não possui uma identidade de classe. E então analistas – os mesmos que chamam todos os outros movimentos de identitários – batem-se sobre qual seria a melhor forma para se referir ao proletariado do século XXI: ralé, batalhadores, precariado, classe média.

Não estranha ser assim, uma vez que identidade é um tema sério e complexo, e convém não subestimá-lo, sob a pena de cair em confusão. Trata-se de tema que está da origem na modernidade, do pensamento moderno, da política e da filosofia modernas. É a partir dela que se conformam bases epistemológicas para a análise política, da relação príncipe povo da análise política de Maquiavel, ou “o penso, logo existo”, de Descartes, da dialética senhor-escravo de Hegel, a consciência de classe para Marx, do sujeito colonizado de Frantz Fanon.

Para usar uma frase de Lévi-Strauss, a humanidade é o limite da aldeia, e jaz naquela forma de classificar uma postura de desdenhar o front cultural e comportamental da luta política, dada por uma forma de classificar o mundo dicotomicamente em duas esferas, uma que é subjetiva, totalmente ordenada pela outra, a material. Apesar de ser substancialmente frágil, é uma forma até eficaz para legitimar o lugar de fala de uma autodenominada vanguarda de homens brancos de classe média-altas, supostamente intelectualizados.

Por um jogo de alteridades, é uma equação simplória e fácil de decifrar. O problema é (são) – e sempre foi – o Outro. O problema do Brasil, o problema do mundo, o problema existencial é o Outro, esta entidade tão necessária quanto maldita.

É um péssimo caminho a tomar na luta por emancipação em tempos complexos de capitalismo neoliberal, tecnologização do mundo do trabalho, pesados movimentos migratórios e avanço conversador. Para reivindicar a premência do econômico da luta de classes, opta-se por simplificá-lo ao nível da reificação. A luta pela emancipação humana não passa prioritariamente ou exclusivamente por uma única forma de opressão, os meios pelos quais a exploração humana ocorrem são muito complexos, os movimentos sociais que lutam por contra eles refletem sua complexidade.

Afinal, as mobilizações articulam mais de uma dimensão social e política. Basta olhar para as manifestações culturais e engajadas das periferias, que articulam violência policial, racismo, machismo, segregação, pobreza, gênero, direito à cidade etc. Diante desta grandeza, o máximo que alguns podem fazer é chamá-los por um nome que lhes acondicione num canto qualquer da luta política, sem ameaçar sua condição privilegiada garantida pelas desigualdades persistentes no Brasil.

É claro que a dimensão da identidade é fundamental para aqueles movimentos que são chamados de identitários. Mas a dimensão identitária é fundamental para todo e qualquer movimento social, ou melhor, ela é indispensável, seja para qualquer ação coletiva – movimentos feministas, a Gaviões da Fiel ou a Renovação Carismática –, uma vez que para que haja coletividade é preciso haver um sentimento de pertencimento ao grupo selado pela identidade.

 

Paulo C. Ramos é doutorando em Sociologia pela USP e coordenador do Projeto Reconexão Periferias da Fundação Perseu Abramo

 

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