Vamos falar de depressão?
Quarta-feira, 27 de março de 2019

Vamos falar de depressão?

“Nós religiosxs, pastores e pastoras, líderes, membros das igrejas, deveríamos articular mais as palavras salvação e sanidade. Pois, em muitos púlpitos, há pregações e pregadorxs insanos que tem adoecido as pessoas com discursos sobre salvação”

Aviso de Gatilho (Trigger Warning) para quem tem sensibilidade ao tema: depressão e suicídio*

Por Simony dos Anjos

Recentemente, os noticiários publicaram ao menos três suicídios de pastores evangélicos. Uns dos fatores que ajudam a explicar o porque desses líderes religiosos não terem recorrido à ajuda que necessitavam é o fato de muitas igrejas espiritualizarem o sofrimento mental – o que se trata de um desserviço, uma vez que seus fiéis ficam sem a devida assistência médica e psicológica necessária.

Nessa onda obscurantista que ronda o país, a Coluna Féministas teme que a as questões mentais não sejam tratadas com a seriedade que merecem. Que o Ministério da Saúde substitua terapia por orações, por exemplo. Nesse (des)governo, tudo é possível! Desse modo, cedemos espaço à Andreia Fernandes, pastora e fonoaudióloga, que compartilha conosco a sua experiência com a depressão. Assim, levantamos o debate da saúde mental na religião:

 

Sobre depressão, dor e ministério pastoral

Tenho um pouco de receio de escrever sobre depressão, pois errar a dose é muito fácil. Tudo o que uma pessoa deprimida não precisa é alguém cobrando que ela melhore o mais rápido possível. Seguramente se ela soubesse como melhorar, o faria rapidamente. Afinal, é a mais prejudicada. Não dá para julgar esta DOENÇA como ataque de frescura, egoísmo etc. Isso é cruel.

Ah! Não precisa também de frágeis mensagens de autoajuda, que se multiplicam na colcha de coaching e coisas do gênero que têm (des)coberto nosso cotidiano com palavras em inglês e receitas infalíveis, importadas de países considerados de primeiro mundo.

É muito difícil escrever sobre essa doença, pois quando a gente o faz é óbvio que se deseja que as pessoas deprimidas retomem o ânimo, a esperança, a coragem de acreditar na possibilidade de superar. Se deseja também que as pessoas mudem suas percepções sobre o tema.

Então como escrever? Não sei. O que sei é que passei o dia pensando que a alegria pode inundar o nosso coração, mesmo que ele já esteja pós-doutorado em dor. Depressão dói de um jeito que tem hora que parece não existir remédio que cure. Isso desespera. Você pode tomar algo para esquecê-la, mas ela continua doendo. Coisa difícil essa.

Num mundo cada vez mais farmacológico, onde há de vir sempre um Advil para nos causar alívio imediato, falta aquele que tira a dor da depressão. É uma dor tão física e tão abstrata ao mesmo tempo. É uma dor que sufoca, que entorna o caldo, derrete a paciência, que tira a nossa voz ao mesmo tempo que nos faz desejar gritar o mais alto possível. No entanto, não se omitir, não omitir, mas falar sobre isso, torna-se imprescindível para o processo de cura.

Esse é mais um texto de alguém que tenta ressignificar essa doença em sua trajetória. Além disso, é também o texto de uma pastora, uma religiosa, alguém cujos estereótipos e um discurso religioso opressivo podem tentar negar o direito de existir como mais uma paciente psiquiátrica. Não mais eu! Foi difícil largar o manto do discurso religioso que invisibiliza os transtornos psiquiátricos em pessoas religiosas. Usar esse manto hoje me oprimiria mais do que talvez já tenha me protegido um dia.

A depressão veio bem antes do ministério pastoral na minha vida. Não sou uma pastora com depressão, mas uma pessoa com depressão que se tornou pastora. Isso me ajudou a trazer outros significados para a experiência religiosa e para a própria depressão. Se essa doença nos para em muitos momentos, ela não precisa imobilizar nossos sonhos, a espiritualidade, a satisfação pessoal. Assim, tudo isso vai encontrando brechas por onde fazer o melhor da vida florescer.

Por outro lado, o ministério pastoral também pode ganhar outros contornos, cavar espaços e descobrir possibilidades para coexistir de uma maneira diferente com essa doença. Embora a ilusão da infalibilidade e o super heroísmo sejam sedutores e presentes na vida de pastoras, pastores e outras lideranças religiosas, não há lugar para eles quando a depressão toma conta. O fato de não conseguir levantar da cama para visitar alguém ou para pregar, não é etéreo, é real. Há bônus e ônus em tudo isso, mas lidar com essa realidade tem sido possibilidade para sentir a graça, o cuidado, o aparo de Deus e das pessoas amigas.

Junto a essa doença e não sei se por ela, veio na minha trajetória de fé a apuração do olhar para as minorias políticas, o engajamento em favor da vida e a busca por uma espiritualidade mais saudável, pois de insana já basta a vida.

Nós religiosxs, pastores e pastoras, líderes, membros das igrejas, deveríamos articular mais as palavras salvação e sanidade. Pois, em muitos púlpitos, há pregações e pregadorxs insanos que tem adoecido as pessoas com discursos sobre salvação.  Há que ter prudência e simplicidade e sobretudo, um coração misericordioso consigo mesmo e com as pessoas.

Há momentos na depressão que não se sabe como essa dor dilacerante chegou, e não se tem ideia do que fazer para que ela vá embora. Sinto-me assim muitas vezes, mas também sinto aqui a necessidade de partilhar que mesmo diante do desespero, é possível que a situação mude para melhor. A dor se vai, a gente volta. Ela cai, a gente se levanta. Ela se desfaz, a gente se refaz. Nem sempre é pra sempre, mas a gente consegue. Como? Não tem receita, mas tem remédio.

Sim, remédios. Enganou-se quem pensou que como pastora, eu não defenderia o uso dos medicamentos. Eles são imprescindíveis para uma vida mais equilibrada. Precisam ser tomados conforme orientação médica e retirados também sob orientação profissional. Antidepressivos não têm efeito imediato, às vezes escangalham umas coisas para consertar outras, mas eles são muito eficientes.

Se a depressão muitas vezes me limita no meu exercício pastoral, o meu ministério não pode ser um limitador no cuidado comigo mesma e na maneira como dialogo com pessoas portadores desse e de outros transtornos psiquiátricos.

Psiquiatra e psicóloga(o) não são bichos-papões. São bem menos perigosos do que o monstro que cresce dentro da gente porque se alimenta do medo do que as pessoas vão falar; da vergonha de tomar remédio; da sensação de que fracassou e precisou pedir ajuda. Psiquiatras e psicólogas(os) nos ajudam a deixar de alimentar o tal monstro para alimentarmos a nossa própria vida. Isso é libertador!

Amigas e amigos verdadeiros também são necessários porque nos ajudam a ter contato com o mundo real, a melhorar a visão do mundo, da vida e de nós mesmas(os). Amigas e amigos verdadeiros sabem quem você é. Sabem que a depressão não te define, que o ministério pastoral não te define, que sua profissão não te define, que você é muito mais que essa doença e tudo isso.

Deus, creio eu, independente da forma como você o interpreta, Ele sempre se expressa de maneira muito especial nesse tempo. Essa é minha experiência. Especialmente quando estou esgotada, sempre encontro abrigo na oração, esta muito mais composta de lágrimas do que de palavras. O texto bíblico também me anima muito. A natureza, especialmente aves, borboletas, orquídeas e margaridas, são sinais do carinho divino para mim. Eu sigo, mais um monte de gente segue, buscando maneiras mais afetuosas de se viver.

O que desejo expressar é que a vida me ensinou que é nessa mistura de ajuda profissional, medicação, amizades verdadeiras e espiritualidade esperançada, que a gente encontra um caminho, uma brecha, uma luz, que a gente alimenta a esperança e encontra, pouco a pouco, forças para superar a dor.

Hoje estou sem dor nenhuma, há alegria no meu coração (Guardar momentos alegres são sempre fundamentais para superar os doloridos). É preciso não esquecer que a depressão pode até encerrar a gente na dor, mas não encerra o amor, nem aquele veio precioso de vida que mostra pra gente que podemos e devemos dela sair.

Coragem não é ser forte o tempo todo, mas é continuar acreditando que a fraqueza não é grande o suficiente que não se possa superar. Sigo eu tentando não desanimar, vivendo um dia de cada vez.

É preciso ter cuidado com as expectativas que colocamos nas pessoas, nos projetos e em nós mesmos. Cuidado com a maneira como enxergamos Deus e estabelecemos nossa relação com Ele.

É preciso priorizar tempo e oportunidades de descansar, sorrir, chorar, dançar, cantar, amar e se libertar. E especialmente, pra quem assume lideranças, seja lá do que for, fica uma dica: a gente precisa é descer do salto, do pedestal, ressignificar a forma como lidamos e nos servimos do poder. É bom se deixar cuidar por Deus e pelas pessoas que Ele, cuidadosamente, coloca em nossas vidas.

Se você quiser contribuir nesse debate entre espiritualidade e depressão, teremos o prazer de publicar seu relato! Entre em contato com o [email protected]

 

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*A importância desse aviso é prevenir e avisar que os assuntos abordados neste artigo podem desencadear processos emocionais complexos, dependendo do estado psico-emocional de quem estiver lendo. Por favor, evite expor-se à conteúdos que podem agravar quadros de depressão ou de lesões autoprovocadas intencionalmente. Lembre-se, caso apresente estes sintomas você sempre pode buscar ajuda do CVV – Centro de Valorização da Vida pelo telefone 188 ou pelo sitecvv.org.br

Quarta-feira, 27 de março de 2019
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