A importância do feminismo na desconstrução da estrutura de poder patriarcal e sexista
Quinta-feira, 28 de março de 2019

A importância do feminismo na desconstrução da estrutura de poder patriarcal e sexista

Por Bruno Antonio Barros Santos*

Nietzsche, referindo-se ao contexto alemão e criticando o caráter devorador da política, dizia que “o poder embrutece”[1]. É perceptível, assim, que o poder seduz e anestesia a reflexão crítica, impedindo, muitas vezes, um caminhar que transcenda a projeção de um ego inflado. Por que vários homens sentem tanto medo do feminismo? É uma pergunta que me intriga bastante e que, para ela, não há uma resposta simples. Seria o medo de perder força, de dividir o poder ou de passar a ser coadjuvante?

O medo de perder privilégios assusta e, por isso, há uma engenharia discursiva – em grande medida, falaciosa – que reage com virulência a essa tentativa de desconstrução da engrenagem que estrutura o poder patriarcal e sexista. Desse modo, existe toda uma argumentação de pânico para distorcer e deturpar o que significa o feminismo. Em parte do imaginário social, há um espantalho criado de que feministas são feias, “mal-amadas”, sujas, andam peladas, vestem roupas curtas, são promíscuas, querem ser superiores aos homens etc. Além disso, o feminismo atentaria contra a ordem “natural” de Deus, que teria determinado papéis diferentes para o homem e a mulher.

Ledo engano. Feminismo tem a ver com liberdade, respeito e expressão da subjetividade das mulheres que não aceitam sistemas de hierarquização e dominação. Além do que o feminismo não é um bloco monolítico ou homogêneo, pois assume diversas facetas e traz um universo complexo de análise. A título de exemplos, há o feminismo negro, o feminismo interseccional, o feminismo indígena, o feminismo radical, o feminismo liberal, o feminismo marxista, o feminismo anarquista (anarcofeminismo), o transfeminismo, entre outras vertentes do feminismo. Mas, em geral, o feminismo traduz um movimento de busca de igualdade entre mulheres e homens, no sentido de quebrar a espinha dorsal do sexismo e do patriarcado, que estão naturalizados e enraizados no corpo social, tendo como norte de análise a necessária intersecção entre gênero, raça e classe, além da visibilidade da mulher trans.

E, curiosamente, muitas pessoas ficariam surpresas em saber que existe “teologia feminista”. Ivone Gebara, freira feminista de 74 anos de idade, faz referência ao que se chama de “hermenêutica feminista da Bíblia”, dizendo que é “uma leitura e interpretação dos textos partindo das mulheres, interpretação que leva em conta não apenas nossos contextos, mas as perguntas atuais que nos habitam. Com elas, o texto bíblico deixa de ser um absoluto revelado por Deus, mas a expressão de um modo de ser cultural, escrito, interpretado, situado e datado, que apesar de seus limites pode ainda inspirar comportamentos e reafirmar tradições libertárias”[2].

Dessa maneira, o feminismo é multifacetado, não se podendo enxergar as mulheres a partir de uma pretensa categoria uniformizadora e universalizante. Não é a mulher, são as mulheres, no plural, traduzidas na belíssima regravação feminista da música “Mulheres” (Martinho da Vila), nas vozes criativas e empoderadas de Doralyce Gonzaga e Silvia Duffrayer: “Nós somos Mulheres de todas as cores / De várias idades, de muitos amores […] Sou mulher, sou dona do meu corpo e da minha vontade / Fui eu que descobri Poder e Liberdade / Sou tudo que um dia eu sonhei pra mim”.

Além disso, Bell Hooks, escritora estadunidense, adverte que, para compreender o feminismo, é preciso compreender o “sexismo institucionalizado sistêmico”, entendendo que ações sexistas podem ser praticadas por homens e mulheres; daí a definição da autora no sentido de o feminismo não ter os homens como inimigos ou ser anti-homem. Hooks diz que o feminismo é “antissexismo”, ou seja, “é um movimento para acabar com sexismo, exploração sexista e opressão”, e, nessa perspectiva, a estudiosa chama a atenção, também, para a exploração de mulheres negras e pobres por mulheres brancas, destacando que o feminismo, fundamentalmente, combate esse tipo de exploração e opressão, a partir de uma perspectiva política que discute gênero, raça e classe, além de desconstruir a imagem de que somente mulheres brancas e de classe média são porta-vozes do movimento feminista[3].

