Filme “Capitã Marvel” e a sua representatividade feminina
Quarta-feira, 27 de março de 2019

Filme “Capitã Marvel” e a sua representatividade feminina

Sobre o filme “Capitã Marvel”, a crítica que advém da epistemologia feminista negra é a seguinte: de novo, temos uma mulher branca, dentro do estereótipo de beleza socialmente aceita, como centro da luta feminista

Imagem: Detalhe do cartaz de divulgação do filme “Capitã Marvel”. 

Por Patrícia Silveira da Silva

 

No dia 07 de março deste ano, um dia antes do dia internacional da mulher, estreou no Brasil o filme “Capitã Marvel”, lançado pela grande produtora de filmes de super-heróis (hegemonicamente masculinos), a Marvel. O filme teve como marco principal o protagonismo feminino, haja vista se tratar da super-heroína mais poderosa do universo dos quadrinhos. No entanto, tal protagonismo foi representado por uma mulher branca, loira e magra, ou seja, enquadrada no estereótipo de beleza socialmente aceito.

Com esta representatividade feminina, mulher branca, loira, ex-militar e super-heroína com poderes extraordinários, não surpreende o filme ter sido atacado por diversos comentários machistas, tanto nas redes sociais quanto nas rodas de conversas masculinas, sobretudo envolvendo tentativas de boicote ao filme. E, lógico, o papel de toda mulher feminista é combater qualquer indício de machismo, pois a luta deve realmente ser contra qualquer tipo de opressão.

A crítica que advém da epistemologia feminista negra é a seguinte: de novo, temos uma mulher branca, dentro do estereótipo de beleza socialmente aceita, como centro da luta feminista. Eu, como mulher negra, não consigo me sentir representada (apesar de estar extremamente feliz com o protagonismo da mulher poderosa), pois durante muito tempo a luta de reconhecimento das mulheres negras foi deixada para trás nesse processo de emancipação do sexo feminino.

O filme retrata algumas opressões em que a ex-agente das forças armadas americana, Carol Danvers (Brie Larson), sofreu durante sua passagem pela corporação, e algumas opressões sofridas durante a sua infância/adolescência, todas em decorrência da sua condição de mulher. Ocorre que o filme também retrata, ainda que brevemente, a história da sua colega negra de corporação, a Maria Rambeau (Lashana Lynch), que durante todo o filme é posta como coadjuvante da história. Por que não retratar também as opressões sofridas pela mulher negra? É evidente que não era essa a intenção do filme: abordar questões tão profundas sobre feminismos. Porém, como mulher negra, é difícil aceitar, sem qualquer crítica, tamanha admiração de mulheres brancas feministas pelo filme.

É reconhecido pelos movimentos feministas que o filme rompeu uma gigante barreira enfrentada pelos efeitos do sistema patriarcal devido ao protagonismo da mulher branca, contudo, reproduziu aquilo que as mulheres negras estão cansadas de suportar. Durante toda a história do feminismo branco, principalmente em suas 1ª, 2ª e 3ª ondas, que trataram da emancipação da mulher branca, as mulheres negras sempre foram deixadas de lado. O que foi reproduzido pelo filme. A mulher negra se tornou coadjuvante, e ficou somente como a amiga da super-heroína, que a apoiava durante todo o seu processo de emancipação dentro de um mundo predominantemente masculino, branco e heteronormativo.

A crítica também é no sentido da exacerbada comemoração de se ter uma protagonista mulher branca, sendo que este lugar é majoritariamente composto por homens brancos, heterossexuais e cisgêneros. Uma mulher branca ocupando uma posição de poder dentre tantas outras que são subalternizadas, inclusive a mulher negra, personagem no filme.

A crítica aqui exposta é trazida para demonstrar o quanto nós, mulheres negras, pobres, e também a comunidade LGBTQI+, precisamos lutar para ter nossos espaços, inclusive como super-heroínas (não vou entrar na crítica de reprodução de bem x mal, deixa para uma próxima). Nós não vamos mais ser coniventes com as migalhas do feminismo branco que durante muito tempo se considerou como universal. Já dizia Djamila Ribeiro: a famosa universalidade que exclui. A nossa luta é pela emancipação de todas as mulheres, negras, pobres, gordas, LGBTs, e etc… A nossa luta é pelo rompimento da estrutura do sistema cisheteropatriarcal e capitalista.

Patrícia Silveira da Silva é Graduada em Direito pela Faculdade Meridional (IMED). Integrante dos Grupos de Pesquisa “Poder, Controle e Dano social” e “Criminologia, Violência e Sustentabilidade Social”. Advogada. E-mail: [email protected]

 

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