Benedita da Silva, uma mulher negra, revolucionária e evangélica
Quarta-feira, 10 de abril de 2019

Benedita da Silva, uma mulher negra, revolucionária e evangélica

Em 1982, após anos de luta para recuperar o ensino defasado, Benedita da Silva se formou no curso de Serviço Social. Depois, se lançou candidata à vereadora e foi eleita.

Imagem: Benedita da Silva, foto de Gustavo Bezerra/PT na Câmara.

Por Simony dos Anjos

 

No século XIX, o movimento sufragista emergiu como grande baluarte da independência das mulheres. Mulheres brancas, letradas que estavam ganhando as ruas para disputar o espaço público e sair do lar. Um movimento necessário e importante! Contudo, essa mulher sufragista parece uma mulher universal, que representa todas as mulheres e suas necessidades. E não é bem assim.

Em Mulheres, Raça e Gênero, Angela Davis nos dá um panorama incrível de como é necessário levar em consideração todas as vozes femininas que estão clamando. Se pensarmos em feminismo de “primeira onda”, haviam mulheres negras que denunciavam suas situações e reivindicavam direitos, dentre eles o direito de serem livres da escravidão. E o que a história fez com elas? Relegou ao ostracismo.

Em 1851, na Convenção de Mulheres antiescravistas, que ocorreu em Akron, Ohio, Sojourney Truth (1797-1883) levanta-se em meio a um auditório de mulheres brancas ditas “progressistas” e se coloca:  “Eu não sou uma mulher?”  Truth estava remando contra uma maré que, infelizmente, ainda anda alta: a necessidade de provarmos e reafirmarmos nossa importância, nossos direitos, nossas opiniões e exigir respeito de outras pessoas que deveriam ser “nossas iguais” e que, não, não são (ou não se posicionam com igualdade).

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A abolicionista questionava a ação das mulheres brancas que eram antiescravistas, mas não consideravam as mulheres negras tão mulheres quanto elas. As mulheres negras, ainda, eram vistas como seres de segunda classe, que deveriam trabalhar a preço de miséria, ou em troca de comida. Mulheres negras não deveriam discursar em audiências públicas, embora fossem conteúdo de muitos discursos inflamados proferidos pelas irmãs brancas.

Recentemente, o feminismo da década de 1960 veio à baila e eu gostaria de marcar uma posição, aqui. Mulheres Negras já se organizavam e resistiam na era da Bossa Nova, o morro não era “apenas” samba! Dentre as possibilidades de histórias a contar, decidi contar um pouco da Benedita da Silva, atualmente deputada federal pelo PT/RJ.

Benedita nasceu em 26 de abril de 1942. Em 1959 ela tinha 17 anos e já notório conhecimento em sua comunidade, na favela da Praia do Pinto, próxima ao Leblon. Benê, trabalhou desde a infância vendendo pequenos produtos pelas ruas do Rio de Janeiro. Trabalhou, também, como tecelã e ajudava a sua mãe a lavar roupas em casa.

Em 1965, quando o Rio completou 400 anos, foi indicada como representante do bairro de Copacabana ao vencer um concurso de Miss IV centenário. Em 1968  se converteu à Igreja Evangélica Assembleia de Deus e até nisso rompeu com as normativas: ao invés de aderir a uma postura conservadora dos cristãos em plena ditadura militar, se empenhou na resistência ao regime militar e se dedicou à luta pela redemocratização do país.

Em 1982, após anos de luta para recuperar o ensino defasado, se formou no curso de Serviço Social. Depois, se lançou candidata à vereadora e foi eleita. Esse foi o início de uma carreira política popular que passou pelo senado, governo do Rio e que ainda hoje continua no Congresso Nacional, com o cargo de deputada federal pelo Rio de Janeiro. Benê é a primeira mulher negra com uma carreira política de destaque, no Brasil. Sua luta, enquanto representante eleita, foi marcada pela defesa das minorias sociais. Inclusive, é sua a autoria do Projeto que definiu o dia 20 de Novembro como o dia da Consciência Negra, denunciando a falácia do 13 de maio da Princesa Isabel.

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Haveria muito mais a contar de Benedita, mas os roteiristas de série e novelas escolheriam apenas falar de sua vida sofrida no morro, enquanto apagariam a sua resistência e capacidade de reelaboração da sua realidade. Enfim, devemos dar a ver a essas histórias para que entendamos que sempre houve vozes ecoando dentre os invisibilizados, a sociedade é que nunca as ouviu.

Se queremos ser interseccionais, de fato, temos que contemplar as pautas identitárias, não podemos cair na falácia do “somos todas iguais” e nem na armadilha da representatividade vazia. Lugar de fala não é um único indivíduo destacado que pronuncia palavras. Lugar de fala é lugar na estrutura social, e todos os esforços coletivos para se manter a salvo num sistema que nos cala diuturnamente. Infelizmente, até hoje, as produções midiáticas têm reafirmado arquétipos de pessoas negras que sambam e moram no morro. Há muito mais coisas no morro do que julga a vã cinematografia que circula por aí!

Simony dos Anjos é graduada em Ciências Sociais (Unifesp), mestre em Educação (USP) e tem estudado a relação entre antropologia, educação e a diversidade.

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