Por outro lado, é óbvio que existem feministas – ou, pejorativamente, chamadas de “femistas” – que se excedem, que são intolerantes (sobretudo com a religião alheia) e acabam dando munição à deturpação do movimento, mas essas incongruências são inerentes a qualquer movimento fundamentalmente heterogêneo. Sempre haverá conflitos e excessos dentro de qualquer agrupamento humano, do simples ao institucional.

Então, é preciso ter cuidado no emprego de falácias totalizadoras, isto é, quando se parametriza o todo, generalizando e caricaturando algo ou alguém a partir de algumas ações que, pela insuficiente análise factual, podem não trazer uma radiografia mais precisa da realidade. E isso serve para qualquer lado do espectro ideológico. Todo eleitor de Bolsonaro é fascista? Não. Toda empresa no país é social e ambientalmente irresponsável, a exemplo da Vale e de seus crimes ambientais em Mariana e Brumadinho? Não. Todo policial é torturador? Não. Todo manifestante, de viés liberal-conservador, que vai protestar na Avenida Paulista, é a favor da intervenção militar e do fim do STF? Não. Toda feminista é “femista”? Não.

Assim sendo, não é porque, por exemplo, ocorreu um ato de intolerância numa manifestação feminista que, automaticamente, o ato irá se transmutar em um fato universalizante do próprio movimento. Dessa forma, é necessário desconfiar de rompantes discursivos que tentam caricaturar, de forma generalizada e negativa, até eventos que estão sedimentados na nossa cultura e fazem parte de nossa história, a exemplo do Carnaval. É a sedutora lógica do conhecido “pânico moral”. O que está por trás da espetacularização moralista que imputa espantalhos? É o poder de criar, sustentar e legitimar narrativas de conveniência discursiva que glorificam o “eu/nós” e demonizam o “ele/outro”, numa lógica simbiótica de purificação e destruição.

No Carnaval deste ano, Bolsonaro, em seu Twitter, compartilhou um vídeo de uma pessoa mexendo no ânus e urinando na cabeça de outra pessoa, insinuando que a cena era comum no Carnaval. Além do conteúdo do vídeo ser impróprio e tal conduta de postar o vídeo não ser condizente com a postura de um presidente da República, gerando repercussão e crítica em vários países do mundo, o que se tentou foi desconsiderar toda a alegria, a diversão, a geração de renda e o turismo que o Carnaval proporciona, além de imputá-lo a pecha totalizadora de festa “imoral”. Antes da referida postagem, Bolsonaro tinha sido criticado em vários blocos de Carnaval. Coincidência? Não. E qual foi a estratégia do poder nessa situação? Trabalhar o jogo de imagens, manipular e distorcer fatos, demonizando a contrariedade, a fim de reafirmar o próprio poder.

Portanto, a quem interessa transformar e demonizar o feminismo em uma caricatura do mal? São os instrumentos de dominação, resistindo ao avanço do feminismo, pois o poder não tolera compartilhamento, sendo o patriarcado toda essa estrutura de poder naturalizado e institucionalizado. Hoje em dia, não deve ser fácil para um “macho”– casado, mas com várias amantes e, muitas vezes, imbuído da velha hipocrisia moralista no discurso – pensar que a esposa, empoderada, não se submeta a isso e se divorcie ou, então, devolva na mesma moeda o comportamento do marido.

E, no meio de tantos argumentos em formato de espantalho, é complicado ouvir pessoas dizendo que homem e mulher são iguais e, por isso, não faria sentido o uso da palavra feminicídio, desconsiderando completamente que mulheres são assassinadas pelo simples fato de serem mulheres; já homens não são assassinados pelo simples fato de serem homens. A tentativa de diluir essa desigualdade estrutural e factual forja uma percepção falsa do real, além de ter o propósito de não sensibilizar as pessoas para um problema concreto. E é nessa simulação de igualdade de homens e mulheres que existe, também, um negacionismo que alimenta o mascaramento da desigualdade. Negam-se, de forma acintosa, milhares de fatos, dados e estatísticas que comprovam, ainda hoje, a forte desigualdade de gênero e a pesada cultura do estupro.

