Doria transformou o Estado de São Paulo no ‘Cata-Bagulho” da política nacional
Quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Doria transformou o Estado de São Paulo no ‘Cata-Bagulho” da política nacional

Arte de Gabriel Prado

No curto período em que foi Prefeito da cidade de São Paulo, João Doria já tinha mostrado bem que a tal da “nova política” ficaria só no discurso mesmo. Em pouco mais de um ano, Doria ficou conhecido como “Prefake”, passou boa parte do tempo viajando, colocou toda a cidade à venda, se fantasiou, mentiu descaradamente sobre os resultados de programas que criou e até mesmo a zeladoria da cidade, sua grande promessa, ficou às moscas.

Foi o suficiente para, nas eleições ao Governo de São Paulo do ano passado, Doria ter conseguido uma baixa votação na capital, que, se dela dependesse, o milionário não teria sido eleito. Mesmo assim, o restante do estado pagou pra ver, garantindo, por uma pequena margem, a vitória do ex-Prefeito.

Vale lembrar que, dos quase 26 milhões de eleitores paulistas, entre brancos, nulos e abstenções, cerca de 12 milhões preferiram não escolher entre nenhum dos candidatos, consagrando, mais uma vez, a vitória do “Candidato Ninguém” por essas bandas. Mas como a realidade sempre nos bate à porta, pela segunda vez consecutiva, a vitória do “Ninguém” levou Doria ao poder.

E o que vem a seguir é um mais um triste banho de realidade…

É que Doria não estava contente em enganar apenas alguns milhões de paulistanos. Nada disso. Para esse grande empreendedor, que nasceu milionário mas jura que conquistou tudo com o suor de seu trabalho, uma cidade não era o bastante. Era preciso enganar um estado inteiro. E a enganação já foi ficando clara antes mesmo de seu Governo se iniciar.

Na composição de sua equipe de Secretários, Doria transformou a máquina pública paulista no maior “cata-bagulho” da política nacional, abrigando, nada mais nada menos, do que 10 antigos nomes do cadáver do Governo Temer. Isso mesmo, 10 membros do Governo mais rejeitado da recente história brasileira foram agraciados para parasitarem, de camarote, o estado paulista. Um banho de água fria pra quem deu seu voto acreditando na “nova política”.

E é um nome “melhor” do que o outro. A começar, por exemplo, por Rossieli Soares, que saiu do Ministério da Educação de Temer para assumir a mesma pasta na Secretaria de São Paulo. Antes do posto mais alto de Ministro, atuou como Secretário de Educação Básica no Ministério, atuando pela Reforma do Novo Ensino Médio e pela Base Nacional Curricular Comum, altamente criticadas por professores por eliminarem (na prática) matérias essenciais do currículo e atender à lógica de mercado em um projeto que desprezou o debate com a população e as classes interessadas.

Pelos “serviços prestados”, Rossieli foi indicado por Mendoncinha para sucedê-lo no Ministério. Agora, vai terminar seu trabalho de sucateamento da educação aqui em São Paulo, famosa por fechar salas de aula para economizar nos custos.

Caminho parecido fez Sérgio Sá Leitão, que deixou o Ministério da Cultura de Temer para assumir a pasta com Doria em São Paulo. Não é preciso dizer muito sobre Sérgio, apenas que ele ficou famoso por acusar Roger Waters de fazer propaganda ilegal para o PT durante as eleições. Com um histórico de ocupar nomeações em cargos nessa área nas mais diversas gestões públicas, Sérgio ficou pouco mais de um ano à frente de um Ministério que o Governo Temer sequer queria que existisse.

Assim como Sérgio, outro que tem histórico em ocupar cargos de nomeação em diversos Governos é Vinicius Lummertz, que também deixa um Ministério de Temer, o do Turismo, para assumir a Secretaria da mesma pasta em São Paulo. Completa a lista de “Minisitros menos famosos de Temer que se refugiaram em São Paulo” Alexandre Baldy, que deixa o Ministério das Cidades para ocupar a Secretaria de Transportes Metropolitanos. Um deputado do PP, partido que tinha o maior número de investigados no último Congresso, para assumir os transportes do Governo tucano paulista envolvido no escândalo do “Trensalão”.


