Póstumo
Quinta-feira, 28 de março de 2019

Póstumo

A fragilidade de um grito de guerra

Imagem: cartaz de Marielle Franco. Fonte: resilience.org

Por Tassiana Frank 

 

O famoso sentimento de “dar valor somente ao que perdeu ” associado à uma “memória de peixe” descrevem o brasileiro e fazem jus ao jargão popular. Acostumados a “ter esperança” e a “crer nas mudanças” pelo advento divino, pulamos do avião esperando um salto magnifico sem verificarmos o estado do pára-quedas. Muitos diriam hoje, “saudades, querida!”

A romantização desse passado sem memória é a comprovação de que seguimos valorizando o póstumo. O póstumo pode ser re-escrito, re-inventado, recriado, comercializado; mas nunca esquecido. Na tentativa de fazer oposição ao desgoverno, estamos movendo a rede de intrigas e o fanatismo que elegeu o atual presidente. Ciro Gomes disse que “elegemos um adolescente twitteiro”; elucidativo diante do cenário atual.

Uma vez que nós, antigoverno vigente, antibolsonaroS, declaramos guerra ao desgoverno como adolescentes de 13 anos, estamos corroborando com o mesmo desgoverno. Através das redes sociais, tentamos desmentir as fake news, tentamos mostrar ao fiel eleitorado dos BolsonaroS que a ficha deles é podre enquanto o Brasil está sendo vendido a preço de banana e ‘desgovernado’ por um bando de incapazes. Além das ‘coincidências’ (roubo, corrupção, assassinatos, de serem imorais, fanáticos e etc.), a constatação: incapazes de governar uma nação. Se canalizássemos essa força na militância por um governo de verdade, ao invés de rebatermos seus fiéis eleitores fanáticos que compactuam com as sandices do ‘desgoverno’ atual, talvez os desdobramentos fossem outros. “Eu te avisei” não é sinônimo de impeachment e discutir com fanático tá mais pra “água mole em pedra dura”  do que “tanto bate até que fura”.

“Colocamos o carro na frente dos bois” achando que “quem vive de passado é museu” e polarizamos as eleições presidenciais. Espalhando o ódio e fanatismo, através de uma rede de mentiras virtual e uma “contestável” tentativa de assassinato, o atual presidente conseguiu vencer as eleições. E para garantir sua cadeira e sustentar a farsa, as fake news continuam sendo disseminadas e militantes de oposição ao governo sendo exilados ou mortos: nosso “aproach” com seus seguidores, precisa ser diferente.

No que viria a ser o último discurso de Marielle Franco na Câmara dos Vereadores, a vereadora falava sobre a intervenção militar nas favelas, e relatava sua vivência durante a intervenção, na favela da Maré. Não conheci Marielle Francisco Da Silva, mas compartilho do sentimento descrito por Eliane Brum “Quatro tiros tinham arrebentado a cabeça bonita de Marielle e também aquele sorriso que fazia com que mesmo eu, que nunca a conheci, tivesse vontade de rir com ela. Ainda hoje tenho quando vejo a sua fotografia. E rio com Marielle. E então lembro o horror da destruição literal do seu sorriso”.  Um ano depois, ainda estamos tentando condenar os responsáveis pelo assassinato de Marielle e Anderson.

A dissertação de Mestrado de Marielle UPP: A redução da favela a 3 letras foi publicada pela N-1 Editora – a realidade dos que são oprimidos pelos que deveriam lhes proteger, um olhar de dentro. Re-pensar a atuação da polícia civil e militar é raso, precisamos re-pensar a criação da polícia e o ser social. Quando um país autodeclara guerra à população e cria Capitões Nascimento que matam em piloto automático, deveríamos “resetar o game” ao invés de fazer de crianças, algoz.

A criminalização mantém o tráfico. O policial, vulgo soldado, mata civil e traficante, que mata policial e civil num looping infinito, caçando sobrevivência. E enquanto todo mundo se mata, a máquina mortífera segue intocável. No dia 14 de fevereiro de 2018, a execução de Marielle Franco, representou a morte da esperança para os excluídos do CIStema. A Mulher Semente, mãe, negra, favelada e lésbica, personificava o excedente social reunindo em si, todos os pré-requisitos que caraterizam um marginal – aquele que está a margem da soCISedade.

Ouvi durante uma fala da antropóloga Fatima Lima (UFRJ, CEFET-RJ) em uma homenagem à Marielle, a expressão “Mulher Multidão”. Mesmo sem conhecer a vereadora, não havia ouvido nada que lhe representasse tão bem: ela personificava a minoria, mas representava a Multidão. E vendo as múltiplas facetas atribuídas à expressão Semente, ela me pareceu trilhar um caminho divergente à causa, ‘adolescente twitteiro’. Porque nosso grito de guerra: ‘Marielle Vive’ também virou arma para “bate boca” com fanáticos apoiadores do ‘desgoverno’ vigente, porque Marielle Franco virou boneca, está virando filme. Essas atribuições ao Mulher Semente, lembram-me parte do texto de Conceição Evaristo e Ludmilla Lis “ ‘Seu’ Antônio segue com seu semblante um tanto vazio, e Marinete, sua mamãe, anda por entre nós vagando entre gritos de « Justiça! » e orações sem fim recebendo uma série de prêmios póstumos“.

E acompanhando os desdobramentos póstumos, me pergunto: onde estávamos para protegê-la em vida? Carregamos, todos, o corpo. E em parte, esses desdobramentos e ‘prêmios póstumos’ colocam seu legado, de proteção à Multidão, e à militância pela qual dedicou sua vida, em uma posição frágil. Contrariando a fragilidade, se o país e o mundo continuam de luto, é porque a população não é majoritariamente composta por homens, brancos, heterossexuais e de classe média ou ricos. É porque existe identificação com a luta da Mulher Multidão e revolta contra a impunidade e a desesperança instaurada. Temos então, um legado a seguir: fazer com que a Semente da Multidão floresça em luta!

Tassiana Frank é formada em Letras e mestranda pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS) em Paris, onde reside

 

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