Lançamento do livro Religião, Corporeidade e Direitos Reprodutivos – outras vozes da fé cristã
Segunda-feira, 22 de abril de 2019

Lançamento do livro Religião, Corporeidade e Direitos Reprodutivos – outras vozes da fé cristã

O livro propõe o debate acerca dos usos, desusos e abusos da religião em relação aos corpos das mulheres a partir de olhares de outros cristianismos

Imagem: Mulheres que desenham – ilustração realizada pelo movimento mulheres que desenham (#WomenWhoDraw) para a marcha das mulheres de 2017

Por Angélica Tostes

 

Falar de “Religião, Corporeidade e Direitos Reprodutivos” é tarefa urgente em nosso complexo tempo de avanços e retrocessos neste campo, sobretudo quando se trata dos usos, desusos e abusos da religião em relação aos corpos das mulheres. O livro tem a proposta de ampliar o debate acerca dessa temática a partir de olhares dos cristianismos.

A narrativa dominante do Cristianismo, feita pela Igreja Católica e pelos setores conservadores evangélicos, é contra os direitos reprodutivos da mulher. Essa obra tem como objetivo conceder um espaço para múltiplas vozes marginais dentro da fé cristã que (re)pensam essas questões e outras a partir de uma epistemologia do cotidiano. É uma contra-narrativa que diverge do senso comum cristão, seja ele católico, protestante tradicional ou seus múltiplos perfis do campo evangélico como grupos pentecostais, evangelicais e midiáticos. O livro se faz necessário como uma contrapartida discursiva em relação ao centro da fé cristã, que é a vida, além de visibilizar a luta pelos direitos da mulher por mulheres feministas cristãs.

As abordagens serão feitas a partir das vivências de fé e militância das autoras convidadas, e buscarão compreender: i) as hermenêuticas feitas sobre as relações de religião e corpo da mulher; ii) entender o aborto a partir da teologia feminista; iii) compreender a maneira de como a fé deve dialogar com as questões pertinentes à saúde pública das mulheres no Brasil. Os textos aqui apresentados se entrelaçam com a vida real de mulheres, com os cotidianos, com os rompimentos e negociações da fé. Eles têm o cheiro, o sabor, o saber e os ritmos da teologia feminista latino-americana.

Os tempos trouxeram a lástima de usos conservadores do gênero como “ideologia”. Eles que pretendem imobilizar e desarticular a potência histórico-metodológica da categoria gênero, ao intervir e deslocar o discurso para deslegitimar a produção dos saberes dos estudos de gênero. E mais, eles tentam desmerecer os processos de luta aos enfrentamentos das desigualdades sociais e estruturas de poder – apoiado veementemente pelas instituições religiosas ligadas à tradição cristã ocidental.

Diante disso, escolhemos  como metodologia uma leitura de gênero acerca dos direitos reprodutivos das mulheres, corporeidade e religião. Nossa leitura, como tem nos chamado a atenção a teóloga Ivone Gebara, uma das autoras desta obra, vai além dos conceitos biológicos de gênero, ao afirmar que o gênero é algo mais amplo e complexo que o sexo biológico, é um produto social apreendido de geração em geração, e está dentro do quadro das relações desiguais de poder entre os sexos.

E não é clichê realçar a conhecida frase que contém uma verdade nua e crua: “se homem engravidasse o aborto seria legalizado”.

As disparidades em relação ao poder e liberdade do corpo masculino e do feminino nos leva a concordar com esta frase. No entanto, desejamos ir além… A teologia feminista é ação, é voz, é pensamento discordante, é inquietação e não se calará frente às desigualdades impostas por uma cultura misógina e patriarcal.

Trazemos vozes de mulheres de fé, do cotidiano simples da vida, como o caso de Flor, em que Sandra Duarte de Souza relata as conversas acerca da violência, estupro marital e expressões de espiritualidade com um Deus-cúmplice para compreender e encarar todo este sofrimento e luta. Flor fez teologia com o corpo. Ela a fez com as dores, alegrias e transgressões do corpo. O texto de Sandra é a síntese de uma prática feminista no contexto da teologia. Uma teologia do encontro, do ordinário, da desobediência às ordens patriarcais. Ela evidencia que a discussão sobre o aborto não está longe da realidade das igrejas no Brasil, mas pode estar “sentada bem ao seu lado” no domingo de manhã na missa ou no culto das igrejas.

