51 anos do assassinato do Dr. King: O que podemos aprender com o líder do movimento negro?
Quinta-feira, 4 de abril de 2019

51 anos do assassinato do Dr. King: O que podemos aprender com o líder do movimento negro?

Com uma campanha de não violência e de amor ao próximo, o Doutor e Reverendo Martin Luther King Jr. foi um dos grandes líderes do movimento pelos direitos civis da população negra

Imagem: grafite de autoria do artista brasileiro Kobra em homenagem a Martin Luther King Jr.

Por Gabriel Alex Pinto de Oliveira

 

A morte do Doutor e Reverendo Martin Luther King Jr., no dia 04 de abril de 1968, deve nos trazer algumas reflexões sobre os avanços da luta antirracista nos dias de hoje e também sobre quais as batalhas que devemos escolher travar.

O Dr. King, figura destacada mundialmente, fez revolução utilizando o “amor” como tática de guerra. A técnica da não-violência foi estudada e esmiuçada por ele e por seus compatriotas negros que o antecederam (e que lhe inspiraram) para fazer brotar no seio da nação americana um movimento que entraria para história do mundo como um dos maiores e mais marcantes movimentos sociais de todos os tempos.

Alguns o comparam com os personagens emblemáticos que o inspiraram nessa batalha não violenta: Mahatma Gandhi e Jesus Cristo, fazendo-o se aproximar mais da figura de um pacifista universal do que a um militante do movimento negro.

Mas com todo o respeito àqueles que o vêm dessa maneira, esse tipo de comparação não pode ser feita de forma a apagar os motivos pelos quais o Dr. King lutou (e como lutou) e os fatores que ele enfrentou que não perpassaram as histórias dos outros dois personagens citados. Não queremos fazer um julgo de valor de quem é melhor ou qual sofreu mais (jamais cometeríamos essa heresia), apenas queremos demonstrar que são histórias diferentes, movidas por uma mesma força poderosa que é (pasmem…): a força do amor.

O problema, no entanto, é que só o amor ou a sua teorização jamais teriam resolvido qualquer problema se a ação proativa do Dr. King não tivesse sido implementada na prática.

Diria ele que

Se eu não posso fazer coisas grandiosas, eu posso fazer pequenas coisas de uma forma grandiosa

– Martin Luther King Jr.

E desse pequeno trecho de situação podemos extrair a palavra mágica que pautou toda a vida desse grande ser humano: FAZER.

Discussões filosóficas e academicistas para explicar e debater as estruturas, a origem e o destino do racismo no Brasil e no mundo nos levam a um entendimento abstrato da realidade que nos circunda. O debate sempre será válido, mas me pergunto entre quem? O famoso “pregar para os convertidos” gera muito pouco ou nenhum resultado em termos concretos.

A teorização é necessária para guiar a criação das medidas e práticas a serem adotadas para gerar as mudanças necessárias à estrutura social. É necessária para se entender o que deve ser combatido. A ação, por outro lado, é o que realmente fará as “coisas” mudarem por aqui.

Quero dizer com isso que a questão aqui não é de ampliação dos horizontes (eles já estão bem amplos), mas sim da escolha de uma dentre tantas narrativas para alcançar o objetivo último da ação proativa e não apenas discursiva. Alcançar os corações, gerar empatia, revolta, discussão, debate, entendimento, movimento… Mas principalmente sair do lugar em que estamos estagnados.

Não, a questão aqui não é moralismo, mas um apelo a consciência. E a “consciência” é vista aqui como um “nível da vida mental do qual o indivíduo tem percepção (ao contrário dos processos inconscientes)”. Ou seja, um conceito psicológico de percepção da realidade, e não um sistema de valores – que seria o “moralismo”. Aceitemos esse viés de luta ou não, a história de Martin Luther King Jr. provou que o apelo à consciência pode, sim, funcionar.

E o racismo? É mais do que só moralismo? Sim, sem dúvida que o é. O racismo também é economia, sociologia, história e política. Contudo, mesmo sabendo que gastarei minhas horas elaborando dissertações de mestrado e teses de doutorado feliz, as publicarei em livros e não em periódicos. O foco aqui precisa ser outro.

De forma alguma se trata de diminuir o nível do debate, mas escolher as melhores narrativas para buscar assertividade. Afinal de contas “as palavras movem, os exemplos arrastam”. Trazer o discurso para a realidade concreta do dia-a-dia é sair da frieza das palavras e dos números para os quais somos constantemente empurrados e gerar empatia e envolvimento. Chame de literatura visceral se quiser. Mas, definitivamente, precisamos “chacoalhar” as coisas.

No final das contas somos apenas números? Não, não somos. Somos vidas cheias de particularidades e nuances afetadas de forma concreta por questões que transcendem o moralismo e a teoria, correto?

Se nossa luta passa por entender os mecanismos do racismo e encontrar novas formas e frentes para combate-lo, também temos que lembrar que essa trajetória de lutas passa por trazer para o nosso lado aqueles que nos seriam “rivais”. Salientando, dessa forma, que a polarização traz apenas segregação.

Acrescento ainda que negar que brancos também lutaram e lutam ainda hoje pelo fim da discriminação é fingir que a marcha pela luta de Direitos Civis nos Estados Unidos, a título exemplificativo, teria sido tão eficaz se não houvessem as pessoas brancas lutando lado a lado com os negros. É tentar apagar da história dos brancos que tomaram consciência o crédito que lhes é devido e fazer o mesmo que tentaram fazer com a nossa própria história.

O Dr. King viu, entendeu e traduziu isso muito bem…

Não é questão de dar-lhes o protagonismo, mas reconhecer que juntos seremos mais fortes. É fazer-lhes reconhecer seus próprios privilégios enquanto pessoas brancas. Mas, antes, precisamos despertar-lhes o interesse. Seja por empatia ou por “provocação”.

Toquemos os corações para despertar as pessoas e aí poderemos tocar as mentes para poder ensiná-las. Mentes adormecidas não assimilam conteúdo.

Por fim, se Assata Shakur [1] estava correta em suas palavras eu não sei. Eu prefiro acreditar nas ações concretas do Dr. King que apelou à consciência daqueles que o oprimiam e que moveu mais pessoas no mundo inteiro do que teria conseguido se esperasse que a tese de doutorado dele, defendida na Universidade de Boston, fosse lida pelo presidente dos Estados Unidos e despertasse no presidente a boa vontade necessária para implementar a Lei dos Direitos Civis em 1964.

Abraço fraterno e sincero,

Gabriel

 

Gabriel Alex Pinto de Oliveira é advogado, pós-graduando em Gestão Financeira e Econômica de Tributos pela Fundação Getúlio Vargas – FGV, pós-graduado em Direitos Fundamentais pela Universidade de Coimbra em parceria com o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM, bacharel em Direito pala Universidade Presbiteriana Mackenzie, com experiência na área de Direito Tributário e no estudo das relações étnico-raciais afro-brasileiras.

 

Leia mais sobre racismo:
.
.
.
.
.
Leia mais sobre identidade negra:
.
.
.

O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Notas:

[1] “Ninguém no mundo, ninguém na história, conseguiu sua liberdade apelando para o senso moral das pessoas que o oprimiam” – Assata Shakur 

Quinta-feira, 4 de abril de 2019
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend