A polícia de Bolsonaro ataca no Carnaval
Quinta-feira, 7 de março de 2019

A polícia de Bolsonaro ataca no Carnaval

No Carnaval do Rio de Janeiro, por exemplo, a polícia, sob desculpa de resolver uma briga, botou pra correr 1,2 milhões de pessoas com uma chuva de bombas de gás

Por André Zanardo

 

O Carnaval mal acabou e o presidente mais uma vez conseguiu deslocar a atenção daquilo que realmente importa para uma nova crise gratuita e autofágica. É claro que o que importa no Carnaval é o Carnaval, mas incomodados com a politização da maior festa do Brasil, Bolsonaro e bolsonaristas, se sentindo fora da festa, se juntaram não só para acabar com uma das maiores manifestações da cultura brasileira mas também para ridicularizar o Brasil.

A figura do presidente, personagem central do enredo carnavalesco de 2019, desfilou em diversos blocos ao lado de milhares de laranjas, que trouxeram o tom crítico ao governo que já se demonstrou não tão quisto pela população.

“Se o Carnaval é contra Bolsonaro, Bolsonaro é contra o Carnaval.”, assim explicou o pesquisador Pablo Ortellado em suas redes sociais, na tentativa de decifrar a conduta do presidente ao postar um vídeo de conteúdo explícito nas redes, o agora já não tão desconhecido “Golden Shower”.

Certamente a postagem do presidente passou longe de ser o fato político que mereceria maior destaque e atenção da mídia. Poucos foram os noticiários que contaram as histórias de violências policiais gratuitas, dos policiais que se sentiram autorizados de atacarem foliões sob pretexto de controle da ordem pública.

Se tornaram comuns, entretanto, os relatos de aglomerações de pessoas que foram dispersadas com gás lacrimogêneo, spray de pimenta e balas de borracha por estarem na rua fora de horário permitido pela polícia.

A falta de decoro do presidente não foi nada em comparação ao “coro” da polícia nos foliões, que levou centenas de pessoas aos pronto-socorros que, este ano, não só atenderam intoxicação por álcool, mas também spray de pimenta, bomba de efeito moral, lesões por cacetetes e diversas outras decorrentes do atropelamento da multidão que se sentiu acuada com as operações ilegais de dispersão.

No Rio de Janeiro, por exemplo, a polícia, sob desculpa de resolver uma briga, botou pra correr 1,2 milhões de pessoas com uma chuva de bombas. O “Fervo da Lud” foi encerrado sumariamente uma hora e meia antes do término previsto .

“Foi uma correria como nunca vi. Minhas duas sobrinhas quebraram um osso da perna. Estamos esperando atendimento aqui no Souza Aguiar – diz ela – Vi mais de 50 pessoas sendo atendidas”, disse uma das vítimas ao jornal O Globo.

No bloco da cantora Ludmilla, em relato ao jornal, um folião foi preso após um policial tentar apartar uma briga e ser agredido pelo homem. Este episódio deu início a uma perseguição dos policiais contra o suposto agressor, que acabou sendo espancado pela PM, mesmo imobilizado. O homem foi lesionado na cabeça e foi levado embora dentro de uma ambulância. Este episódio manteve quente o clima do bloco e, com os ânimos exaltados, a PM, sem competência para lidar com o próprio erro, interrompeu a festa logo que outra briga aconteceu.

Percebe-se, portanto, que de todas as maneiras possíveis para a contenção de distúrbios civis a polícia resolveu se utilizar da mais gravosa de todas. Bombas, gás, balas de borracha e cacetetes expuseram a risco e fizeram com que centenas de pessoas fossem pisoteadas. Este tipo de conduta ilegal da polícia mostra o quão despreparada e autoritária são as forças policiais que não cumprem sua função de proteger e dar segurança, não sabem curtir, nem deixam curtir o Carnaval. Afinal, alguém se sentiu mais seguro, ou deixou de ser furtado nesse Carnaval em razão da polícia? Creio que não. Entretanto, no Rio, diversos foliões foram atendidos pelo centro de atendimento ambulatorial montado para o evento e no Hospital Souza Aguiar, próximo na região, os quais foram socorridos, grande parte, em razão da trapalhada da PM.

Em Belo Horizonte, Minas Gerais, na sexta-feira, a polícia não só dispersou bloquinhos, como ameaçou com avisos oficiais os organizadores dos blocos e foliões que ousassem criticar politicamente o Governo Bolsonaro. O capitão da PM, chefe do patrulhamento local na região da Pampulha, subiu no trio elétrico do bloco “Tchanzinho Zona Norte” assim que a cantora começou a puxar o coro “Bolsonaro é o ca***”.

“Está todo mundo bem-vindo, mas, se por acaso não concordar, vai se incomodar, porque nós vamos falar, o bloco inteiro: ‘Bolsonaro é o c**** e Lula Livre'”, disse o puxador do bloco, no início da noite, por volta das 20h.

Em seguida, em defesa de Bolsonaro, o capitão teria afirmado que “aquilo não podia continuar” e que o policiamento seria retirado se as manifestações políticas não parassem. Procurado depois da situação ter sido escandalizada, o porta-voz da PM de Minas, major Flávio Santiago, diminuiu o fato e negou que tenha havido censura. Segundo ele, o que houve foi apenas uma “recomendação” para que as manifestações políticas parassem.

Em Atibaia, no Estado de São Paulo, o presidente do diretório municipal do PT, o advogado Geovani Doratiotto, teve o braço quebrado pela Polícia Militar dentro de uma delegacia. O episódio aconteceu no domingo (3), quando Geovani participava de um bloco de Carnaval e teria sido provocado por um PM por conta de sua camiseta, que trazia a frase “Lula Livre”.

O policial, depois de levá-lo sem fundamentação legal à delegacia, quebrou o braço do dirigente petista propositalmente, enquanto ele estava imobilizado por outros policiais. As imagens da agressão, gravadas em vídeo, viralizaram, mas passaram longe dos grandes jornais. Talvez o dirigente petista devesse ter sido avisado também de evitar sair com uma camiseta “Lula Livre” para evitar briga nas ruas, assim como mulheres que vestem saia não devem usá-las sob risco da falta de controle da lascívia masculina.

A companheira de Geovani, Pham Dal Bello, fez um relato do episódio em sua página no Facebook, denunciando que o grupo deles havia sido provocado por defensores de Bolsonaro no bloco e o dirigente petista fora covardemente agredido por essas pessoas.

“Geovani foi algemado com duas algemas que eles apertaram o quanto puderam para machucar”, relatou.

“Do lado de fora eu vi policiais nitidamente defendendo as agressões direcionadas ao Geovani pelo simples fato do meu companheiro vestir uma camiseta do Lula.”

Agressões policiais, censuras e medidas extremadas também ocorreram nas capitais São Paulo, Distrito Federal e outras cidades, demonstrando a nacionalização deste comportamento militar antidemocrático.

Camila Marques, advogada do Artigo 19, Organização não governamental internacional, defensora do direito de expressão, desabafou em rede social:

“Ontem no tarado (bloco carnavalesco paulistano), já no fim, uma amiga disse que sentiu spray de pimenta, eu só vi a movimentação. Depois, a minha irmã que estava mais próxima ao bloco disse que teve gás para dispersar as pessoas assim que o bloco chegou no ponto final. Depois li muitas notícias e vídeos de repressão no largo da batata. Não podemos achar que isso é normal. Pessoas correndo por simplesmente estarem ocupando as ruas. No carnaval. Bomba, gás e spray não são brinquedos, não são inofensivos. Os agentes públicos devem garantir que as pessoas cheguem e saiam com segurança, não o contrário.”

Em um surto de (fake) moralismo, Bolsonaro, bolsonaristas e suas tropas tentam nos convencer que ridículos somos nós que gozamos o Carnaval. Enquanto isso, estes reprimem seus desejos, fiscalizam os fetiches alheios e criminalizam nosso direito à felicidade. Que ninguém mais seja detido por usar uma camiseta de maconha, como aconteceu com uma adolescente em Minas Gerais, ou que sejam impossibilitados de colocar o trio elétrico na rua, como como ocorreu no bloco “Raparigueiros e Baratona” no DF.

E claro, não sejamos do nosso lado caretas de pedir um impeachment em razão do presidente criar mais um factóide com “Golden Shower”. Nós fomos expostos ao ridículo sim, mas foi nisso que o povo votou, no ridículo. Aceitemos o fato de que permaneceremos fantasiados de Bozo por mais quatro anos, mas em nome da democracia, não aceitemos mais essa falsa autoridade dessa milícia bolsonarista. O carnaval acabou, a democracia não.

André Zanardo é ativista pelos Direitos Humanos, advogado e diretor de redação do portal de notícias Justificando.

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