O existir é uma opção. Mas uma opção “deles”
Quarta-feira, 10 de abril de 2019

O existir é uma opção. Mas uma opção “deles”

Imagem: A menina Aché, Damiana, conhecida hoje por seu povo como “Kryygi” (tatu do monte), fotografada nua pelo antropólogo alemão Robert Lehmann Nitzche, antes de sua morte em 1907. Aché foi torturada e maltratada por colonos.

O mero pertencer na sociedade através de afirmação identitária não garante visibilidade, tampouco possibilidade de exercer a condição de existir. A existência do ser social é complexa, ou ao menos, é o que a mídia nos impõe como estatísticas balizadas sob análise de determinados grupos, sem precisão dos demais.

Os corpos já nascem pertencendo às diversas categorias ampliadas no mundo real, independentemente de seu encaixe ou qualidade de adequação, ou principalmente, de aceitação. A involuntariedade do pertencer sobre os corpos parece advir de uma ação natural, isto é, a natureza premedita a destinação de tais externos. E dentro desses corpos teria humanidade? E indo além, há humanidade nessas imposições destinatárias?

Reticências que são excedidas com o vivenciar da sociedade, a qual, ironicamente, exige um padrão para “poder-ser”, buscando eximir aqueles que apenas idealizam um “querer-ser”. Desta feita, partindo do ditado popular do “querer não é poder”, os corpos eximidos aceitam a retórica de que embora possuam o direito de pertencer, deve negá-lo para poder existir.

A hierarquização entre os corpos ocorre quando aqueles que se negam por força da involuntariedade imposta, assumem a impotência de não serem legitimados em pertencer. Dividindo-se em graus extremos, não dando espaço para o meio termo. É ou não é. E se é, deve ser negado, a fim de garantir a preponderância daqueles outros corpos que se mantêm no topo da hierarquia – ambiente dependente dos efeitos da negação.

Essa ideia ressai a lógica de que alguns corpos podem ser irrelevantes para o sistema, enquanto outros dependem do sistema para terem sua definição/recolocação. Portanto, se os corpos pertencem ao sistema, mesmo aqueles irrelevantes, a recíproca seria verdadeira? A quem pertence o sistema da escolha da relevância dos corpos na sociedade?

Judith Butler, em seu livro “Quadros de guerra: Quando a vida é passível de luto? ”, denunciou que o “ser” do corpo é um ser que está sempre entregue a outros, a normas, a organizações sociais e políticas que se desenvolveram historicamente a fim de maximizar a precariedade para alguns e minimizar a precariedade para outros.  E oportunamente destacou que há sujeitos que não são exatamente reconhecíveis como sujeitos e há vidas que dificilmente, ou nunca são reconhecidas como vidas.

É partindo desse pressuposto de reconhecimento ou ausência dele que devemos nos ater à obrigatoriedade de perceber que o “Outro negado” deve ser resgatado para o corpo social como sujeito de direitos, os quais jamais poderiam ter sido furtados para enaltecer o padrão imposto.

Em breve estudo e caso, trazendo a referida obrigatoriedade à realidade, tomemos como exemplo as mães periféricas que perdem os seus filhos para a repressão policial dotada de “poder-ser”, cuja repressão possui finalidade precípua de eliminar corpos que apenas anseiam existir na sua condição de vida não-reconhecia pelo Estado, definindo-os como irrelevantes.

Desta feita, os corpos sociais dessas mães não encontram caminho para a proteção, uma vez que quem deveria proteger, buscou eliminar, derivando a conclusão de o Estado ser precisamente aquilo do que elas precisam ser protegidas. O luto também é irrelevante para o contexto sistêmico, e em contrapartida, é escolhido como motivação de expurgo para continuar não pertencendo.

Estamos perdidos e levianamente dotados de arbítrios seletivos que nada agregam, somente acusam através de discursos moralistas que não possuem força probatória que os sustentem; uma moral projetada para manter o vazio que é negar o Outro e tornar irredutível a condição do “poder-ser”. Um poder ilegítimo.

A quem pertence as nossas vidas?

 

Mariane Novaes de Campos é graduanda em Direito pela Faculdade Católica Rainha da Paz – Mato Grosso.

 

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BUTLER, Judith. Quadros de guerra: Quando a vida é passível de luto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016, p. 15-17.
TEIXEIRA, Jacqueline Moraes; MACHADO, Bernardo Fonseca. Precariedade, reconhecimento e vulnerabilidade. Curso de extensão: Poder, sexualidade e perfomatividade: aproximações entre Michel Focault e Judith Butler. São Paulo: FSP-USP, 2019.

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