Carta aos meus amigos brancos
Sexta-feira, 22 de março de 2019

Carta aos meus amigos brancos

Eu sempre tive dificuldade em começar cartas. Como se começa uma carta? Eu sinceramente não sei. Para redigir uma carta formal ainda tenho algum tipo de referência como “Prezados” ou “Vimos por meio desta”. Mas quando se trata de algo pessoal, informal, o início é sempre meio complicado, pelo menos para mim. Soa como iniciar uma conversa com uma pessoa desconhecida no meio da rua. O que se deve dizer primeiro? Oi? Pois bem, já comecei…

Agora que comecei, já deveria ter ficado um pouco mais fácil, afinal de contas já teve a introdução… mas no fundo eu sei que não será. O título já denuncia isso. Da mesma forma que sei que não será fácil ler o que eu tenho para dizer. Mas vamos lá…

Hoje, mais do que nunca, no Dia Internacional de luta contra a Discriminação Racial, eu tenho algo muito importante para dizer a vocês, meus amigos brancos.

Durante muitos anos eu fiquei silenciado sem poder dizer aquilo que eu precisava dizer para mundo. Vocês precisam me escutar. Sim, escutar, e não ouvir. Mas principalmente com empatia.

Talvez, depois de ler esta carta, vocês entenderão melhor porque meus olhos se enchem de lágrimas ao assistir filmes que falam sobre a vida das pessoas que lutaram contra a discriminação racial. Filmes como “12 anos de escravidão” ou “Histórias cruzadas” que dão a dimensão de quanto isso pode nos ferir por dentro.

Prestem muito atenção nas próximas linhas, pode não parecer, mas elas podem mudar a sua perspectiva de mundo.

A vida me ensinou a ser negro numa sociedade racista. Repito. A vida me ensinou. Embora quase ninguém admita, nesse país, que por vezes é racista ou que não saiba lidar com uma questão tão delicada como é falar sobre discriminação e racismo, eu não tive outra escolha a não ser aprender a lidar com essas pessoas. Desde muito cedo, eu fui jogado no mundo das pessoas brancas, então sei muito bem sobre aquilo que vou falar.

Enquanto criança vivi dentro da verdade crua do racismo. Quando alguma criança queria ser racista comigo, ela era de forma direta e deliberada, não havia meandros ou subterfúgios. Crianças são verdadeiras e não possuem esses artifícios. Aprendem aos poucos enquanto crescem.

E por mais que elas possam não saber exatamente o que é racismo e como ele funciona, elas praticam. Elas te excluem do grupo, te chamam de macaco, te dão todo tipo de apelido para tentar te atingir porque simplesmente não foram com a sua cara e querem te ferir. Eu fui parar na diretoria pelo menos umas três vezes por brigar em sala de aula por conta disso.

Minha mãe me dizia para não brigar na escola, mas no fundo eu tinha certeza de que ela sabia que eu estava me defendendo, que eu estava sobrevivendo. Mas a porrada não era o jeito certo de lidar com esse problema. Não mesmo. A melhor forma que eu achei de lutar contra o racismo foi por meio da palavra e do estudo.

Então meus amigos, quando vocês tiveram seus filhos, por mais que vocês achem que eles são uns amores de lindos, lembrem-se que eles podem estar fazendo alguém sofrer na escola. Independentemente de vocês quererem chamar isso de racismo ou de bullying (para “suavizar” as coisas). Eu sei que será difícil detectar, mas já é um bom começo colocá-los na convivência de outras crianças negras perto de vocês, ou até mesmo dentro da sua casa.

Uma criança branca que cresce tendo um(a) melhor amigo(a) negro(a) dificilmente replicará esse tipo de conduta. Alguns de vocês são a prova viva disso. Como já disse Yuri Marçal: “Criem seus filhos para não serem racistas, porque estamos criando os nossos para reagir”.

Com relação aos seus pais, avós e mais velhos que vocês no geral, eu tenho plena consciência de que muito provavelmente eles não mudarão seu jeito de enxergar a população negra, mas toda vez que eles “escorregarem” ou forem abertamente racistas: se posicionem. Principalmente se os seus filhos ou sobrinhos estiverem por perto.

Eles podem até não aceitar, mas precisam saber que as coisas mudaram por aqui. Eu consigo ver claramente no fundo dos olhos das pessoas que me recebem em suas casas e que me julgam instantaneamente pela minha cor. Eu percebo, e elas também percebem que eu percebi. Mas jamais desrespeitei nenhuma delas. Se é da família de vocês, cabe à vocês repreendê-los, não a mim.

Se eu sorrio com as piadinhas racistas que seus primos e tios gostam de contar, não é porque eu achei engraçado e não me fere, mas porque eu tenho educação suficiente para saber contornar esse tipo de situação. O constrangimento fica todo em cima deles.

Dito isto, vamos ao que diz respeito direto a vocês…

Só porque vocês ou qualquer amigo de vocês possui uma amizade ou um relacionamento amoroso com uma pessoa negra, não significa que vocês ou seus amigos saibam o que é ser essa pessoa negra dentro dessa sociedade que a discrimina, ou que estejam isentos de poderem ser racistas, por vezes, também.