Não esqueçamos que, historicamente, em muitos países que avançaram bastante na discussão das questões de gênero, mulheres não eram consideradas cidadãs; não podiam dispor livremente de um patrimônio; não tinham liberdade sexual e eram instrumentalizadas para fins de procriação; foram demonizadas como pecadoras, que desvirtuavam os homens; eram queimadas como “bruxas”; submetidas a casamentos arranjados e consideradas fracas, emocionalmente, e sem a racionalidade suficiente para a tomada de decisões; foram escravizadas e não podiam trabalhar em profissões de maior destaque; não votavam e não tinham o direito de serem eleitas para cargos políticos; não podiam ser titulares de uma simples conta bancária e não podiam dirigir; eram estupradas com o aval legal e não podiam se “divorciar” sem a autorização do homem; também eram proibidas de sair desacompanhadas, entre outras inúmeras amputações de direitos. E os efeitos dessa estrutura histórica de poder persistem de maneira expressiva até hoje, em pleno século XXI, sobretudo no Brasil. O feminismo, então, resgata essa memória histórica, política, social e cultural, problematizando os impactos disso atualmente.

Na minha experiência profissional, atuando como Defensor Público numa Vara de Família, tem algo que sempre me causou um certo incômodo e que representa, em muitos casos, o poder simbólico do patriarcado e do sexismo: nunca vi uma certidão de casamento em que o homem tivesse mudado o seu sobrenome ao casar, mas, o contrário, a mulher mudando o sobrenome para adicionar o do marido é uma prática   bastante comum. Já ouvi inúmeros relatos de mulheres que, a contragosto, fizeram isso apenas para satisfazer essa pressão social. É uma simbologia de poder que, muitas vezes, subtrai a biografia de origem da mulher para projetá-la enquanto extensão da família do marido.

Daí a importância do feminismo, no sentido de fortalecer o empoderamento das mulheres e dinamitar o pilar estrutural do patriarcado e do sexismo. Isso implica que qualquer visão determinista, que moldure a mulher, apequena a própria condição de existência da mulher. A mulher não nasceu para ser, obrigatoriamente, bela, recatada e do lar. Nem nasceu para ser, necessariamente, mãe (ter filhos) e esposa. A mulher não nasceu para ser moldada como uma massinha por um rolo compressor e normatizador. A mulher nasceu para ser o que ela quiser. Não existe um lugar fixo e apriorístico em relação ao qual a mulher está fadada a existir. A mulher pode ser rainha do lar, pode ser empresária e optar por não ter afazeres domésticos; pode gostar ou não de ser chamada de princesa; pode gostar da cor rosa, azul ou de qualquer outra cor. Enfim, pode ser o que a fizer feliz.

Bell Hooks diz que “feministas são formadas, não nascem feministas. Uma pessoa não se torna defensora de políticas feministas simplesmente por ter o privilégio de ter nascido do sexo feminino”. É uma posição política que envolve a liberdade de escolher e aderir, criando um amplo espaço de consciência. Nesse sentido, Hooks destaca muito a importância de a mulher primeiro confrontar seu “sexismo internalizado como processo para se tornar feminista”, pois a história demonstra que, sem esse confronto, “mulheres que levantavam a bandeira feminista constantemente traíam a causa nas interações com outras mulheres”; a exemplo das mulheres que usavam, de forma oportunista, uma “retórica de discriminação de gênero para mudar seu status econômico”[4].

E nós, homens, devemos ser companheiros nessa luta feminista. Nós fomos – e somos – enormemente beneficiados por essa estrutura sexista e patriarcal, mas precisamos ter o que Bell Hooks chama de “conscientização feminista para homens”[5]. É necessário sair desse lugar natural de privilégio, desconstruindo uma “masculinidade tóxica”, que tanto nos aprisiona ao também nos modelar como protótipos de caçadores, dominadores, provedores, destituídos de emoções (homem não chora) e vocacionados ao enfrentamento bélico.

Chimamanda Ngozie Adichie, brilhante escritora nigeriana, critica a construção dessa masculinidade estreita que é formatada já na criação dos filhos homens, dizendo que “Abafamos a humanidade que existe nos meninos, enclausurando-os numa jaula pequena e resistente. Ensinamos que eles não podem ter medo, não podem ser fracos ou se mostrar vulneráveis, precisam esconder quem realmente são — porque eles têm que ser, como se diz na Nigéria, homens duros”. A autora nigeriana lembra também que, quando um garoto e uma garota saem juntos, os garotos são ensinados a provar sua masculinidade, quando se projeta a expectativa de que, necessariamente, paguem a conta, vinculando masculinidade ao dinheiro[6].

