O cidadão-consumidor na era das redes sociais
Terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

O cidadão-consumidor na era das redes sociais

Arte: Caroline Oliveira

A coleta e armazenamento de dados dos usuários das redes sociais tem facilitado à ascensão da extrema direita por meio da manipulação demagógica dos ressentimentos da população frente às promessas não cumpridas da democracia liberal

A partir da crise do Estado de Bem Estar Social, as dinâmicas de produção e distribuição de bens foram remodeladas, de forma a atender demandas de consumo cada vez mais individualizadas. A “invenção” de novas demandas, que exploravam o desejo de competição e diferenciação dos indivíduos por meio de um marketing agressivo, foi uma das estratégias empregadas pelos mercados para superar a crise de estagnação do modelo fordista, mas teve como consequência a criação de sociedades ricas na vida privada e pobres de vida política. [1]

Explorando esse tema, Wolgang Streeck argumenta que essas mudanças no sistema de produção e circulação de mercadoria tiveram por consequência a transformação da política em consumo. Para o sociólogo, as classes médias e altas – com poder aquisitivo suficiente para satisfazer seus desejos de diferenciação via mercado – perdem o interesse nos complexos processos coletivos de definições de preferências e tomada de decisões que caracterizam a política.[2]

O que, por sua vez, não causa um cenário da apatia política, como poderia se esperar, pois não significa necessariamente que os membros das classes mais abastadas deixem de se informar e se interessar pela atividade estatal. O que ocorre, no entanto, é que essas relações são simplificadas a um processo de likes e deslikes dos “produtos públicos” que são entregues como soluções para as questões sociais, um processo que tende a se expressar mais em sua dimensão negativa da rejeição de propostas, sobretudo as que potencialmente possam modificar o status quo – a capacidade de satisfazer os desejos de diferenciação das elites via mercado.

O argumento que quero sustentar é que esse cenário é mais pernóstico quanto maior forem os níveis de desigualdade de uma sociedade e é amplificado pelos usos das novas tecnologias da comunicação que marcam a era das redes sociais e do quem tem sido chamado “capitalismo de vigilância”.[3]

As graves rupturas nas formas de solidariedade social, promovidas nesse cenário, gestaram um terreno fértil para o avanço de uma extrema direita tecnologicamente renovada, mas com plataformas políticas alicerçadas em práticas bem conhecidas do século XX: o ódio ao próximo.

Naturalmente, as novas tecnologias de informação e comunicação, como o Facebook e Whatsapp, não inventaram a misoginia, o racismo, a xenofobia, além de outras formas de descriminação, mas trouxeram para a mesa de jantar o que estava no esgoto das nossas democracias; ofereceram a possibilidade de aproximação, manifestação, formação e adesão de grupos ao redor dessas noções; grupos compostos por pessoas insatisfeitas com as insuficiências das democracias liberais e ávidas por respostas que dialogassem diretamente com seus estômagos e fígado.

Em resumo, ao projetar poder sem projetar vulnerabilidade, as redes sociais permitem que o indivíduo seja racista e machista em lugares distintos e distantes, quase que instantaneamente, sem a possibilidade de ser contraditado e enquanto recebe aplausos de seus pares.

O exemplo mais drástico, sem dúvidas, é o papel central desempenhado pelo Facebook no genocídio de minorias muçulmanas em Mianmar,[4] mas repercute intensamente também nos países centrais, como ficou demonstrado no escândalo envolvendo a influência da Cambridge Analytica no Brexit e na última eleição presidencial nos EUA.[5]

O esquema é simples: se o serviço é gratuito, você é o produto; mais especificamente os seus dados são o produto. Ao utilizar essas plataformas o usuário cria um banco de dados sobre suas preferências públicas e privadas – um banco de informações pessoais que faz sombra aos trabalhos das polícias secretas do fascismo. Informações coletadas, armazenadas, hierarquizadas e embaladas, prontas para serem vendidas para os verdadeiros consumidores dessas plataformas, as grandes corporações que, de posse desses dados, podem montar estratégias de marketing de seus produtos tão agressivas quando individualizas: o que nos leva de volta ao início de nossa conversa.

