Também morre quem atira
Quinta-feira, 14 de março de 2019

Também morre quem atira

Arte: Caroline Oliveira

 

Elephant, Gus Van Sant (2003)
American History X, Tony Kaye (1993)
We need to talk about Kevin, Lynne Ramsay (2011)
April Showers, Andrew Robinson (2009)
OA, criado por Brit Marling e Zal Batmanglij (seriado lançado em 2016)

Esses são quatro filmes e um seriado que falam sobre tiroteio em escolas e o horror que é, não há outro nome para isso, crianças e adolescentes portarem armas e serem influenciados sorrateiramente por meios suspeitos de informação. Há outros filmes, aliás, que tratam de violência nas escolas como o famoso Pay it Foward (A corrente do bem, filme de 2001, dirigido por Mimi Leder). Posso estar enganado, mas os quatro filmes, por coincidência, foram produzidos nos EUA. Eu disse por coincidência, mas isso não passa de ironia.

O site Vox, em artigo de 10 de dezembro de 2018, intitulado “2018 was by far the worst year on record for gun violence in schools“[1], mostra que nos últimos 48 anos houveram ocorrências com armas de fogo no perímetro ou no interior de escolas nos Estados Unidos, como demonstrado no gráfico abaixo:

A imagem a seguir demonstra, por sua vez, o número de mortes causados por armas de fogo em escolas, incluindo a morte do atirador:

A análise dos gráficos não só ostenta o longo histórico envolvendo armas em escolas, bem como deixa uma dúvida: por que exatamente em 2018, um ano após Donald Trump assumir a presidência, o número de tais casos mais que dobraram? Seriam esses dados mero acaso, como tudo que vem acontecendo para as bandas de cá? Ou os discursos armamentistas, fundamentalistas[2] e de ódio teriam encorajado esse tipo de ação?

Ao meu ver, essa realidade estadunidense não está isolada de uma realidade que está cada vez mais próxima do Brasil, como o chamado Massacre de Realengo, que terminou com o assassinato de 12 crianças em 2011, prova. Além disso, o atual presidente brasileiro não só se aproxima do estadunidense, como vem incessantemente dando vazão para discursos de ódio e de apologia à violência. Para além disso, tem como pauta da sua campanha o armamento da população, embasado na ilusão, pois não passa disso, de que ter uma arma em casa é segurança garantida. Claro, ambos os presidentes não detêm responsabilidade sobre tais crimes e tragédias. Contudo, ao demonstrarem qualquer proximidade que seja de discursos que vão contra os direitos humanos, não estariam de alguma forma abrindo espaço para discursos extremistas e que impulsionam tragédias como estas?

O acontecimento na escola em Suzano, São Paulo, pode parecer um caso isolado, porém não é novidade que fóruns conhecidos como “Chans” (fóruns anônimos) vêm há alguns anos conferindo espaço para discursos racistas, misóginos, homofóbicos e de teor fanático-religiosos. Em 2011, inclusive, o assassino do Massacre de Realengo, Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, estava ligado ao “Dogolachan”, fórum no qual Luiz Henrique de Castro, de 26 anos, e Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, planejaram o ataque na escola estadual em Suzano. Jovens como Luiz e Guilherme obtêm através desses “chans” a oportunidade não só de conhecer outros jovens de mesma perspectiva, mas também de serem incentivados por homens como Marcelo Valle Silveira Mello, de 33 anos, condenado a 41 anos de prisão por diversos crimes virtuais, todos eles ligados à extrema-direita[3]. Outro caso, também ligado ao Dogolachan, foi a ameaça de ataque a tiros, em 2015, à Faculdade de Filosofia e Ciência Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais em Belo Horizonte.

É necessário e urgente, portanto, que haja um debate público sério e constante não só sobre o ledo engano de que armas de fogo provêm segurança, mas também um movimento de combate a sites de conteúdo perigoso, equivocado e, sobretudo, criminoso. Isso deve ser, inclusive, pareado com uma conscientização junto aos pais para que haja um controle sobre o acesso à internet de seus filhos. No entanto, não há otimismo acerca da questão ou de qualquer possível solução em governo que compreende sequer a importância, inclusive para a segurança, da conscientização sexual dos jovens e das jovens brasileiras.

Ao meu ver, por fim, a finalidade dos filmes que citei ao início desse artigo não era e ainda não é simples entretenimento do espectador, sobretudo o longa American History X, que diz muito sobre nosso presente. Na trama o irmão mais velho, Derek Viniyard, que fazia parte de grupos neonazistas é preso após o assassinato a sangue frio e de forma violenta e covarde de um homem negro que tentara assaltar sua casa. Derek é preso e durante seu tempo na cadeia, percebe que suas convicções não passavam de preconceitos absurdos e que a vida que levava possuía um sentido equivocado. Ao sair da prisão, no entanto, reencontra o irmão mais novo, Danny, que ainda idolatra o antigo Derek. Este, no entanto, busca demonstra a Danny como ele estava enganado a respeito de tais convicções. Danny resiste, mas ao final da trama é convencido pelo irmão a tomar outro caminho, porém era tarde demais.

A finalidade desses filmes é, no mínimo, uma tentativa de relevar ao espectador o perigo que é o fácil acesso à arma e expor a vulnerabilidade da juventude em face de influências escusas, porém não menos atraentes. A tragédia que assistimos no dia 13 de março não é diferente e poderá não ser a última caso a população junto das instituições não tratem do caso com devido rigor e de forma a fazer jus a seriedade da questão. Sem dúvidas, liberar o comércio de armas nada é um passado nesse sentido. Ao contrário, nada mais é, pois, do que pedir para um instrumento desse tipo cair em mãos erradas e finalizar, em seguida, uma vida inocente. Sem esquecer, no entanto, o que canta a canção: “também morre quem atira”.

Marcos Vinícius Gontijo é historiador e mestrando pela Universidade Federal de Ouro Preto e se esforça para dar o retorno à sociedade pelo investimento em sua formação via financiamento da CAPES.

 

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________________
[1] Disponível em: https://www.vox.com/2018/12/10/18134232/gun-violence-schools-mass-shootings Acesso: 13 de março de 2019.
[2] Sobre os discursos fundamentalistas que embasam certas pautas do governo Bolsonaro vide: http://www.justificando.com/2019/03/12/fake-news-e-fundamentalismo-como-formas-de-ver-o-mundo/?fbclid=IwAR3nxghCZd82sNdUGbL9iUyUx3vBYM4yZDRjHG9JNJV1j9UapOu74mDTQjA.
[3] Sobre o caso de Marcelo Mello, seu percurso horrendo, a criação do Dogolachan e do que esses grupos são capazes, vide: https://theintercept.com/2018/12/21/prisao-do-misogino-marcelo-mello/?fbclid=IwAR0ldNr7C6c4V0xR-Qb3sv5oLLbBYarrsTEv1zWiLu2Q70tgfVv1wPGz5ns.

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