A insustentável ansiedade feminina
Segunda-feira, 1 de abril de 2019

A insustentável ansiedade feminina

O que nós cristãs comumente sabemos sobre a ansiedade é baseado no versículo bíblico de Mateus 6:25, que diz: “[…] não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes?” – trecho incansavelmente estudado em nossas reuniões bíblicas. Assim, aprendemos que a ansiedade deve ser evitada e, se estamos ansiosas por algo, falhamos na entrega de alguma preocupação a Deus.

Quando então ouvimos algum relato ou diagnóstico médico de “ansiedade”, ou melhor, de “transtorno de ansiedade generalizada” (TAG), descobrimos que a “ansiedade”, além de uma emoção humana, é um transtorno psicológico; e que o paciente acometido por esse mal, pouco controle tem sobre ela. Este transtorno pode se caraterizar por sintomas como: constante tensão ou nervosismo, sensação de que algo ruim vai acontecer, problemas de concentração, descontrole sobre os pensamentos, problemas para dormir, irritabilidade, dor ou aperto no peito, sensação de fraqueza ou cansaço, náusea, entre outros.

A ansiedade chegou até mim como uma desconhecida indesejada que, mesmo sem intimidade, foi colocando o dedo no meu rosto e dizendo: “Chega! Este é o limite! Mudança já! Atente para você!”

De fato, ela estava certa. Eu tinha uma rotina insana de cuidados com casa, trabalho, filhos, estudo. Eu queria ser a melhor mãe, ter a casa em ordem, ser a profissional competente, membra atuante, mas na verdade, isso era humanamente impossível, já que eu não dispunha de rede de apoio, não tinha família por perto, não tinha um bom casamento, não tinha recursos financeiros para contratar ajuda, não tinha sequer tempo adequado para dormir, tomar banho ou desfrutar de algum lazer. A sensação de frustração, raiva e impotência era diária, assim como as doses de cortisol (hormônio do stress) liberadas em meu corpo.

Algo que me marcou profundamente foi o dia em que eu fui ministrar um curso em um importante órgão estadual. Eu havia me preparado por longo tempo, estava empenhada em fazer meu melhor, honrada em representar minha entidade, orgulhosa pela confiabilidade no meu trabalho; porém, neste dia, meu filho caçula amanheceu não muito bem e foi piorando com o decorrer da manhã. Ainda assim, fui acreditando que ficaria bem, insisti no plano original, porque afinal eu não tinha plano B e eu precisava estar lá por todos os motivos descritos acima.

Quando fui deixá-lo na escola, ele vomitou em mim, e na minha roupa e, naquela hora, meu mundo despencou! “O que estava acontecendo? O que há de errado comigo? Porque isto está acontecendo comigo?”. Eu tive que fazer na hora uma escolha dificílima entre assistir adequadamente meu filho e minha imagem e compromisso profissional (talvez pra você isso seja muito fácil e óbvio, mas não foi pra mim, nem sempre é pra todas!). Então liguei avisando que não poderia ir e, assim, o curso foi cancelado. Eu levei três dias pra me recuperar psicologicamente desse fato.

Fiquei quebrada! Não entendi nada! Só sabia que, apesar de esgotada, não estava sendo eficiente em absolutamente nada, nem como mãe, nem como profissional, nem comigo mesma.

Toda essa pressão advinda das situações da fase de vida, do cotidiano, as exigências externas e internas são alimentos para a ansiedade. A falta de rede de apoio, a falta de políticas públicas de atendimento a mulher e maternidade, aliado ao desconhecimento dos outros do que seja a maternidade solo, a educação que recebemos sobre ser sempre a melhor e exigirmo-nos ao máximo, a ideia de eficiência

profissional a todo custo, bem típicas do mundo corporativo capitalista, me parecem incompatíveis com a nossa humanidade e favorecem a nossa desconexão interna e externa. Essa realidade é vivida por muitas, talvez por isso pequisas apontem que as mulheres são mais sensíveis a doenças psicológicas, como depressão e ansiedade.

Pastores e líderes em geral devem estar sensíveis à condição patológica da ansiedade e reconhecê-la como sintoma das condições desfavoráveis em que vivemos. Da mesma forma como a depressão, espiritualizar a condição e taxá-la como pecado, além de denotar ignorância e despreparo, chega a ser cruel. Defendo que, quem lidera, aconselha, pastoreia, abra-se sem preconceitos ao estudo das variadas ciências: medicina, sociologia, psicologia, psiquiatra, filosofia, entre outras, para que não erre por desconhecimento.

O que esta ex-desconhecida indesejada, agora parceira, me ensinou foi a ser mais sensível à minha limitação e à do outro, estar mais atenta às minhas necessidades, aos meus limites, a meu corpo, minha mente, meu espírito. Essa conexão, pra nós mulheres, é muito cara e sensível. A ansiedade ensinou-me a necessidade de fazer mudanças, a coragem de tomar decisões ainda que duras, de saber me colocar, me ouvir, me valorizar, proteger, de ser feliz apesar dos fatores externos nem sempre favoráveis.

Apresentemo-nos ao mundo, à nossa história, como protagonistas. Não compremos a ideia do meio religioso e profissional de que devemos nos doar sempre e de forma ampla e irrestrita. Sejamos responsáveis conosco e com aqueles que dependem de nos. Vivamos uma vida livre das expectativas de quem quer que seja, de filhos, de chefe, de marido, de pastor, assumindo uma espiritualidade responsável, de consciência limpa, que liberte nossa mente, corpo e espírito. Isso não é ser egoísta, irresponsável ou insubmissa. É ser coerente e responsável com nós mesmas.

Empresto a vocês uma citação atribuída a Virgínia Woolf que tem o poder enorme de espantar minha ansiedade: “Não precisa ter pressa, não há necessidade de brilhar, não precisa ser ninguém além de si mesmo!” O incrível é que, quando compreendemos isso, tendemos a brilhar naturalmente! Saibamos represar as exigências e julgamentos externos e internos. Não nos deixemos subjugar por pessoas ou situações. Saibamos entregar presente e futuro Àquele que tudo sabe, tudo pode, como se tudo dependesse d’Ele e tenhamos sabedoria e consciência pra gerenciar a vida como se tudo dependesse só de nós mesmas. Meu desejo é que nenhum tipo de ansiedade encontre espaço em nossa vida. Um beijo.

 

Leilane Paegle é mulher, divorciada, mãe solo, arquiteta, servidora pública, cristã, feminista, progressista, esquerdista, pós-graduanda, aprendiz de ativista e voluntária da EIG-BH em constante desconstrução.

 

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