O racismo, para vocês é e sempre será visto pela ótica do que acontece com o outro. O racismo, para nós, é sempre visto pela ótica do que acontece conosco. E dentro dessa diferença existe um abismo gigantesco que não dá para mensurar e nem explicar em um texto. Por isso vou tentar resumir alguns dos pontos mais relevantes.

Para mim nunca existiu o racismo do “eu ouvi dizer”, mas sim do “eu passei por isso”. Então nunca, jamais, utilizem essa amizade para justificar qualquer tipo de ato ou “brincadeira” que seja racista. Também esqueçam a pergunta: “Mas existe racismo mesmo?”. Não é porque vocês não sentem ou não sofrem que ele deixa de existir.

Considerando ainda que essa amizade seja verdadeira, comigo ou com qualquer outra pessoa negra, esse tipo de atitude mancha a história dessa relação. Sem contar que a liberdade que lhes é dada por um, não pode ser generalizada para todos os outros (#ficaadica). De fato, nesses casos o que se deve fazer é repensar suas atitudes ao invés de tentar se justificar com “ah, é brincadeira”, “mas você nunca se importou com isso não é mesmo?” ou “eu tenho outro amigo negro que não liga”. Isso é jogar a sua responsabilidade para nós. Simplesmente não faça isso.

Entendam: eu nunca quis que a cor da minha pele fosse uma questão a ser debatida, mas ela é! Eu não pedi isso. Todos os dias, nos 365(6) dias do ano, durante todos os anos pelos quais eu vivi até aqui, a minha pele me acompanhou e eu não posso fechar meus olhos para isso pois a todo momento os brancos vem me lembrar que essa é sim uma questão a ser discutida.

Vocês, pessoas brancas, quando frequentam seus clubes restritos, quando estão nos restaurantes mais luxuosos, quando trabalham nos empregos mais elitistas, quando estão nas festas chiques de família e de amigos de infância, podem se dar ao luxo de fecharem seus olhos e até esquecerem dessas questões. Eu, nesses mesmos espaços, sou lembrado constantemente, assim como sou lembrado fora deles: nas ruas, nas entrevistas de emprego, nas vielas, nos enquadros…que essa é uma questão a ser resolvida. Eu não tenho descanso. E a partir de agora vocês também não terão.

Se eu não posso fechar meus olhos para isso, vocês também não fecharão, não mais, pois eu estarei aqui para lembra-los, adverti-los, todos os dias se for necessário, que vocês precisam tomar uma atitude proativa contra o racismo.

Não é possível que vocês olhem ao redor dos espaços privilegiados que vocês frequentam e ainda achem normal que não haja pelos menos metade das pessoas presentes de etnia negra frequentando esses mesmos espaços e que estejam na mesma posição que vocês. Não como garçons, motoristas ou camareiras, mas como visitantes, convidados e palestrantes.

A pergunta que vocês carregarão até o túmulo de vocês toda vez que entrarem nesses espaços é: Onde estão os negros?!

Essa pergunta vai ressoar na cabeça de vocês a partir de agora, assim como tem ressoado na minha durante esses últimos trinta anos. Eu estou cansado de carregar esse peso sozinho e vocês terão que carregá-lo comigo.

Daqui por diante não me venham falar de meritocracia sem antes saber diferenciar claramente a meritocracia justa da injusta, e nem utilizem minha história para me usar como exemplo meritocrático. Também não queiram parecer descolados ao falar sobre cotas raciais sem entender o que são e a real extensão das políticas afirmativas. Não me façam passar vergonha ao ter que desmenti-los para explicar que não existe democracia racial no Brasil, assim como também não existe racismo reverso.

E nem por um segundo pensem em banalizar a nossa luta, a nossa história individual e coletiva dizendo coisas como: “eu também tenho sangue negro”, “eu também sou negro”, “meu avô era negro”, entre outras coisas desse tipo, para utilizar isso como argumento de autoridade ou para deslegitimar as nossas causas, as nossas batalhas diárias. Eu não tento me passar por branco e nem uso qualquer ancestralidade branca para deslegitimar qualquer sofrimento que a população branca possa ter. Soa até mesmo esquisito isso dito por mim, então não façam o contrário.

Cada uma das histórias de racismo que sofremos fica gravada na nossa mente com muito mais detalhes do que gostaríamos de lembrar. Eu sou negro, sempre fui negro e morrerei sendo negro, tendo travado as minhas batalhas mais difíceis internamente e pelas quais vocês não podem sequer sonhar como foram. Então não diminuam nosso sofrimento.

Em todos esses anos de luta por igualdade foi derramado muito sangue, não figurativamente, de verdade. Gente que morreu por liberdade. Gente que morreu vítima de genocídio, extermínio ou como queiram chamar. Gente que ainda morre nos dias de hoje por conta do racismo.

O jovem Pedro Gonzaga, de 19 anos, morreu em 14 de fevereiro de 2019 no Supermercado Extra, enforcado por um segurança, por conta do racismo. O doutor Flávio Ferreira Sant´Ana foi morto em 03 de fevereiro de 2004 pela polícia do Estado de São Paulo por conta do racismo. O trabalhador Robson Silveira da Luz foi preso, torturado e morto em maio de 1978 pela polícia do Estado de São Paulo por conta do racismo.

