Venezuela e a hipocrisia do discurso sobre a “politização” da ajuda humanitária
Sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Venezuela e a hipocrisia do discurso sobre a “politização” da ajuda humanitária

Tenho acompanhado os desdobramentos relativos à tentativa dos Estados Unidos de fornecer ajuda humanitária à Venezuela, na forma de alimentos e remédios. O governo venezuelano tem impedido a entrada dos carregamentos que chegam desde o início do mês dos EUA e recentemente informou que impedirá também a entrada de ajuda brasileira, anunciada ontem pelo governo Bolsonaro. A ajuda deve chegar em breve a duas cidades fronteiriças de Roraima para posterior distribuição na Venezuela, operação coordenada por Juan Guaidó, que se declarou presidente interino do país há cerca de um mês.

Sobre este assunto, tenho notado manifestações de apoio e rechaço à atitude do presidente Nicolás Maduro – uns entendem que ele está correto em não permitir a entrada deste “Cavalo de Tróia” em território venezuelano. Outros acreditam que que ele só faz aumentar a tensão e o sofrimento do povo venezuelano e que recusar ajuda, neste momento, beira a crueldade. Ontem li algo sobre “os riscos da politização da ajuda” para a Venezuela. Espera um pouco… “politização da ajuda”. E por acaso em algum momento a ajuda internacional deixou de ser politizada? Vale recorrer brevemente à história da ajuda internacional desde a II Guerra Mundial para entender melhor o que está ocorrendo na Venezuela.


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Quando os aliados derrotaram o nazismo na II Guerra, dois modelos econômicos se apresentavam como possíveis para os países que saíram vitoriosos, porém combalidos, do conflito. Estes dois modelos eram antagônicos e, na divisão de territórios subsequente ao fim da guerra, cada um “agarrou” a sua porção do globo. Contudo, muitos territórios estavam ali, disponíveis para aderir a qualquer dos dois blocos que oferecesse “uma mão” para a reconstrução destas nações. O Plano Marshall foi exatamente isso – um programa de ajuda financeira para os países europeus devastados pela guerra. Vale destacar que o Congresso americano não concordou imediatamente com esta ajuda à época. O que convenceu os congressistas de que o plano era politicamente estratégico foi o avanço soviético na Europa oriental, que os levou finalmente a compreender que o plano deveria servir como um escudo anti-socialista sobre os países beneficiários.

Começava então a disputa por territórios entre bloco capitalista e bloco socialista. E não é de se estranhar o instrumento que sempre esteve no centro desta disputa: a assistência estrangeira. A Guerra Fria foi um período em que a ajuda internacional desempenhou o importante papel de compra de zonas de influência, além de controle e monitoramento de países beneficiários. Uma vez restabelecidos, os países europeus foram pressionados pelos EUA para criarem suas próprias agências de ajuda estrangeira, de modo a colaborar na “luta” para frear o avanço comunista no globo.

Finda a Guerra Fria, muita coisa mudou no regime internacional de assistência estrangeira – de lá para cá, houve intensa profissionalização das agências que coordenam o envio de recursos para os países necessitados, além de um aumento bastante significativo no volume desta ajuda. No entanto, há algo que parece não mudar: a assistência estrangeira continua funcionando bem como mecanismo de controle e monitoramento de países receptores.


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Em minha pesquisa de doutorado, analisei o fluxo de recursos e programas financiados por estas agências especificamente dentro da área da segurança pública na América Latina. E o que pude constatar é que esta ajuda não se preocupa em atender demandas internas dos países receptores – ela atende antes a prioridades estabelecidas pelos países doadores, que a utilizam comofonte de informação, monitoramento e salvaguarda de sua própria segurança (a dos países doadores, no caso). Não se engane, a ajuda internacional – assim como a falta dela – nunca foi inocente. E falar em “ajuda internacional politizada” é uma tautologia: a ajuda internacional sempre foi politizada, desde seu nascimento com o Plano Marshall e as instituições criadas em Bretton Woods, supostamente para ajudar na reconstrução dos países devastados durante a II Guerra – a saber, Banco Mundial e FMI.

Em uma das matérias que li ontem, uma foto me chamou a atenção: sacos e caixas de comida com o logo da USAID aguardando em um depósito a entrada na Venezuela. Enquanto isso, a ajuda russa chega à Venezuela e é recebida pelo governo. Você pode não gostar do Maduro (eu mesma não tenho nenhuma simpatia por ele), mas uma coisa é preciso admitir a respeito dele – ele sabe muito bem qual o papel que a ajuda internacional desempenhou e desempenha ainda hoje no globo. Sabe que há interesses envolvidos dos dois lados, que seu território está sendo disputado e que precisa tirar o maior proveito disso. Neste xadrez entre EUA e Rússia, as peças do jogo são os carregamentos de ajuda humanitária, enquanto que a Venezuela é o tabuleiro (o Brasil, diga-se de passagem, quer se candidatar a teamleader da torcida pró-EUA). E Maduro parece saber muito bem disso.

Ana Maura Tomesani é doutora em relações internacionais pela Universidade de São Paulo (USP).

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