O que antecede à história não seria a pedra empurrando Sísifo?
Segunda-feira, 29 de abril de 2019

O que antecede à história não seria a pedra empurrando Sísifo?

As propostas de Bolsonaro dizem “é nossa vez de narrar a história”. Ora, que narrativa seria essa ao reduzir os cursos de humanas apenas a quem podem pagar?

Imagem: presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Educação Abraham Weintraub. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Por Marcos V. Gontijo

 

A notícia de que o governo Jair Bolsonaro, junto ao já segundo ministro da Educação, Abraham Weintrab, pretende cortar o financiamento dos cursos de filosofia e sociologia — como se humanas se reduzissem apenas à esses dois campos — me obriga a fazer, por angústia, algo que detesto: discutir o ofício de historiador. No entanto, evitarei entrar nos quiprocós da área. O objetivo deste texto, caro leitor, é apresentar algo que chamamos de “disputa narrativa” e demonstrar que o não financiamento de tal área apenas significa uma elitização, isto é, uma homogeneização de raça, de lugar social, de sexo e de gênero da área.

“Papai, então me explica para que serve a história?” Inicia seu livro, interrompido pelos nazistas, o historiador francês Marc Bloch. Apologia da história: ou ofício do historiador desperta reverência não só por ser uma das primeiras obras a ser apresentada ao jovem historiador e historiadora, mas pela história que carrega. Bloch, capturado pela Gestapo por fazer parte da resistência francesa e lutar contra o domínio nazista de Vichy, foi fuzilado em 1944, deixando a obra inconclusa. Apologia da história viria à luz cinco anos depois.

Para mim, particularmente, é uma demonstração de que o ofício de historiador e do profissional de humanas não mede esforços no presente. É imprescindível que fique claro para as próximas gerações que o passado é algo delicado e perigoso com que mexer e para fazê-lo não basta conjugar o verbo no passado, é necessário repensá-lo a luz do presente, repensá-lo a partir daquilo que a sociedade traz como problema, anseio, medo e sonho. Sim, o passado não é algo imóvel ou sequer acessível em sua integridade, porém ao dizê-lo não significa negar a existência de fatos dados — inclusive ainda vivos em suas testemunhas primárias — como hoje andam fazendo alguns.

Nesse sentido, os cursos de humanas no Brasil, pelo menos nos últimos quarenta, cinquenta anos, vêm colocando sob prova perspectivas engessadas e problemáticas acerca do passado brasileiro: a vida privada; a resistência e confrontos nos espaços públicos; o indivíduo escravizado como sujeito dotado de ação, vontade e capacidade de luta; a mulher como ser histórico, evidenciando as relações de gênero machistas e a opressão das capacidades intelectuais, braçais, emocionais e corporais das mulheres ao longo do tempo; a exposição de um projeto elitista branco, patriarcal e ocidental frente à pobreza, ao popular e ao indígena etc.

Por fim, vivemos nas últimas décadas um questionamento preocupante e constante acerca do ofício do historiador “se servimos e como servimos ao poder?” Ao meu ver, a história deu passos para abandonar este tipo de Estado que deseja o séquito bolsonarista, demonstrando as contradições do “ser nacional” e expondo os crimes realizados pelas instituições contra a própria população em defesa de interesses nacionais, aliados quase sempre aos estrangeiros.

Desse modo, ao contar um passado de baixo para cima, a história e as humanas em geral desagradam a quem? As medidas propostas pelo governo Bolsonaro e seus ministros de currículo questionável não estão dizendo nada mais do que “é a nossa vez de narrar a história”. Ora, e que narrativa seria essa ao reduzir o ingresso das pessoas aos cursos de humanas apenas àqueles que podem pagar por eles? O desejo de tal medida, querido leitor, é ver os cursos de humanas como espécies de seminários a la século XIX, repletos de meninos jovens, brancos e imberbes, recém banhados em leite de cordeiro, frescos para contar o Brasil do alto de suas mansões, senão do baixo de Miami.

Eis a disputa narrativa que vivemos, e que estamos claramente a perder. Os argumentos da genialidade ervilhesca dos carvalhistas não são novos e muito menos complexos: retiraram dos armários a fantasia comunista, que encolhera com o tempo, e andam vestindo essa roupagem tamanho PP em quem bem entender. Basta se posicionar, como eu, a favor da pluralidade, da diversidade, da igualdade, da distribuição de renda, dos direitos humanos ou na própria luta contra a pobreza (que eu em algum momento acreditei de pé junto que era a tópica do catolicismo ou qualquer religião judaico-cristã, ressalvas sejam feitas) que você já está aí, com os botões a pular dessa velha, carcomida e ridícula fantasia comunista.

A história que eles pretendem contar não tem espaço para os negros, a não ser sob a pecha de escravos e malandros do samba; não tem espaço para as mulheres, a não ser quando a pia pressiona as suas barrigas; não tem espaço para os gays, a não ser quando para lembrar dos perigos do HIV; não tem espaço para as transexuais, a não ser quando ridicularizadas em algum quartinho de prostíbulo ou esquina de avenida — aliás, quase sempre atentando ao “pai de família” —; não tem lugar para o pobre, a não ser quando engraxa os sapatos do tão admirável homem de negócios.

Por fim, peço perdão pela exaltação e concluo com um pedido e uma reflexão: não deixemos que a luta abandone nosso norte nunca; e, para finalizar, cito o célebre George Orwell em sua obra 1984: Who controls the past controls the future; who controls the present controls the past (Aquele que controla o passado controla o futuro; aquele que controla o presente controla o passado). A questão é por qual passado e por qual futuro lutar, pois o presente…

Marcos V. Gontijo é graduado em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e mestrando e bolsista CAPES pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)

 

Leia mais:

.
.

O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Segunda-feira, 29 de abril de 2019
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]