Eu sou porque NÓS somos: O horror à democracia na contemporaneidade
Quinta-feira, 25 de abril de 2019

Eu sou porque NÓS somos: O horror à democracia na contemporaneidade

“Estamos em um momento em que temos medo do outro. Mas talvez o mal sejamos NÓS. Talvez o monstro para quem estamos olhando tenha a nossa própria face”

Imagem: cartaz de divulgação do Filme Nós (Us)

Por Marco Aurélio da Conceição Correa 

 

Nós (2019) é o segundo filme do diretor estadunidense Jordan Peele. Seguindo o reverberar de seu filme anterior, Corra! (2017), com esta produção o diretor conquistou um estrondoso sucesso de crítica e bilheteria, quebrando recordes nos Estados Unidos.

Nós tem um enredo mais ambíguo do que Corra! que tratava diretamente sobre a questão racial. No seu segundo filme, Peele ataca mais amplamente a sociedade contemporânea.

A sinopse de Nós se resume em: uma família decide passar um final de semana em sua casa de praia quando são confrontados por eles mesmos em uma versão duplicada.

Não me cabe tentar explicar as inúmeras interpretações, referências e mistérios presentes no filme – estas já foram debatidas exaustivamente pela internet. O foco é pensar de que forma a narrativa de Nós provoca reflexões sobre nós mesmos e sobre a nossa forma de viver em sociedade nos dias de hoje.

A figura central do filme, os duplos, são o ponto chave e de partida para os devaneios sobre Nós. Repletos de interpretações e possibilidades, os duplos são a síntese do momento dos questionamentos políticos sobre a alteridade. Costumamos sempre aportar os erros e os motivos de nossas dificuldades à figura do outro, mas o quanto questionamos nossas próprias atitudes e posicionamentos?

É o que apontou a protagonista Lupita Nyong’o em entrevista:

O monstro sempre é o Outro: a outra cultura, o outro país, o outro espectro político, a outra religião, o outro gênero.

É evidente que vivemos em uma sociedade com problemas, mas pouco atribuímos esta culpa a nossas atitudes. Como complementa Lupita:

E quanto ao monstro que toma a forma do homem no espelho e a escuridão que nós, humanos, praticamos e temos dentro de nós de maneira bem natural? Frequentemente essa escuridão passa batida, sem reconhecimento, ignorada. E quando isso acontece, temos que projetá-la externamente e torna-se a destruição com que nós precisamos lidar.

Exemplo disto é o caso do crime perfeito do racismo à brasileira afirmado pelo antropólogo Kabenguele Munanga: conhecemos a existência do racismo mas ninguém se declara racista, mesmo perpetuando estas discriminações.

O contato com nós mesmos através destes duplos desperta o medo que temos de nos confrontarmos. É a reflexão que Jordan Peele quer provocar com seu filme, o incômodo do encontro e seu medo inerente:

Com Nós, eu só percebi que precisava fazê-lo quando entendi que havia uma parte suprimida da conversa sobre cultura que eu poderia abordar. Essa parte suprimida é a nossa falta de habilidade de apontar o dedo para nós mesmos, para nossas facções. Seja com a família, o país, ou mesmo com nós mesmos enquanto indivíduos, nossa própria responsabilidade. Estamos tão habituados a apontar para fora […] que precisamos investigar em nós mesmos e descobrir qual é a nossa parte em todo o mal.

 

Crítica social

Apesar de não ter uma crítica tão aberta à sociedade contemporânea, Nós, mesmo se tratando de um filme de terror, não é mero entretenimento vazio. O filme é repleto de alfinetadas por debaixo dos panos. A ideia de pavor ao outro – ou a si mesmo – levantada pelo filme é reflexo dos tempos de intolerância que vivemos. Como fala o diretor:

Estamos em um momento em que temos medo do outro, seja este outro o misterioso invasor que pode nos matar ou tomar nosso emprego, ou a facção que não mora perto de nós e que votou diferente nas eleições. Talvez o mal sejamos nós. Talvez o monstro para quem estamos olhando tenha a nossa própria face.

A falta do auto-olhar é um dos motivos de vivermos em contexto político assim. Quando pensamos no conceito de democracia, só pensamos em nossos próprios direitos, esquecendo daqueles que não tem os privilégios de poder reivindicar seus direitos.

Jacques Rancière, em seu Ódio à democracia (2014), afirma: “não vivemos em democracias” (p. 94) [1]. Apesar da crueza do autor em sua constatação, é de se entender que o estado democrático de direito não funciona plenamente em sociedades com grandes índices de desigualdades.

É o caso de Nós. Com o mundo subterrâneo dos duplos, o filme aborda questões sobre privilégio: enquanto os originais estão no mundo superior vivendo suas vidas plenamente, metaforicamente seus duplos estão nos submundos vivendo uma vida emulada sem nem um pouco de privilégios.

Similarmente, nas democracias mundiais, nem todas as pessoas tem o direito de ter uma família estável, de viajar, de consumir. Nem os privilégios do “reino do consumidor narcisista, que varia suas escolhas eleitorais tal qual seus prazeres íntimos” colocando em risco o bem estar de milhões de pessoas (RANCIÈRE, 2014, p. 35) [2] – privilégios que ambas as famílias principais do filme possuem.

