É preciso fazer o balanço do neodesenvolvimentismo
Terça-feira, 16 de abril de 2019

É preciso fazer o balanço do neodesenvolvimentismo

Existe um consenso entre setores progressistas brasileiros que pavimentou os últimos 40 anos da caminhada de democratização que o país viveu: não basta apenas fazer a economia crescer, é preciso distribuir.

Baseado nesta crítica aos governos militares, a ditadura foi deixada para trás e as forças que a sucederam prometeram levar o Brasil para um patamar em que a riqueza produzida pela nação seria distribuída também para os estratos pauperizados. Era preciso acabar com a pobreza e dignificar os pobres. Não bastava desenvolver o Brasil se a renda não fosse também distribuída.

Os novos tempos da democracia exigiram novos atores, foi fundamental a emergência e legitimação de atores que estivessem afinados no mesmo diapasão. Bem ou mal, as principais forças políticas disputavam quem é que faria isto com mais competência. Fosse a força da tradição e experiência burocrática do PMDB, a intelectualidade do PSDB ou a experiência de vida dos trabalhadores do PT.  

Assim, toda a agenda política das últimas quatro décadas foi tocada por sujeitos com as tais características, o político tradicional, o intelectual democrático, o líder dos trabalhadores; quando saiu um pouco destes parâmetros, as coisas desandaram. Não se trata aqui de exames biográficos ou perfis individuais, mas sim entender o conjunto de forças políticas que determinadas agências individuais são capazes de agregar em torno de seus interesses, trajetórias, projeções de futuro. Perfis que são capazes de conciliar em torno de si os diversos interesses presentes na sociedade.

Ocorre que de alguma forma este projeto de abertura política e democrática pós Constituição Federal de 1988 logrou êxitos diversos e a sociedade, bem ou mal, mudou. Alguns problemas foram pacificados, novos interesses surgiram. Trata-se do movimento dialético da história.

É indispensável aprender com os próprios erros, mas se for possível aprender com os erros dos outros, tanto melhor. Os militares não puderam sufocar a força da classe trabalhadora que eles próprios ajudaram a brotar durante o “milagre econômico”. Não convém aos setores progressistas brasileiros sufocar o contingente de atores políticos que emergem desta última experiência democrática – ainda que interrompida em 2016.

O que praticou o regime militar no Brasil foi o crescimento sem distribuição, gerando pobreza massiva. E seus opositores passaram a lutar pelo fim da pobreza, levados pelo pacto redistributivo nacional: ninguém era contra acabar com a pobreza. Agora, desde uns 10 a 15 atrás, com a experiência da mobilidade social dos anos de governos petistas, tem sido possível escancarar outras formas de desigualdades, como a de raça e a de gênero.

Porém, alguns estão lutando contra a história e jogam este conjunto de reivindicações (que são de ordem cultural, legal e econômica) na vala comum das pautas comportamentais. É uma zona discursiva na qual muitas pessoas, por vezes admiráveis, esquecem completamente da realidade prática, cotidiana e concreta que distribui ou nega oportunidades, e que a pesquisa social, de Florestan Fernandes, Carlos Hasenbalg, Marcia Lima, Marcelo Paixão entre outros, revela com distinta precisão.


Esta zona discursiva se propõe democrática e progressista, mas faz um apelo grotesco e raso para o enigmático termo “identitarismo” para se referir ao conjunto das desigualdades sociais mais difíceis de serem superadas, porque elas podem ser cumulativas e persistentes. Nesta zona discursiva (habitada por Ciro Gomes e outros espécimes ao Sul e ao Norte da linha do Equador) impera uma indigência moral e cognitiva. Moral, pois é incapaz de se mobilizar pelo o drama social das maiorias exploradas de negros e mulheres e de reconhecer a existência fática do racismo e do machismo. Cognitiva, porque não dá cabo da própria crítica que o impulsionou. Muitos abraçaram a agenda desenvolvimentista sem a mínima reflexão, sem o mínimo balanço de sua própria história.

E indigente porque se esconde diante de um pretenso universalismo, que sempre é enunciado com outros termos fortes que se querem pomposos como “economia”, “estrutural”, “o que importa”. As tintas reluzem, mas as paredes são podres. É como o discurso cartesiano das monografias escolares produzidas em série, de frases com sujeito oculto na terceira pessoa do singular. O programa político universalista é a política feita com frases sem sujeitos (políticos).  

A gramática do universalismo raso evita enfrentar as contradições de nossos tempo e está mesmo atrás do desenvolvimentismo e a dependência, pois este ao menos perguntou “desenvolvimento para quem?”. Tentar fazer política sem sujeitos é a melhor forma de rogar pelos privilégios já estabelecidos de quem já tem lugar garantido ao sol e sombra. É uma forma de deixar os privilégios intocados. Sendo assim, também não consegue se aprofundar das contradições que diz importar: as de classe. Pois se assim fosse, não teríamos tantas complicações no âmbito da organização dos trabalhadores não formalizados no Brasil.

Mas assim como na língua portuguesa, na política, o contexto pode indicar o agente da ação. Quem propõe linchamento das pautas das maiorias são em geral homens brancos. São eles que se escondem em frases sem sujeitos para tentar submeter todo o restante da resistência sob o adjetivo “identitário”. Na frase “o identitarismo é uma cortina de fumaça para o que realmente importa”, o sujeito político é sempre um homem branco tresloucado defendendo seu lugar de fala: ele é o sujeito da política que quer hierarquizar pautas e dizer o que é que realmente importa.

É preciso dar vazão, voz e vez a todos aqueles e aquelas que querem contribuir com uma sociedade democrática, justa, igualitária e, sobretudo, solidária. É preciso retomar a crítica ao desenvolvimentismo; é preciso discutir a formação de classes na sociedade brasileira, a colonização e o patriarcado; é preciso fazer o balanço do neodesenvolvimentismo. E de forma solidária, sem esse identitarismo pós-neodesenvolvimentista que não ousa dizer seu nome. Afinal, pode o subalterno lutar?

 

Paulo César Ramos é doutorando em Sociologia pela USP e coordenador do Projeto Reconexão Periferias da Fundação Perseu Abramo.

 

Leia mais:

Primeiras impressões do histórico voto do Min. Celso de Mello sobre a criminalização da homotransfobia

Com sustentações históricas no STF, corte inicia julgamento sobre criminalização da homofobia

As cores da doutrinação Hétero-Cis

Análise: os inúmeros equívocos da maioria do STF no julgamento da presunção de inocência


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Terça-feira, 16 de abril de 2019
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend