Nas manchetes, quem é bandido?
Segunda-feira, 11 de março de 2019

Nas manchetes, quem é bandido?

Nas manchetes um deles é chamado de ladrão. Ou seja, é já considerado culpado, mas os relatos vão dizer que nada foi encontrado e que ele foi liberado

Por Jana Viscardi

 

Se você tem acompanhado o que escrevo aqui no Justificando, deve ter percebido que o meu negócio é falar de linguagem e da maneira como são comunicadas as ideias por aí. É disso também que eu falo majoritariamente lá no meu canal no Youtube. Embora a linguagem não seja a responsável pelo mal do mundo (é sempre bom deixar isso claro), através dela expressamos a maneira como apreendemos e compreendemos a realidade. E essa é uma das boas razões pelas quais devemos estar muito atentas à maneira como as notícias são veiculadas e as histórias são contadas.

Vejamos mais um exemplo de como isso acontece.

No sábado, dia 09 de março, Anitta comandou o Bloco das Poderosas, no Rio de Janeiro. Em meio à multidão, reportou ao vivo, no meio da folia, ter visto, supostamente, um ladrão. Apontou para ele e chamou a polícia. O rapaz foi levado à delegacia e lá nenhum objeto foi encontrado com ele. Inocentado, foi liberado.

Os jornais, ao tentar explicar o que aconteceu, fizeram manchetes como essas aqui:

(Tweet de O Globo: https://twitter.com/OGlobo_Rio/status/1104376019518136320)

 

(manchete Veja: https://veja.abril.com.br/entretenimento/anitta-identifica-ladrao-em-meio-a-multidao-de-bloco-de-carnaval-no-rio/)

Talvez possa ter passado despercebido para você, então cá estou eu para assinalar: nas duas manchetes – a parte da notícia a que as pessoas costumam prestar mais atenção – o rapaz é chamado de ladrão. Ou seja, é já considerado culpado na chamada da notícia, mas, no texto das duas reportagens, os relatos vão dizer que nada foi encontrado com o rapaz e ele foi liberado. Não lhe cabe, portanto, o rótulo de ladrão diante do que mostraram as evidências.

Depois de diversas manifestações na internet, a manchete d’O Globo foi alterada e ficou assim:

(manchete refeita de O Globo: https://oglobo.globo.com/rio/apos-alerta-de-anitta-suspeito-de-furto-detido-no-bloco-das-poderosas-mas-logo-liberado-por-falta-de-provas-23510331)

 

“Suspeito de furto”, no entanto, poderia ter sido substituído por “rapaz”, já que, na ocasião da escrita da notícia, já se sabia que o jovem havia sido liberado pela polícia, sem quaisquer provas contra ele. Sua imagem foi veiculada por vários jornais, e ele teve sua imagem automaticamente identificada com a de um ladrão, inclusive pela própria Anitta no bloco.

A notícia, ao manter esse formato de relato, não desfaz o equívoco, mas o reforça.

A ideia de isenção da imprensa vem abaixo quando casos como esse – correntes – são apontados, mostrando o quanto os preconceitos – sociais, raciais, de gênero – estão presentes o tempo todo e como nenhum jornalista está imune a esses preconceitos. Observe, por exemplo, casos de violência cometidos por indivíduos de classes mais abastadas reportados pela imprensa e verá que o termo “rapaz” aparece com bastante regularidade. Foi o caso de Vinicius Batista Serra, preso por espancar Elaine Caparroz por 4 horas, em matéria veiculada pelo próprio O Globo.

A suposta isenção, assim, parece ser bastante direcionada. Nós, leitores, temos papel importante para a melhoria do jornalismo ao apontar como são equivocadas tais manchetes. Foi assim que o jornal O Globo se prontificou a fazer a alteração que mostrei acima. É assim que deixamos de condenar indivíduos antes mesmo de serem julgados. O tribunal público passa pela imprensa, e ela precisa, constantemente, estar ciente do quanto essa postura pode ser devastadora.

E é por isso que a gente precisa falar de linguagem, mais e sempre. Vamos ficar atentas?

Jana Viscardi é doutora em Linguística pela UNICAMP, com passagem pela UniFreiburg, na Alemanha. Professora e palestrante, faz vídeos semanais sobre linguagem e comunicação (e otras cositas más) no canal do Youtube que leva seu nome.

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