Temos noção disso. Sabemos que pessoas em condições desumanas vivem próximas a nós, porém nossa condição humana foi moldada em um estado de egoísmo individualista que não nos permite ter empatia com o próximo. Rancière coloca: “os direitos dos homens são os direitos dos indivíduos egoístas da sociedade burguesa” (2014, p. 28) [3] e ainda lembra que “a democracia é o regime da igualdade e podemos concluir: os indivíduos egoístas são os homens democráticos (2014, p. 28) [4].

 

Se não há diferenças, não há relações

As relações com o outro são a base que constitui as nossas identidades. Eu sou porque nós somos, como conta o provérbio africano Ubuntu. “Se não há diferenças, não há relações” (GLISSANT, 2005, p. 115-116). Na filosofia das diferenças de Deleuze, encontramos uma reflexão que nos permite concluir esta afirmação.

“Ora, então a diferença é o mais simples, o que está no começo. Um mundo entendido desse ponto de vista não é um mundo que tem uma origem ou essência unificada a partir de um ponto inicial. O mundo das diferenças pressupõe a eternidade das diferenças. É com elas que se começa, não são uma consequência, mas um princípio. Então, a filosofia de Deleuze impõe uma conversão de nossos hábitos de pensar: entender a origem não como uma unidade que, posteriormente, se diferencia, mas como um sistema de diferenças que produz diferenças como consequência necessária. Sendo assim, impõe-se a seguinte reflexão: não é a partir do uno e do idêntico que aparecem as diferenças como simples desvios ou resistências ao movimento do mesmo. Ao contrário, a identidade, as semelhanças e as oposições são efeitos da diferença. Ela é o mais simples porque vem em primeiro lugar, tudo que é simples ‘difere por natureza'”. (CARDOSO JR, 2011, p. 4) 

A recusa do princípio básico do movimento da diferença provoca a manutenção das elites e seus privilégios. Elites estas que são fundadas em cima de relações de poder contrárias à diferença, explorando aqueles que são considerados inferiores, ou então desumanos, como os duplos de Nós. E são estas próprias elites que regulam e sustentam o princípio desigual das democracias atuais. Assim é fácil constatar que “os males que sofrem nossas ‘democracias’ estão ligados em primeiro lugar ao apetite insaciável dos oligarcas” (RANCIÈRE, 2014, p. 139).

A grande reviravolta do filme é perceber que estávamos “torcendo” pro lado errado desde o princípio, quando descobrimos que a protagonista Ade na verdade era seu duplo trocado. Então percebemos o quanto os duplos semelhantes sofrem. Assim, começamos a olhar para nós mesmos, a questionar o quanto agimos de maneira egoísta. Este auto-olhar é o que bell hooks vê como reviravolta: “apenas mudando coletivamente o modo como olhamos para nós mesmos e para o mundo é que podemos mudar como somos vistos” (2019, p. 39).

Na concepção epistemológica e filosófica de alguns povos bantos do sul da África, o conceito de Ubuntu tece essa ideia de reconhecimento da necessidade do outro para o bem estar individual e coletivo. O filósofo Renato Noguera sintetiza o princípio do Ubuntu:

“Ubuntu pode ser traduzido como ‘o que é comum a todas as pessoas’. A máxima zulu e xhosa, umuntu ngumuntu ngabantu (uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas) indica que um ser humano só se realiza quando humaniza outros seres humanos. A desumanização de outros seres humanos é um impedimento para o autoconhecimento e a capacidade de desfrutar de todas as nossas potencialidades humanas. O que significa que uma pessoa precisa estar inserida numa comunidade, trabalhando em prol de si e de outras pessoas” (2012, p. 148).

Assim, temendo as diferenças, como acontece atualmente com o crescimento do conservadorismo, agimos em prol de um movimento contrário ao agir democrático. Se semeamos o ódio e o medo, colheremos pobreza e violência. Precisamos rever nossas atitudes e nossos privilégios, pensando sempre empaticamente no outro. O auto-olhar e o respeito ao outro e às diferenças é um movimento em prol da civilidade democrática, onde todos tem a ganhar, ao invés do movimento de horror ao diverso que sempre leva à guerra entre Nós.

Marco Aurélio da Conceição Correa é graduado em pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 

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Notas:

[1] RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia. Boitempo. São Paulo. 2014.
[2] RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia. Boitempo. São Paulo. 2014.
[3] RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia. Boitempo. São Paulo. 2014.
[4] RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia. Boitempo. São Paulo. 2014.
[5] GLISSANT, Édouard. Introdução a uma poética da diversidade. Trad. Enilce Albergaria Rocha. Juiz de Fora: UFJF, 2005.
[6] CARDOSO JR, Hélio. R. Diferença e educação: um diálogo com Hélio Rebello Cardoso Jr. Revista do Difere, v. 1, n. 2, dez/2011.
[7] RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia. Boitempo. São Paulo. 2014.
[8] HOOKs, bell. Olhares negros: Raça e representação. Editora Elefante, 1º ed. 2019. 
[9] NOGUERA, Renato. Ubuntu como modo de existir: elementos gerais para uma ética afroperspectiva.Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), v. 3, n. 6, p. 147-150, fev. 2012.
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