Como se sabe, o Cristianismo (ou os cristianismos) é a religião dominante no Brasil, e o Estado toma proveito de tal fenômeno e incorpora a tradição para o controle dos corpos, principalmente das mulheres. Ivone Gebara questiona em seu texto o porquê de as religiões monoteístas legislarem tanto sobre os corpos das mulheres e quais são os poderes e crenças em jogo. Ivone caminha para um diálogo existencial-fenomenológico do ser mulher, da gravidez&aborto e dessa ânsia do Estado-Igreja no controle dos corpos das mulheres.

Essa corporeidade plena negada às mulheres de todo o tempo é que faz com que a teologia feminista venha como um machado às raízes patriarcais de um cristianismo incorpóreo e patriarcal. Odja Barros, com a hermenêutica feminista da Bíblia, expande os horizontes textuais e abre portas e janelas para que os ares sejam renovados na tradição cristã. A leitura bíblica feminista é o diálogo corpo-a-corpo, como a autora coloca. É nessa ciranda corpórea que a leitura dominante é desafiada pelos corpos de mulheres que se dispõem a fazer teologia a partir da vida, do corpo, do erotismo. É impossível discutir sobre direitos reprodutivos das mulheres sem que haja um novo olhar para o corpo, um novo lugar para as mulheres, uma nova leitura bíblica pelas lentes feministas.

Nesses caminhos das pedras e prazeres de ser mulher é que a luta pela descriminalização do aborto é costurada. Lusmarina Campos Garcia entende que essa luta diz respeito a igualdade de gênero e traz uma compreensão a partir de um referencial bíblico-teológico para a questão, aprofundando-a em duas teses: i) a Bíblia não condena o aborto e ii) a laicidade do Estado é fundamental para a igualdade. Este último texto que compõe nosso livro foi apresentado na Audiência Pública realizada pelo Supremo Tribunal Federal que discutia a descriminalização do aborto no Brasil, em 6 de agosto de 2018, em Brasília-DF.

Esperamos que esse livro contribua com novos saberes e com outras dimensões teológicas para a discussão dos direitos reprodutivos das mulheres a suas relações com a religião cristã. Esta, plural e diversa, como sabemos que é, pode ser usada para oprimir os corpos ou para dar voz aos corpos invisibilizados pela tradição patriarcal e heterossexual. Há dúvidas por qual caminho seguir?

 

O lançamento acontecerá no dia 27 de Abril de 2019 às 9h00, sábado, no espaço KOINONIA Presença Ecumênica (Rua Carmo, 56 – Sé, em frente o Poupatempo da Sé). Será uma roda de diálogo contando com a presença dos organizadores, Angelica Tostes e Claudio Ribeiro, e com

  Ivone Gebara, freira e teóloga feminista
– Sandra Duarte, professora e pesquisadora de gênero e religião,
– Carla Gisele, educadora e pesquisadora sobre mulheres, gênero e feminismo e militante da Articulação de Mulheres Brasileiras
– Tabata Tesser, socióloga e Conselheira Nacional das Católicas pelo Direito de Decidir no Brasil.  
– Dalila Brito, filósofa, instrutora de capoeira, ativista do movimento negro, feminista negra, lésbica, em processo da iniciação Candomblecista no, IleÈgbéAláketúOyáAlágbará

A AnnaBlume terá livros para vender no local.

Realização:

– Editora Annablume / – KOINONIA Presença Ecumênica/ – Evangélicas pela Igualdade de Gênero / – Católicas pelo Direito de Decidir / – Frente Evangélica pela Legalização do Aborto /- Angeliquisses

Angélica Tostes é Teóloga, mestra em Ciências da Religião e escreve no Blog Angeliquísses

 

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