Alguém pode argumentar que não se importa com essa questão, que a entrega dos seus dados é resultado da expressão de sua autonomia individual e que ela se sente confortável com as propagandas direcionadas, estando disposta a ser monitorada 24h por dia. Como não haveria nenhum dano causado aos demais nessa relação contratual privada entre as redes sociais e os indivíduos, não haveria nenhuma razão para nos preocuparmos com uma regulação desses espaços. Porém, a questão é mais complexa e ultrapassa a esfera privada.

O problema torna-se uma questão pública quando os consumidores de dados são grupos políticos que passam a explorar de maneira populista e demagógica os ressentimentos da população, chegando ao poder com plataformas políticas antidemocráticas que pervertem a própria noção da política como diálogo com o diferente.

Cada localidade tem a sua própria manifestação do que parece ser uma espécie de internacional da extrema direita. Na falta de uma minoria étnica clara ou de imigrantes numa proporção que ameaçasse o mercado de trabalho interno, o ressentimento nacional, transformado em ódio, foi direcionado à corrupção – num sentido geral, mas, sobretudo, estatal e petista – e contra a criminalidade, que se manifesta quase sempre no preto, jovem e periférico. A solução é paradoxal: um Estado social mínimo e um Estado penal máximo.

Foi esse processo que conduziu Jair Bolsonaro a Presidência da República e, aparentemente, é como o presidente eleito pretende governar, como resta claro a partir da leitura do Projeto de Lei Anticrime: um pacote de medidas de gabinete, feitas por um grupo pequeno de tecnocratas e sobre medida para cidadãos-consumidores, ciosos de sentirem-se seguros em suas vidas privadas, mesmo que ao preço da vida alheia.[6]

 

Felipe Araújo Castro é doutor em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais e professor na Universidade Federal Rural do Semi-Árido.

 

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[1] No artigo Public goods and private status, Monsen e Downs argumental que essa “necessidade” de competição e diferenciação do indivíduo seria uma característica “quase natural” do humano, tendo se manifestado em todas as sociedades, ainda que em distintos níveis de intensidade. Segundo os autores, na sociedade estadunidense contemporânea, a exacerbação dessa característica levou ao desenvolvimento de uma sociedade rica na esfera privada, mas pobre na esfera pública. DOWNS, A; MONSEN, R. J. Public goods and private status. The public interest, n. 38, 1971.
[2] STREECK, W. O cidadão como consumidor: considerações sobre a invasão da política pelo mercado. Revista Piauí, n. 79, 2013.
[3] Surveillance capitalism é marcado por uma radical assimetria de conhecimento, em benefício das grandes corporações de acumulação da dados, como o Facebook e o Google, que finda por dar emergência a um novo tipo de poder. ZUBOFF, Shoshana. The Age of surveillance capitalism: the fight for a human future at the new frontier of power. Public Affairs, 2019.
[4] Em alguns países menos industrializados o Facebook torna-se a própria internet, ao oferecer tráfego de dados gratuito, desde que se navegue pelo aplicativo da empresa instalado em SmartPhones. Segundo uma investigação conduzida pela agência Reuters, a expansão do uso do aplicativo possibilitou a disseminação de discursos de ódio contra minorias mulçumanas em Mianmar, aumentando a violência letal contra esses grupos. STECKLOW, S. Hatebook: inside facebook Myanmar operation. Reuters, 2018. Disponível em: https://www.reuters.com/investigates/special-report/myanmar-facebook-hate/ ver também a reportagem do The New York Times, “um genocídio incitado por meio do Facebook…”. Disponível em: https://www.nytimes.com/2018/10/15/technology/myanmar-facebook-genocide.html.
[5] Como demonstra a investigação conduzida pela repórter Carole Cadwalladr. Disponível em: https://www.theguardian.com/membership/2018/sep/29/cambridge-analytica-cadwalladr-observer-facebook-zuckerberg-wylie.
[6] Comentei sobre o projeto no Justificando. Disponível em: http://www.justificando.com/2019/02/15/lei-anticrime-mais-poder-para-a-elite-juridica/.

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