Para se salvar no país que se implode, a tática é puxar o gatilho
Sexta-feira, 26 de abril de 2019

Para se salvar no país que se implode, a tática é puxar o gatilho

Por ingenuidade ou mau-caratismo, as prioridades deixam de ser. O Brasil subdesenvolvido passou a país em desenvolvimento e depois de tanto nadar, não encontrou nada, no meio do mar. Basta dizer « foi morto pelo tráfico » ou « suspeita-se de ligação dos indivíduos com o tráfico » ou ainda « na tentativa de combater o tráfico » para que um crime se torne fatalidade e nós o esqueçamos. E continuamos nadando no mar infértil do qual não fomos programados para sair.

Maria Rita Kehl, fala de Patologias Sociais e dentre elas, « da incapacidade que a população tem de se indignar ». É menos doloroso encontrar uma justificativa construída em cima de um inimigo previamente condenado, do que cavar em busca de verdade. Exceção que não foge a regra, Wania Moraes em fevereiro do ano passado perdeu seu filho, vítima de bala perdida durante um confronto entre PM e traficantes, na favela da Maré. Durante o enterro do filho, Wania disse « Quero que Deus abençoe quem atirou no meu filho. Estou feliz porque sei que ele está perto de Deus ».

A prioridade, pós midiatização do caso, foi analisar friamente o desabafo de dor de uma mãe: alienação, mecanismo de defesa, fanatismo religioso. Esquecendo que, sendo à Wania vetado o direito à indignação, ela buscou conforto na justiça divina. E há clareza em seu discurso que é produto da escola do não pode: preto, pobre e favelado não pode questionar ação policial, porque quem denuncia PM, morre também. E nomear o PM que puxou o gatilho e disparou a bala que tirou a vida de seu filho, não o traria de volta.

Falar do des-preparo das Forças Armadas – civil e militar – no Brasil, é imprescindível. Da polícia mais violenta do mundo, que só exerce direitos mas negligencia deveres. Essa que mata sem pautar a vida, sem saber que suas palavras de ordem: obediência, disciplina e dever, configuram um estatuto que visa adestrar o agente para que ele sirva à um propósito coletivo sem questioná-lo: Oitenta disparos são mais que um erro.

E aqueles que, por ingenuidade acreditam nas palavras de ordem como sinônimo de probidade, serão forçados no futuro a atuar como puppet ou mau-caráter: é preciso conhecer o sistema para mudá-lo, não existe lugar de isenção. E como tem ingênuo virando puppet ou mau-caráter e muito ex-isento tentando mudar o sistema, o número de mortes, suicídio e depressão entre eles cresce e deveria ser alarmante para o governo. Entretanto, investir na saúde mental não é prioridade, lucidez é um processo emancipatório e agente de segurança pública é corpo-máquina.

Mas o que fazemos, do nosso direito à indignação?

Ao negligenciar que a incapacidade de sentir empatia é o que configura a inabilidade de gerenciar prioridades, criamos ameaças que respondemos com ódio, mantendo um ciclo de dominação. Elegemos um presidente com Síndrome de Don Quixote que combate seus moinhos de vento com Necropolitica* ditando quem vive, quem morre e quem tem Lugar de Fala** nesse país. Contrariando àqueles que compactuam de sua loucura mascarada em 280 caracteres de fake news e a escola do não pode, o excedente agora denuncia a limpeza racial « eu pedi socorro, eles ficaram de deboche » (Luciana Nogueira, companheira de Evaldo, morto pelos 80 disparos).

Pra se salvar no país que se implode, a tática é puxar o gatilho.

 

Tassiana Frank é formada em Letras e mestranda pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS) em Paris, onde reside.

 

Leia mais:

Em Porto Alegre, o avanço da iniciativa privada sobre patrimônio público atinge até praças e parques

O entreguismo cínico dos imóveis públicos

Parque Minhocão: um curativo verde sobre a cicatriz da ditadura

102 parques planejados e um parque escolhido – Por que o Minhocão?


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

*Necropolítica, filósofo camaronês Achille Mbembe.
**Lugar de Fala, filósofa brasileira, Djamila Ribeiro.

Sexta-feira, 26 de abril de 2019
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]