O que nos dizem os relatos dos empregados da Livraria Cultura?
Segunda-feira, 29 de abril de 2019

O que nos dizem os relatos dos empregados da Livraria Cultura?

“Ele falou que a loja era um chiqueiro e que nós éramos porcos”; “Um salário de 5 mil e quinhentos foi pra 2 mil” relatam ex-funcionários da Livraria Cultura [1]

Por Ana Gabriela de Melo Primon e Francisco José Silva Barros

 

No último dia 21 foi publicada pelo site Passa Palavra a primeira parte de uma entrevista realizada com ex-empregados da Livraria Cultura. O texto se tornou viral e o interesse pela continuação dos relatos era nítido na caixa de comentários. Muitos cobrando a sequência e o desenrolar da história. Em 26 de abril foi lançada a segunda parte, detalhando as ações realizadas pelos funcionários em reação às condições impostas.

“Em 2012, parece que o Itaú [2] entrou como acionista da livraria. Ninguém sabe muito bem – porque eles nunca deram detalhes –, mas especula-se que foi isso: o Itaú entrou como acionista e tinha direito a uma parte da empresa. E, a partir disso, o Itaú começou a implementar mudanças. Na primeira delas, ele falou: ‘olha, não faz sentido pagar pra um vendedor 5 mil reais por mês’ – na época os vendedores ganhavam muito bem – ‘não faz sentido você pagar um salário de bancário pra um vendedor, e a primeira coisa que vocês vão fazer é dar um jeito de mudar isso'”

Diz um dos relatos de ex-funcionários da livraria cultura [3].

Os chocantes relatos são do assédio moral vivido entre os anos de 2013 e 2016, aproximadamente, e de como um grupo de trabalhadores travou uma verdadeira resistência às práticas abusivas perpetradas pelo alto escalão da empresa.

Ao final da primeira parte da entrevista é sugerida a leitura de outros dois textos: uma denúncia e um relato, igualmente impressionantes, nos quais se identifica a existência de assédio moral organizacional e de uma perseguição arquitetada a quem demonstrasse oposição ao modus operandi da empresa.

A leitura desse verdadeiro “combo” que denuncia as violações aos direitos mais básicos do trabalhador gerou, além de um grande mal estar, um sem fim de reflexões. Os relatos contribuíram para que outros ex-empregados se sentissem à vontade para contarem suas experiências vividas na Livraria.

Diante da repercussão das denúncias a Livraria Cultura emitiu um simples comunicado em pouco menos de 10 linhas. “Estamos muito tristes com as declarações que tem sido feitas sobre nossa empresa.” Nota-se que a tristeza não se dá pelas práticas realizadas no interior da empresa, e sim pelas declarações. Nada a acrescentar sobre o teor das palavras presentes nos relatos e denúncias. “Nossa equipe é maravilhosa e nossas lojas são lindas.” Palavras vazias diante de uma situação tão complexa.

Aqui, gostaríamos de expor suscintamente três delas, que consideramos fundamentais, sobretudo dentro do momento que estamos vivendo no âmbito das relações de trabalho.

A primeira delas é a que nos leva a crer que, de fato, falhamos como seres humanos. Quando tratamos da relação capital x trabalho é comum despersonificar esses dois conceitos, principalmente o capital, que é posto como uma entidade. Distanciam-se das Marias, Clarices, Josés e Antonios. Pessoas com gostos, sonhos, famílias, anseios, pensamentos e afins. Em muitos momentos, os conceitos se distanciam dos verdadeiros sujeitos, as pessoas.

Mas não se pode esquecer que o capital tem nome e sobrenome, e, nesse caso era conhecido e temido pelos empregados da livraria: os entrevistados relatam que quando a perseguição começou, o CEO passou a frequentar a loja periodicamente praticando verdadeiro terrorismo no ambiente de trabalho, já muito prejudicado. Não é preciso muito conhecimento do mundo corporativo para imaginar de quem emanaram as ordens para que as médias lideranças realizassem verdadeira caça às bruxas que pudessem “justificar” as absurdas demissões por justa causa efetivadas. A centralidade do trabalho na vida dos indivíduos tem se mostrado cada vez mais intensa. Assim como as consequências deste fato. E a forma como se estruturam as relações laborais causa um grande impacto na vida dos trabalhadores.

Um segundo ponto que merece atenção diz respeito à tutela dos direitos desses empregados; aqueles que tiveram a “coragem” de procurar a Justiça do Trabalho – e diga-se coragem porque processar o empregador, ainda hoje, é visto como uma afronta – tiveram nela a única saída para buscar a mínima reparação pelos direitos violados. Em tempos de extinção do Ministério do Trabalho e Emprego (agora com status de Secretaria) e discursos de desqualificação da Justiça do Trabalho, também ameaçada de extinção, ler as histórias vividas por esses trabalhadores deixa evidente a que interesses atende o soterramento dos órgãos de proteção ao trabalhador.

A terceira e última questão que gostaria de suscitar é a da resistência organizada pelos trabalhadores prejudicados, que deve servir de exemplo a toda a classe trabalhadora para resistir ao sucateamento das relações de trabalho que tem sido normalizado nos dias atuais e sustentado, em um contexto de crise econômica, pelo medo do desemprego. Na segunda parte do relato, são evidenciadas algumas das táticas utilizadas pelos trabalhadores da Livraria Cultura. Chamado de “Pacto de Mediocridade”, estas práticas lançavam mão de várias formas de resistência ao trabalho sucateado e relações cada vez mais tensas entre empregadores e empregados. Desde inúmeras perguntas aos responsáveis pelas reuniões e o trabalho à marcha lenta, passando até a combinar o uso de roupas vermelhas para o próximo dia de trabalho. Estratégias que podem ser consideradas como terrorismo poético também foram praticadas.

A história nos mostra que só a luta muda a vida. Nos momentos mais complicados e tensos, afloram-se mais laços de solidariedade. Aos empregados da Livraria Cultura, que não tiveram garantido o seu direito ao trabalho decente, os mais sinceros sentimentos pelos traumas sofridos e os maiores agradecimentos pelo exemplo dado na organização da resistência.

Ana Gabriela de Melo Primon é advogada trabalhista associada à AATSP, graduada em direito pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP)

Francisco José Silva Barros é professor no Ensino Médio, graduado em História pela Faculdade de Ciências Humanas e Sociais – Franca (SP), Universidade Estadual Paulista (UNESP)

 

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Notas:

[1] relatos retirados da matéria original do site Passa Palavra.
[2] Segundo reportagem da época, a Livraria Cultura vendeu 25% de suas ações para o fundo Capital Mezanino, da gestora Neo Investimentos, em 2009. A associação ao Itaú acontece porque uma empresa que pertence ao banco presta serviços de administração para a Neo Investimentos.
[3] relato retirado da matéria original do site Passa Palavra.
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