E existem milhares de outros casos que poderiam ser citados aqui ao longo desses 130 anos de abolição da escravatura. A manchetes dos jornais deveriam estar estampadas com a frase:

“Extra, extra, extra: a abolição foi declarada há mais de 130 anos, mas a sociedade brasileira ainda não superou as chagas do racismo e pensa que ainda vive no período colonial”.

A cada 23 minutos temos um jovem negro assassinado no Brasil. Essa é a nossa realidade diária e que precisa de um basta agora, nesse exato momento.

O racismo é um problema a ser resolvido, e não é só pelo povo negro, mas pelo povo branco também. Vocês têm o dever de estudar e de escutar aquilo que as pessoas negras têm para dizer sobre o racismo. Poderia ser com vocês e eu estaria aqui para apoiar cada um de vocês. Vocês precisam lutar contra o racismo tanto ou mais do que nós porque ele também interfere na vida de vocês, ainda que vocês não percebam. Vocês não terão mais desculpas para se omitir.

Vocês sabem o que acontece, como acontece e onde acontece. Vocês sabem que por vezes os comentários e atos mais racistas são ditos e feitos fora da nossa presença porque hoje nós nos fortalecemos cada vez mais e não deixaremos mais as coisas passarem impunes. E quando virem isso acontecer: sejam firmes e se posicionem!

Sejam tão chatos quanto vocês acham que eu estou sendo. Só assim as coisas vão começar realmente a mudar. Vocês sabem que os seus amigos brancos abertamente racistas no fundo têm medo de nos encarar. E no fim, eles se tornarão tão poucos que definharão sozinhos.

“Ao final, lembraremos não das palavras de nossos inimigos, mas do silêncio de nossos amigos” – Martin Luther King.

Nós, negros, nem precisávamos, mas já provamos nosso valor, desmentimos a mentiras contadas sobre a escravidão, sobre nossa ancestralidade, sobre nossa religião, sobre nosso passado, presente e futuro, sobre o abismo que nos impede de acessar alguns lugares de poder. Nós estamos de pé e atentos.

Vocês sabem, agora todos sabem o que aconteceu durante todos esses anos de segregação, não adianta mais fingir. Toda pessoa que usa vitimismo como argumento em discussão sobre questões raciais não leu ou não estudou o suficiente ou é simplesmente mal caráter para querer negar aquilo que está mais do que comprovado por estudos, análises estatísticas e historiografia. Não seja uma dessas pessoas. O racismo no Brasil é uma realidade, ponto final.

Se vocês se orgulham sobre nossa amizade, sobre nosso crescimento junto, lado a lado, e são sinceros, saberão entender cada linha e cada palavra dita aqui. Não é um ataque, não é uma ressalva, é um lembrete de que nossas vidas estão sendo ceifadas. Vidas negras importam. A minha vida negra importa.

Por fim, finalizo com as palavras de Desmond Tutu: “Se você fica neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor”.

Certo de sua compreensão, um fraternal abraço do seu amigo,

Gabriel

 

Nota explicativa sobre o dia 21 de março:

O dia 21 de março foi reconhecido como o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial, e foi criado pela Organização das Nações Unidas (ONU), em memória ao “Massacre de Shaperville”, que ocorreu no ano de 1960.

Nesta data, aproximadamente vinte mil pessoas foram às ruas de Joanesburgo, África do Sul, protestar contra a “lei do passe” promulgada e vigente em todo o território sul-africano. Esta lei, um dos pilares do sistema de apartheid, obrigava os negros a andarem com identificações que indicavam os locais por onde poderiam circular. No dia do massacre tropas militares do governo atacaram brutalmente os manifestantes, assassinando 69 (sessenta e nove) pessoas, além de ferir uma centena de outras.

Outro evento importante que perpassou o dia 21 de março, no ano de 1965, foi a marcha pelo Direito ao Voto de Selma, que se iniciou no dia 16 de março, no ano de 1965 e terminou no dia 25 do mesmo mês. Martin Luther King Jr. liderou, ao lado de outros ativistas, aproximadamente 3.200 pessoas na marcha pelos direitos civis da cidade de Selma até a cidade de Montgomery, no Alabama, Estados Unidos, na rota que ficaria conhecida como a “Trilha de Selma a Montgomery do Direito ao Voto”.

No Brasil, por sua vez, o dia 21 de março marca a inclusão de Zumbi dos Palmares, em 1997, na galeria dos Heróis Nacionais Brasileiros.

 

Gabriel Alex Pinto de Oliveira é advogado, pós-graduando em Gestão Financeira e Econômica de Tributos pela Fundação Getúlio Vargas – FGV, pós-graduado em Direitos Fundamentais pela Universidade de Coimbra em parceria com o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM, bacharel em Direito pala Universidade Presbiteriana Mackenzie, com experiência na área de Direito Tributário e no estudo das relações étnico-raciais afro-brasileiras.

 

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