Que coisa mais linda é essa?
Segunda-feira, 8 de abril de 2019

Que coisa mais linda é essa?

Sem cantinho e sem violão, “Coisa mais Linda” soa demodê, com sua favela feliz, seu racismo mascarado e suas belas mulheres quase recatadas, quase do lar

Imagem: poster de divulgação da série. Fonte: Netflix.

Por Dora Martins

 

É preciso dizer a você, que me lê, que este texto foi escrito num dia qualquer do começo de abril do ano de 2019. Estamos no Brasil. E, nem chegamos à metade deste ano e já temos  triste e dramático índice de mulheres mortas ou feridas por homens, sejam eles maridos, amantes, namorados, ou qualquer um deles na condição de “ex”.  A cada duas horas uma mulher é morta no Brasil, por ser mulher. Em 2018 dados mostram que crime de ódio contra a mulher teve aumento de 12% em relação aos anos anteriores. E neste ano, até fevereiro, quase 18.000 mulheres vítimas de violência de gênero, pediram ajuda, pelo 180, na Central de Atendimento à Mulher.

Eis que, no meio desse cenário preocupante, em março último, foi lançada no canal de filmes e vídeos, Netflix, uma série brasileira, intitulada “Coisa mais linda”.

E sendo mesmo linda, nas imagens e cores, tem sido apreciada por muitos e muitas, e quem recomenda até costuma dizer que nela há positiva mensagem feminista. Então, vamos ver.

E, eis que, somos levados para o ano de 1959. Tudo bonito, tudo limpinho, enfeitado, ensolarado. E a música, ah! a música é cheia de bossa! E, quem assiste aos capítulos segue embalado pela nova bossa, pelas cores do Rio de Janeiro, Corcovado, Redentor, que lindo. E tem samba, tem favela, tem morro (onde não é bom subir à noite, epa!), e tem a mocinha, o bandido, a feminista, o machista (quase todos os homens), e lá estão os conservadores e salvadores da moral e dos bons costumes. E há as mulheres, as jovens, que querem amar, que apanham sem reclamar, que querem cantar, mandar, vencer. Mas tudo com abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim.

O Brasil, hoje, caminha por rumos estranhos, a pobreza aumentando, a fome atingindo muita gente e o Rio de Janeiro, que continua lindo, com seu mar azul, e com a polícia que sobe o morro e o exército também. E é guerra, mermão!

E a gente fica, assim, meio sem graça, a perguntar o porquê de uma série, com esse jeitão, na Netflix, que atinge um público específico da classe média, num Brasil que tem ficado meio de boca aberta ante um governo que diz que a moral e a decência são valores da (nova?) família brasileira, valores esses que tem que ser garantidos nem que seja a custa de mortes e eliminação dos diferentes – LGBTS, negros, e todos quase sempre pobres. 

Olhando bem de perto, sem cantinho e sem violão, a “Coisa mais Linda” soa demodê, com sua favela feliz, com o racismo mascarado e edulcorado, com o galã bonitão meio inseguro, com seus machistas e conservadores tão óbvios e com suas belas mulheres, quase recatadas, e quase do lar, a buscar um novo espaço de fala e do feminino. E tudo a sugerir modernidade. E tudo, talvez, a querer dizer que a luta feminista havia começado. Só que não. Os temas, todos importantes para a causa feminista e feminina, atravessam-se nos vários capítulos, em falas curtas e bobinhas, tudo de modo a parecer que, vejam só, estamos falando de vocês mulheres valentes, estamos respeitando seu espaço. Homenagem ao feminino, será!?

O Brasil dos anos 1959, 1960 fervilhava! A ditadura já nos rondava e muitas mulheres, por certo, romperam barreiras, fizeram muitas manhãs de sol. Com luta, dor, e com açúcar e certo afeto. Eis que, essa “Coisa mais Linda”, em 2019, está muito rasa, muito samba de uma nota só, tudo muito sussurrado, fingindo que grita verdades inteiras! A continuar assim, não há paz, não há beleza, é só tristeza e essa melancolia que insiste em ficar.

Para quem pretende assistir, que o faça sem esquecer que neste Brasil tão injusto com suas mulheres que morrem por serem mulheres, um Brasil tão racista e nada faceiro, e que não anda nada divino ou maravilhoso, é preciso estar atento e forte. Cuidado, a Netflix tem o dom de iludir.

Dora Martins é  juíza de direito em São Paulo.

 

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