“Criou-se o delírio de que policial corajoso é o que executa; covarde é o que cumpre a lei”, diz PM
Terça-feira, 23 de abril de 2019

“Criou-se o delírio de que policial corajoso é o que executa; covarde é o que cumpre a lei”, diz PM

O policial que faz a própria lei é corajoso, o que cumpre a lei é frouxo. A forma como a PM age é talvez a maior causa da péssima segurança pública do país

Imagem: polícia militar sobe a Favela do Moinho, no centro de São Paulo, em 2017. Foto: Bruno Santos. Fonte: Mídia Ninja.

Por Martel Alexandre del Colle, policial militar 

 

Já joguei muito videogame na vida, mas, depois de uma certa idade, eu não me sinto motivado para jogar. Entretanto, isso não faz diminuir o meu apreço pela indústria dos jogos. O que me cativa nessa indústria não são as diferentes jogabilidades possíveis, mas a criatividade na elaboração de enredos atraentes para os jogadores. Hoje em dia, eu não jogo, mas adoro assistir outras pessoas jogando só para que eu possa me deliciar com a narrativa que o jogo apresenta. E por que eu faço isso? Porque isso me gera reflexões.

Assassin’s creed é um jogo capaz de nos levar a uma importante reflexão acerca do que é verdade, do que é coragem e do poder que uma narrativa tem sobre nós quando não nos é ilícito ir mais afundo nos fatos.

No jogo, você controla um personagem que realiza missões. As missões geralmente envolvem assassinatos. Como disse, não sou apaixonado pela jogabilidade, mas pela história.

O jogo apresenta dois grupos distintos: Os assassinos e os templários. Você começará o jogo dentro de uma dessas facções e o jogo lhe apresentará a outra facção como criminosa. Suas missões terão o objetivo de impedir um plano maligno da facção contrária.

O jogo te leva a fazer tudo pela sua facção. O personagem matará, roubará, e cometerá qualquer ato necessário para que sua facção esteja em segurança, impeça a outra facção de concluir seu plano maligno e mantenha as pessoas livres.

A magia do jogo está no fato de que você descobrirá que a sua facção não era tão boazinha assim quanto ela dizia, e que a outra facção não é tão má quanto lhe diziam. A trama chega ao ponto de fazer o jogador trocar de facção, após ter matado membros dela, roubado itens dela e fortalecido a facção inimiga.

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A mágica do jogo está aí. Ele lhe apresenta uma versão da realidade e não lhe permite questionamentos. Como você não questiona a realidade, você acaba matando, roubando e fazendo qualquer coisa pela sua facção e contra a facção contrária.

O jogo começa a lhe mostrar as mentiras da sua facção e as boas intenções da outra, o que leva o jogador a ir de mente tranquila para o outro lado. Então a narrativa lhe mostra que não há bons ou maus. Que ambos os lados estão certos e estão errados. E isso é uma baita reflexão com a qual muita gente jamais se deparou ou vai se deparar.

Desde que entrei na polícia, eu recebi uma versão dos fatos. É muito raro ver alguém de fora da polícia instruindo policiais. E quando pessoas de fora são autorizadas, geralmente é porque tem a mesma linha de pensamento que a polícia deseja. Exatamente como no jogo, o policial é formatado com somente uma versão dos fatos. E por essa versão ele odeia, ele mata, ele ignora a lei, ele faz qualquer coisa. E não faz por ser mal, mas por querer o melhor para a sociedade em que vive.

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O que muitos policiais não entendem é que o mesmo acontece do outro lado. O traficante só tem metade dos fatos, o assaltante só tem metade dos fatos. E assim como alguns policias conseguem cometer as maiores atrocidades acreditando estar fazendo o certo, outras pessoas também conseguem.

Talvez elas digam que o banco só explora o povo e rouba o dinheiro das pessoas, e que por isso o banco deva ser assaltado. Talvez esse cidadão argumente que a maconha é criminalizada porque ele não tem dinheiro para o álcool, e que isso só acontece dessa forma porque querem ele preso.