Ora, tudo isso gera na cabeça de nós, homens, uma colonização de nossas vidas por esse imaginário de estarmos sempre tentados a diminuir a autonomia feminina, como se fôssemos tutores da vontade da mulher. A luta contra o machismo deve ser constante e alicerçada em sucessivas desconstruções internas, pois reproduzimos o machismo, dentro de nós mesmos, de forma naturalizada. E essa mudança não ocorre abruptamente e nem se insere na lógica simplista de um interruptor liga/desliga. Nesse sentido, não devemos aceitar que imperativos, advindos da “biologização do social” (supostas vantagens biológicas dos homens), continuem legitimando a dominação patriarcal e sexista, além de alimentarem a desigualdade e a violência de gênero.

Por isso, no âmbito da violência doméstica contra a mulher, não são suficientes apenas a criminalização e a respectiva prisão. O homem agressor – através de grupos multidisciplinares de profissionais capacitados, terapias e rodas de diálogo – tem que confrontar o seu “sexismo interno” e toda a estrutura patriarcal que faz com que considere a mulher sua posse e um objeto de satisfação dos desejos masculinos que, se não atendidos, resultam na violência como forma de “punição” e “correção”. Sem essa intervenção profissional – que possibilite uma mudança de mentalidade e uma desconstrução cultural –, a violência tende a se repetir e o sistema sexista, que gera a violência, não é quebrado.

Assim, o feminismo vem na perspectiva de deixar a mulher ser mulher, com toda a sua liberdade de ser e existir, de modo a não se submeter a uma ordem dada e posta que sufoca o exercício pleno de sua subjetividade. Mulher é sujeito, não é coisa e nem objeto. O feminismo soterra a objetificação da mulher. Feminismo é liberdade. É libertação, tanto para a mulher como para o homem. Então, em vez de o poder embrutecer, vamos usar o poder para transcender. Portanto, “inspiradxs” em Chimamanda Ngozie Adichie, mas sendo necessário substituir o “todos” do título do seu livro pelo “todxs”, sejamos todxs feministas ou, se o homem não puder ser feminista, que tenha, no mínimo, conscientização feminista e seja pró-feminismo.

 

*O protagonismo de escrever sobre feminismo sempre vai ser das mulheres. Por isso, antes e depois de escrever esse texto, falei com algumas amigas feministas, além de familiares feministas (mãe e esposa são feministas), e elas acharam interessante um homem – em processo constante de desconstrução do seu ‘sexismo interno’ – apoiar a luta feminista, de modo a encorajar, também, outros homens a pensarem o feminismo a partir de uma perspectiva não caricata.

Sou leitor de Djamila Ribeiro, de modo que considero extremamente importante o lugar de fala. Assim, não esquecendo disso, tentei seguir seus ensinamentos em relação à discussão da masculinidade tóxica, trabalhando, também, a deturpação que se faz do feminismo, abordando o contexto histórico das mulheres e, sobretudo, colocando-me como homem em abertura contínua contra as armadilhas do machismo e da sociedade patriarcal, além de citar uma experiência profissional.

Por fim, é um texto não para pregar para convertidos, como a Djamila Ribeiro sempre diz em relação à necessidade de furar a bolha do nosso espectro ideológico. Fiz o texto pensando em ter, também, leitores homens, que se permitem mergulhar num processo de desconstrução interna, a partir da importância do feminismo. Inclusive, o livro de Chimamanda que citei no texto traduz essa perspectiva de todas e todos mergulhados no feminismo, desenhando, assim, a construção de um mundo mais justo e menos desigual.

 

Bruno Antonio Barros Santos é defensor Público no Estado do Maranhão.

 

Leia mais:


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

________________
[1] NIETZSCHE, Friedrich. E-book Crepúsculo dos ídolos: a filosofia a golpes de martelo. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017. Kindle Version. Paginação irregular.
[2] GEBARA, Ivone. E-book O que é teologia feminista? São Paulo: Editora Brasiliense, 2017. Kindle Version. Paginação irregular.
[3] HOOKS, Bell. E-book O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. 1ª ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018. Kindle Version. Paginação irregular.
[4] Ibid., paginação irregular.
[5] Ibid., paginação irregular.
[6] ADICHIE, Chimamanda Ngozi. E-book Sejamos todos feministas. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. Kindle Version. Paginação irregular.

Quinta-feira, 28 de março de 2019
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend