A ditadura existiu – e não há o que celebrar
Segunda-feira, 1 de abril de 2019

A ditadura existiu – e não há o que celebrar

Você deve ter visto, na semana passada, que o porta-voz do presidente disse que as Forças Armadas deveriam fazer as “devidas comemorações” pelo dia 31 de março de 1964. Na ocasião, o porta-voz informou que o presidente não considera o que houve em 1964 golpe militar.

Em entrevista dias depois, o presidente editou sua fala e disse que não se tratava de comemorar, mas de rememorar o que havia acontecido. Acontece, no entanto, que costumeiramente as falas de Bolsonaro têm sido revistas, editadas, por ele mesmo ou sua equipe. Os comunicados oficiais, mensagens em geral planejadas com antecedência e de maneira estratégica para evitar ruído, têm sido motivo de questionamento constante. Tantas edições e refacções mostram o despreparado do governo em se comunicar oficialmente com a população. Bolsonaro parece governar para as pessoas que o ovacionam no Twitter. Mas esse é já outro tema, voltemos para as palavras comemorar e rememorar.

Rememorar significa trazer à memória, relembrar. Comemorar, por sua vez, também pode significar relembrar, mas o uso corrente da palavra é justamente o de celebrar. Pode também significar realizar cerimônia de evocação de (um fato, um acontecimento, uma pessoa etc.). Aqui, a escolha do vocabulário para tratar deste evento histórico brasileiro é determinante e manifesta justamente a tentativa de mudança de um fato histórico nacional, o golpe militar de 1964.

Essa tentativa fica clara quando o porta voz diz que o presidente não considera o evento do golpe militar um golpe. A triste “curiosidade” aqui está em tentar modificar um fato histórico conhecido e validado por historiadores de diferentes vertentes e entendimentos – como se fosse possível alterar o curso da história a partir daquilo que é a opinião de um indivíduo – ou pequeno grupo de indivíduos – sobre a história.

Se você faz parte do grupo daqueles que quer chamar de revolução ou movimento o que aconteceu em 1964 e nos 21 anos que se seguiram, eu tenho uma informação a dar: não é assim que se faz a história. A única interpretação possível para o que aconteceu no 31 de março é esta: foi um golpe militar. Esse conhecimento não é passível de interpretação e reescrita, independente daquilo que diz o seu avô, a sua tia, o seu colega que gosta dos militares. Não são dois ou três relatos ao seu redor que fazem a história de um país. Ou seja, não se tratou de uma revolução, mas sim de um golpe, que levou o país a não ter eleições e a ver pessoas desaparecerem e morrerem nas mãos dos militares. Torturados, mortos, exilados: sem poder expressar livremente expressões contrárias ao regime. Não há interpretação possível que não seja a de que se tratou de um golpe que desmantelou a democracia.

Assumir isso é passo fundamental para avançarmos e evitarmos os erros do passado.

No entanto, quando Bolsonaro diz que se deve esquecer o que passou, mas ao mesmo tempo pede que se comemore a data, ele incorre em uma grande contradição: é se lembrando do que passou que se torna possível compreender que um golpe militar não se comemora, tampouco se rememora da forma como ele supõe. Discute-se, ao invés disso, como foi que se chegou até ali, naquele período de extrema violência (e não de ligeiros “probleminhas”, como quer fazer crer o presidente) para evitar que percorramos esse caminho uma outra vez.

Concentre suas energias em interpretar o presente, incluindo aqui, grandemente, as atitudes equivocadas do presidente que nos governa no momento. Ao revisitar o passado, não queira reescrever a história à sua maneira – busque nos livros, no relatório da Comissão da Verdade, nos relatos das vítimas da tortura e da perseguição política, o que representou a ditadura em termos não só da castração e do aniquilamento da liberdade de indivíduos, mas também da corrupção e das escolhas econômicas equivocadas do período.

Não tenha medo de reconhecer o que aconteceu em nossa história porque aquele que você hoje idolatra assim te sugere. É dessa maneira que ele manipula as nossas ideias, para nos confundir.

 

Jana Viscardi é doutora em Linguística pela UNICAMP, com passagem pela UniFreiburg, na Alemanha. Professora e palestrante, faz vídeos semanais sobre linguagem e comunicação (e otras cositas más) no canal do Youtube que leva seu nome.

 

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