Ele talvez ache que a polícia o odeia, pois ele vende droga para médicos, advogados e policiais, mas os policiais só prendem pessoas da comunidade, só revistam pessoas da comunidade. Talvez ele odeie a polícia, pois um policial pega semanalmente um determinado valor dele para deixar a boca de tráfico funcionando, e ele sabe que muitos policiais sabem desse esquema e nada fazem para parar o policial corrupto.

Perspectivismo Nietzschiano. Bem e mal são pontos bastante flutuantes, talvez até irreais. Não era considerado mau espancar uma mulher, até poucos anos atrás, se ela fosse sua esposa. Até se dizia que em briga de marido e mulher ninguém deveria meter a colher.

Sempre me disseram que a polícia matava os bandidos porque os bandidos começaram a matar a polícia. E essa versão dos fatos é absoluta na polícia, só um louco ousaria contestar tal afirmação. Mas, como diria Nietzsche: Há sempre alguma loucura no amor, mas há sempre um pouco de razão na loucura.

Eu fui procurar essa razão.

Existem algumas linhas de análise sobre o comportamento dos indivíduos quando juntos com muitas pessoas com pensamentos e desejos mais ou menos alinhados. Nestes contextos, surge um comportamento coletivo, como se aquelas pessoas se conectassem umas com as outras. E o comportamento das forças de segurança deve ser diferenciado nesses casos, pois a ação da polícia pode gerar uma reação negativa e com resultado negativo.

Por exemplo: Quando há uma reunião pacífica de pessoas, não é interessante que um grande número de policiais fique em volta da aglomeração, pois isso pode dar a impressão de desafio. E a aglomeração, por sua vez, sente-se fortalecida pelo número. E o mero fato de uma força de segurança se mostrar em grande número e com certa agressividade pode dar vazão a um episódio de violência.

É o famoso fenômeno do portão para o cachorro. Muitos cães se mostram extremamente agressivos quando um cão se aproxima do portão de suas residências. Eles costumam latir, rosnar e se mostrar prontos para o ataque. Entretanto, se você abrir o portão muitos cães não atacam. Aquele muro que era uma agressão, também era uma proteção. A aglomeração de pessoas tem o mesmo efeito: ela se torna um escudo para o lado mais agressivo que o indivíduo está disposto a mostrar.

Percebemos nos casos de aglomeração que a polícia não é meramente uma espectadora, mas um agente capaz de influenciar o comportamento da massa com suas atitudes.

E se o mesmo fenômeno estiver ocorrendo em todas as ações policiais?

E se o primeiro policial que executou um cidadão em uma comunidade ensinou aquela comunidade a se defender matando o policial?

E se a ronda agressiva da polícia na comunidade está servindo de portão e de vácuo para que a agressividade contra a polícia floresça?

E se a forma com que a polícia age seja a maior causa da péssima segurança pública do país e dos altos índices de homicídio?

Não estou afirmando. Estou apenas expandindo o conceito bíblico de “fazei prova de mim”.

E eu já disse que a verdade é para corajosos.

Coragem. Isso está em falta nas polícias.

Existem várias lições que se aprende ao ingressar em uma polícia militar, mas certamente a mais importante é: ser covarde.

O policial aprende a ver as coisas acontecendo de maneira errada e a ficar calado. Os conceitos de covardia e coragem são invertidos.

É como se fosse corajoso o policial capaz de enfiar alguém dentro de uma câmara de gás para que esta pessoa morra, enquanto é covarde o policial que se nega a ligar a câmara de gás.

Cria-se o delírio de que o policial corajoso é o que executa um ser humano, o que tem coragem para matar alguém que não tem nenhum meio de reagir ou se defender. Enquanto é covarde o policial que cumpre a lei e não executa uma pessoa, mas só atira em legítima defesa.

O policial que faz a própria lei, um Moro de farda, é corajoso, já o policial que cumpre a lei é frouxo.