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Mas nem só de nomes miúdos vindos de Temer é que Doria vai compondo seu Governo. Doria também foi buscar os “peixes grandes”. Um deles, aliás, teve que pular fora antes mesmo de começar. Após uma nomeação sem qualquer justificativa plausível para ocupar o Ministério da Ciência de Temer, Gilberto Kassab, sempre ele, foi nomeado Secretário da Casa Civil de João Doria.

Porém, envolvido em uma operação da Lava Jato que apreendeu R$ 300 mil em dinheiro vivo em seu apartamento, apenas mais um dos escândalos que o cercam, Kassab teve que pedir licença assim que assumiu o cargo, estando afastado até o momento.

Outro “grande” nome que saltou do Governo mais rejeitado da história da Nova República brasileira foi Antonio Imbassahy. O tucano conseguiu a nomeação como “prêmio de consolação” por não ter conseguido se reeleger deputado federal pela Bahia. Sua impopularidade tem justificativa: como Ministro Chefe da Secretaria de Governo da Presidência, ele teve papel essencial para rejeitar o prosseguimento do processo criminal contra Temer no Congresso e para articular a aprovação relâmpago de reformas contra os trabalhadores. Agora, será o chefe do Escritório de Representação do Estado de São Paulo em Brasília.

Mas ainda não citamos a “cereja do bolo”. Sim, Doria seguiu o conselho de Temer e chamou ele: Henrique Meirelles, Ministro da Fazenda responsável por aprofundar a recessão brasileira em 2016 e fazer explodir o desemprego, chegando a situação de quase 30 milhões de subempregados e desempregados no país. Como prêmio por afundar ainda mais a economia brasileira com uma cartilha liberal de austeridade e privataria, Meirelles assumiu a Fazenda do Estado com Doria, importando essa agenda para o âmbito estadual.

Completando a lista de ex-Ministros de Temer, Aloysio Nunes, o ex-Chanceler que iniciou a destruição da soberania brasileira com uma nova política de submissão a interesses imperialistas que despreza as relações Sul-Sul, a integração latino-americana e a própria autodeterminação do povo brasileiro. Ele assumiu a Investe SP, agência paulista de promoção de investimentos, para trabalhar ao lado de Meirelles.

Outros “não Ministros” que integraram o Governo Temer completam a lista de 10 nomes. Nelson Souza, ex-Presidente da Caixa que vinha há quase um ano trabalhando no desmonte e no sucateamento desse banco público com o objetivo de privatizá-lo, virou chefe das estatais Emplasa, CPOS e Codasp. Já Antonio Claret Oliveira, que, como Presidente da Infraero, disse que deixou a importante estatal de infraestrutura “vestida para casar” numa referência a sua privatização, assumiu o Departamento Aeroviário de São Paulo.

Com esses 10 nomes, Doria deu o tom de seu Governo: vai destruir, sucatear e aparelhar o Estado de São Paulo, assim como Temer fez com o Brasil, para entrega-lo a uma privataria sem precedentes. E, para isso, nada melhor do que a equipe do próprio Temer.

Para quem, mesmo depois de mais de um ano de uma gestão municipal desastrosa na capital, ainda acreditou que Doria poderia ser a cara de uma suposta “nova política”, a equipe montada por ele para gerir o Estado é um verdadeiro choque de realidade. Uma realidade que, falemos a verdade, foi alardeada em alto e bom som pelos moradores da capital, que sabem bem o que sofreram com a sua Prefeitura. Agora, só podemos esperar que, ao fim de sua gestão, além de mais uma lição dolorosa, ainda reste um Estado de São Paulo para recuperarmos.

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