O ódio à democracia e a saída de Márcia Tiburi
Quarta-feira, 13 de março de 2019

O ódio à democracia e a saída de Márcia Tiburi

Arte: Caroline Oliveira

Em meu primeiro texto publicado por aqui, dediquei-me a refletir sobre o avanço do fascismo após o período eleitoral de 2018. Nesse sentido, procurei mostrar como este não abriga em sua estrutura espaço para o reconhecimento da pluralidade. Pela minha cabeça passam mil coisas que eu gostaria de dizer, mas ainda sob intensa surpresa escrevo essas linhas sobre a notícia da saída de Márcia Tiburi do Brasil. Para compreender essa conjuntura, suas principais características e possibilidades, a importante filósofa e escritora se dedicou nos últimos anos a responder algumas questões sobre os processos neoconservadores que reconquistaram a iniciativa política e os ataques desta direita fundamentalista em diversas esferas.

Em um dos seus livros mais importantes, “Como conversar com um fascista”, Tiburi desenvolve uma densa leitura crítica ao fascismo e seus efeitos. Essa leitura nos possibilita um maior realismo ao lidar com os processos históricos e conjunturais, e reafirma a perspectiva de uma nova dialética que culmina na transformação real das relações de poder. O livro nos apresenta que a democracia brasileira tem vivido em constante crise e que esse modelo de desenvolvimento tardio produziu espaço para visões deterministas, unilaterais, perspectivas que sustentam formas de controle social e político contra as liberdades.

É nesse contexto de neoliberalismo que se apresentam os elementos que nos permitem entender a consolidação do fascismo na realidade brasileira. O Estado seguiu sua atuação de forma a atender as atividades do capital financeiro e os interesses especulativos. Essa cooptação do Estado brasileiro pelo setor privado, levou a uma gradual retirada de direitos e favoreceu a reorganização dos movimentos de direita.  Nas palavras de Fernandes, “esse fascismo oculto e mascarado (…) é capaz de passar do Estado de exceção para a ‘normalidade constitucional’ sem permitir que se destrua o elemento autocrático que converte o Estado no bastião da contrarrevolução”. (1981, p. 31-32)

É importante considerar que essa forma de sociabilidade não é consequência apenas de fatores econômicos, suas determinações seguem estando no eixo da lógica das transformações socioculturais neste âmbito promovido pela despolitização dos movimentos sociais, a nossa herança conservadora, existem avanços a partir da “abertura ”, mas grande parte dos traços da ditadura se mantiveram e seguem até os dias de hoje, os resultados produzidos pelo golpe de Estado de 2016 e da política de conciliação de classes que não teve êxito.

Não foram apenas as redes sociais que produziram o ódio a democracia, as redes políticas reais ativas estavam envolvidas, haja vista que os setores privilegiados se mostraram resistentes para aceitar na esfera política a introdução de conquistas que asseguram formalmente certos direitos políticos e sociais para a classe trabalhadora. A luta de classes está às claras!  

A legítima indignação no contexto atual diante dos retrocessos na efetivação de direitos humanos, mais do que nunca, deve ser transformada em combustível para a ação, o que com certeza não é uma tarefa fácil e exige constante aprimoramento intelectual ligado à prática conscientemente orientada.

A democracia se reduz quando se impõe o controle do discurso onde cada um pode colocar algo de si. A saída de Márcia como intelectual crítica reflete o arbítrio que se faz presente. Por tudo isso e principalmente em razão do avanço do autoritarismo, que faz do ódio política, que possamos, de fato, a partir de agora, em resposta ao poder, abrir os caminhos da democracia participativa e não aceitarmos essa dinâmica que nos oprime. Nesse contexto, faz- se necessário estratégias coletivas com vistas a superação das condições socioeconômicas que fornecem a base material da sociabilidade burguesa.

Encerro afirmando, de acordo com Taiguara, que “só o amor tem força para derrotar tanto horror”. Obrigada Márcia!

 

Maciana de Freitas e Souza é bacharela em Serviço Social pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).

 

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FERNANDES, Florestan. Poder e contrapoder na América Latina. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

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