O policial que desfere um tapa em um adolescente algemado é corajoso, o que o conduz no banco de trás da viatura e sem algemas é covarde, tem medo da justiça, quer agradar juiz.

O policial que denuncia os oficiais que assediam e abusam de policiais femininas é covarde, joga contra o time. Já o que vê tudo e mostra fidelidade ao comando é corajoso.

O policial que atira com munição menos letal contra professores em um protesto é corajoso (nunca entendi por que consideram a classe docente tão perigosa. Certa vez vi um major em pânico quando chegaram dois professores sindicalistas em um evento), já o policial que se nega a cumprir uma ordem absurda, e se lembra que o seu patrão é o povo, é covarde. Corajoso é o policial que tem a capacidade de atirar contra uma professora de 50 anos segurando um cartaz (equipamento de alta periculosidade).

O policial corajoso nega todos os erros da polícia e afirma que é tudo culpa da população, pois mandaram os criminosos para cá durante a colonização (recomento o livro: todos contra todos, do Leandro Karnal). Já o covarde é aquele que acha que a polícia também tem culpa no cartório, aquele que denuncia os erros.

O policial que vê outro corrompendo e fica quieto é corajoso e companheiro, o que denuncia é covarde e joga contra o time. E ainda leva a culpa, já que é por causa desses que a população fica com uma imagem ruim da corporação, já que se ninguém dedurasse os erros da polícia a população acreditaria que a polícia é um órgão composto só por santos.

Pausa para a falácia das falácias: a organização militar. O povo ainda acredita que sistemas militares no Brasil são organizados. Se eles soubessem das inúmeras vezes em que as polícias compraram o fardamento errado porque fizeram uma licitação deficiente; do desespero anual porque a corporação esqueceu da operação verão que ocorre todo verão e não preparou nem alojamentos, nem diárias, nem efetivo, nem previsão de gastos; que o exército tem munição para guerrear por uma hora; que a ditadura aumentou a dívida externa do Brasil em mais de 30 vezes…

E entre coragens e covardias eu sempre ouvia a mesma história: Martelzinho, a polícia é assim há uns 100 anos, e vai ser assim depois que você for embora. Vai curtir tua vida, o sistema não muda.

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E isso me lembrou do filme Patch Adams. O filme retrata a história de um médico que tratava seus pacientes de maneira humana. É um filme bastante conhecido, não irei resumir a história. Mas a parte que me veio a memória é a cena na qual a companheira do médico morre.

Ela se encanta pelo jeito dele de atender os pacientes e decide fazer o mesmo. Em um dos atendimentos residências, ela é assassinada por um dos pacientes.

É uma cena difícil de assistir e de entender a mensagem. Ela parece dizer que não vale a pena fazer o bem, que é muito arriscado. Que, no final, ela perdeu a vida e que se tivesse sido uma médica fria como os outros talvez estivesse viva.

Mas a beleza da cena está aí. Ela fez o que achava correto. Ela teve coragem. Só se tem coragem quando há um risco.

Marielle foi corajosa. Queria eu que ela estivesse viva, mas não queria ela calada. Jamais calada. E a morte não calou Marielle. Ela segue falando através de nós.

Isso é coragem. É fazer o que é certo, mesmo com os riscos. E tenha certeza de que a coragem é contagiante.

E a natureza é tão fantástica que o Brasil está usando a enorme dejeção que Bolsonaro e sua ideologia tem derramado para adubar grandes movimentos de mudança. As artes florescem lindas e combativas com artistas fantásticos como Lei Rua Neles, Quebrada Queer, Psicopretas, não recomendados, Bia Ferreira e outros. A mídia abre mais espaço para aqueles que estão falando faz tempo, como o Emicida, o Criolo, John Lineker, Francisco el Hombre, etc.

Não sabemos onde o caminho nos levará. Mas não deixaremos de caminhar.

Martel Alexandre del Colle é policial há 10 anos. É aspirante a Oficial da Polícia militar do Paraná.

 

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