Qual a centralidade do trabalho no capitalismo contemporâneo?
Quinta-feira, 28 de março de 2019

Qual a centralidade do trabalho no capitalismo contemporâneo?

As ameaças tecnológicas e as tendências ideológicas interferem diretamente nas oportunidades de trabalho

Arte: Daniel Caseiro.

Por Roberta de Moura Ertel

 

Ao nos questionarmos qual o lugar que o trabalho ocupa na sociedade, a primeira resposta que vem à mente é que ele rege nossas relações, tanto pessoais, quanto materiais. O sucesso está intrinsicamente relacionado com a profissão, com o salário e com o status do cargo que se ocupa.

Todavia, primeiramente é necessário pensarmos na evolução histórica do trabalho: começamos com o trabalho escravo, passamos pelo período do feudalismo – no qual havia submissão em troca de proteção – e, também, durante o período da idade média, havia as corporações de ofício. Já na era da industrialização, a mão de obra humana passou por uma profunda transformação: muitos trabalhos exercidos por homens e mulheres foram substituídos por máquinas, havendo demissão em massa e necessidade de se reinventar.

Na verdade, esse período de industrialização até hoje não está superado: enfrentamos a primeira, a segunda e a terceira revolução industrial, sendo que estamos adentrando na quarta. E o que isto significa? Que a tecnologia anda ao lado, quer dizer, anda à frente. Todos os dias temos novas “ameaças”, se assim encaradas, ao trabalho humano: novas tecnologias, cada vez mais surpreendentes, vêm para por em risco não somente trabalhos técnicos, mas também trabalhos intelectuais.

Além de competirmos com colegas de profissão para buscarmos destaque no mercado de trabalho, a tecnologia criou uma competitividade distinta: a ameaça de extinção, isto é, de desnecessidade de certos cargos e profissões. Cada vez há maior automatização! E isso reflete diretamente nas nossas relações sociais.

Eu diria mais: reflete diretamente no planejamento de carreira. Serei útil e insubstituível dentro dos próximos dez ou vinte anos?

Daí também a importância de se pensar na relação do trabalho com o capital. Questões políticas e ideológicas interferem muito nos direitos e na evolução e proteção destes: por que investir no social se posso investir em capitais? Isto é, há uma tendência mundial de fortalecimento do neoliberalismo, sendo objetivo dos Governos (e também de parte da população), que o Estado intervenha cada vez menos na economia, e consequentemente, nas relações, o que gera uma esfera desprotegida de abusos da esfera privada. Quanto mais se afasta o Estado, mais aumenta o risco de violações à saúde do trabalhador: quem vai garantir os direitos mínimos?

Neste mesmo contexto, também há um crescimento de uma onda conservadora, principalmente no Brasil, com movimentos e ideologias religiosas ganhando força. Neste aspecto, a Igreja adota uma postura de hipervalorização do trabalho (do ato de servir), o que também influencia no papel que este desempenha na sociedade atual. Lembremos alguns dogmas: “o trabalho dignifica e enobrece o homem”, “o trabalho liberta”.

Assim, ao se ver o trabalho como algo que rege as relações sociais, e ao existir a tendência cada vez maior de serem enxugados os direitos sociais (trabalhistas e previdenciários), cada vez mais havendo estímulo ao consumo e ao aumento/exploração de capital da esfera privada, questiona-se: para onde vamos? Quanto irá valer minha mão de obra? De quem posso exigir melhorias de vida? Ao que devo me submeter?

Isso reflete diretamente na educação. Os jovens de hoje, no ensino básico, estão sendo educados para criarem, para lidarem com este cenário de crise? Ou apenas para reproduzirem trabalhos técnicos, manuais e aceitarem jornadas desgastantes para sobreviverem e consumirem?

As ameaças tecnológicas e as tendências ideológicas interferem diretamente nas oportunidades de trabalho. Portanto, é necessário ensinar a pensar fora da caixa, estimulando a criatividade. O ensino técnico (sem querer desmerecê-lo) serve mais para manter o cenário que hoje se tem, e não para sair dele. Aqui há um ponto chave: o conhecimento e a capacidade de pensar é que libertam.

Claro que, para uma mudança efetiva na educação, é necessário ter educadores que possuam liberdade para ensinar, que sejam bem remunerados, respeitados e estimulados. Difícil, pois a privatização com este caráter mercenário também já atingiu a educação, e a pública, por sua vez, sequer é priorizada pelo governo atual.

Em suma: o trabalho ocupa posição central na sociedade, pois o trabalho é um dos protagonistas da vida, que influencia diretamente na autoestima, na melhora de vida, na conquista de objetivos, na autorrealização. Todavia, em contraponto, tem-se percebido uma tendência perigosa de que o trabalho científico e intelectual vá perdendo espaço, havendo grande estímulo ao ensino técnico, pois este, em regra, não questiona, não transforma… apenas reproduz e aceita essa onda de valorização do setor privado (de forma desenfreada), e afastamento do Estado e dos direitos que poderíamos ter garantidos por ele.

E o que isso implica? Que a sociedade acaba por se tornar apenas uma mera reprodução do mercado capitalista, isto é, da renda e do consumo, e assim perpetua-se a naturalização da superexploração do capital e do trabalhador, consequentemente.

Tempos difíceis.

Roberta de Moura Ertel é mestranda em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul, RS (UNISC), linha de pesquisa em Constitucionalismo Contemporâneo. Bolsista PROSUC/CAPES, modalidade II. Analista de Coordenação Sênior no Centro de Ensino Integrado de Santa Cruz (CEISC), setor de pós-graduação. Advogada.

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