Marielle, Robson e Evaldo: extraordinários enganos
Quinta-feira, 11 de abril de 2019

Marielle, Robson e Evaldo: extraordinários enganos

É como se a nova desgraça renovasse a urgência do ativismo e, ao mesmo tempo, cobrisse com certo conformismo a última desgraça ou “enganos” que a antecedeu

Paulo César Ramos


No doutorado, estou trabalhando na reconstrução histórica do protesto negro contra a violência policial no período de 1978 a 2018. Tenho me baseado nos panfletos, relatórios e manifestos de organizações negras de atuação nacional que denunciam o genocídio, extermínio e violência racial. Um material documental vastíssimo.

Mas minha intenção inicial era outra: eu queria apenas trabalhar com os casos de violência policial que ficaram mais conhecidos, os chamados “casos emblemáticos”. Contudo, foi impossível, pois quando eu me enfiei nos documentos, notei que se tornava cada vez mais difícil separar os “casos emblemáticos” de 40 anos de protesto contra a violência policial, e esta dificuldade ocorreu em virtude da quantidade imensa de vítimas que eu poderia arrolar ao longo dos anos.

Eu poderia começar esta história com Robson Silveira da Luz e terminar com Marielle Franco. Mas, quantas vítimas da violência da polícia houve apenas entre Marielle e o músico Evaldo Santos Rosa? Aí, em vez de analisar o varejo, eu tive que trabalhar em outra escala.

Isso me leva a refletir sobre a mobilização contra estas injustiças e a capacidade que militantes e ativistas teriam para conseguir resultados objetivos contra elas. De um ano para cá, desde Marielle, quantas outras pessoas negras morreram injustamente pela ação policial? Se ficarmos apenas nos casos em que tivemos conhecimento, já seria um trabalho gigantesco. Mas a rotina de protestos negros, da organização negra e de sua estratégia é sempre interrompida por um caso como o de Marielle ou o caso de Evaldo.

Muito se cobrou (e se cobra) uma mobilização de massas pelo Movimento Negro Brasileiro. Isso pode ser uma questão política ou uma reflexão sobre o sistema em que vivemos. Eu creio que, em meio a tantas vítimas de injustiças tão profundas, é como se a nova desgraça renovasse o senso de urgência do ativismo e, ao mesmo tempo, também cobrisse com um certo tipo de conformismo aquela última desgraça que a antecedeu.

O cometimento de uma nova injustiça por parte da polícia parece zerar o acúmulo da indignação pública contra este projeto de assassinar repetidamente pessoas negras e, por meio do efeito da repetição destes atos, a nova morte vinda quando a última ainda é recente parece abrir caminho para falas como “ah, é assim mesmo”, que com certeza sustenta aquela outra, menos envergonhada, “é, tem que ser assim!”.

Um ato criminoso de violência policial vai sustentar o outro, e a sua repetição exerce uma função persuasiva sobre a opinião pública, de tal modo que cometer “enganos” é a própria função daqueles que nunca erram os corpos negros.

Assim, a cada nova vítima da violência policial parece que fica mais difícil mobilizar-se contra ela, pois a resposta que ela merece não é outra senão a urgente e imediata, pois se trata da defesa da vida. Mas, ao mesmo tempo, a renovação da urgência nos estimula a viver no estado de urgência sem fim, tornando o imediatismo da nossa causa a rotina perene dos nossos dias.

A política que encerra o curso das vidas pela força policial também opera para limitar o curso da mobilização política negra. Entre a morte e a mobilização, existe todo uma vida social que, se negra, será sempre limitada de alguma forma, pela discriminação racial do shopping que nega o direito ao consumo, pela evasão escolar das crianças negras, pela seletividade penal do sistema de justiça. Sempre há um limitador que encerra a vida, seja impondo limites e não deixando viver, seja dando fim físico a ela,  fazendo morrer.

O extraordinário engano das polícias brasileiras é, na verdade, o ordinário acerto do sistema que as produziu, pois está cercada de instituições que agem com os negros da mesma forma, ainda que com seus próprios meios e com distintos efeitos diretos, encerrando as vidas ao negar direitos ou encerrando as vidas à bala.

O que a polícia faz ao seu modo é o que a educação sempre fez do seu jeito, a economia faz no mercado de trabalho informal, é o que a política urbana faz segregando, o que a política de transporte faz isolando, o que a saúde faz não cuidando, o que justiça faz encarcerando. Todos que têm um mínimo de responsabilidade não podem se furtar a encarar este problema senão pelo que ele politicamente é: racista e genocida.

Paulo César Ramos é doutorando em Sociologia pela USP e coordenador do Projeto Reconexão Periferias da Fundação Perseu Abramo

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