Para que precisamos das humanidades?
Segunda-feira, 29 de abril de 2019

Para que precisamos das humanidades?

O governo Bolsonaro compreende, ao seu modo, a função da educação. É por isso que busca fragilizar as unidades acadêmicas de Filosofia, Sociologia e, como colocado em parênteses pelo próprio Jair Bolsonaro, as humanidades. É sempre bom lembrar que o leque das humanidades abrange muito mais campos disciplinares do que os citados pelo capitão reformado: História, Psicologia, Letras, Geografia, Museologia, Arquivologia, a Ciência Política, as Relações Internacionais, e tantos outros campos, incluindo aí a Administração e a Economia. É relevante neste momento histórico do país lembrar que mesmo a Economia não se restringe a cálculos numéricos, implicando também concepções de sociedade, vida humana e relações sociais as mais diversas.

Por trás de um discurso tecnicista, de uma suposta promoção da escolarização útil à economia do país, reside um projeto de deslegitimação das humanidades, como se pudéssemos equiparar o conhecimento em Ciências Humanas à mera opinião sobre a condição humana, a sociedade, a política, a história. Se engana o governo, assim levando também ao erro de julgamento parcela da população. Estamos em um momento histórico em que o mentor intelectual de Jair Bolsonaro, no que se refere às humanidades, é um sujeito que sequer dispõe de formação científica, embora se afirme e seja reconhecido como filósofo. Olavo de Carvalho é um exemplo danoso, pois não apenas legitima o senso comum como equiparável à ciência, mas sua existência em si promove a compreensão de que a educação não seria necessária, fragilizando seu status como direito social para todos os brasileiros e brasileiras. Se podemos emitir nossas opiniões como se verdades incondicionais fossem, para que precisaríamos das Ciências Humanas?

Precisamos das humanidades para garantir que não consentiremos com dogmatismos no que se refere às concepções de humanidade, de sociedade, de política, de história. É exatamente este o limiar que diferencia a ciência do senso comum: a ciência se faz em comunidade, regida por regras de inteligibilidade sobre a validação do conhecimento, mas também movida por meio das interpelações sobre os limites das asserções que se propõe como leituras válidas sobre a realidade. Isso significa que a dúvida, o questionamento, mas fundamentalmente o dissenso, são marcas do pensamento científico. As transformações epistemológicas se realizam não apenas a partir do impacto de teses de outros campos e abordagens teóricas, mas também por meio do questionamento interno às próprias linhas de pesquisa. Cientistas se colocam em questão, reconhecem os limites de suas asserções e buscam novas apostas retóricas e metodológicas inclusive como decorrência do seu próprio processo investigativo, para além das interpelações de pesquisadoras de outras abordagens.

As humanidades nos permitem aprender que o pensamento é vivo, que requer justificação, que implica delimitar critérios de objetivação. Neste sentido, as humanidades movem a reflexão crítica sobre a realidade por meio da eleição do que seja relevante conhecer, mas também por meio dos meios pelos quais se busca evidenciar uma dada condição humana, social, política, histórica. Precisamos das humanidades para não termos tanta certeza sobre o mundo, sobre as culturas, sobre política, sobre humanidade. Para que possamos inventar melhores mundos, considerando de forma mais justa as condições sociais, humanas, geográficas, históricas, políticas. Martha Nussbaum[1], filósofa feminista estadunidense, afirma que precisamos das humanidades para pensar e, consequentemente, para garantir os preceitos democráticos.

O processo de escolarização, e mais especificamente a escolarização de nível superior, não deve ser entendido como sinônimo de habilitação técnica para o cumprimento de funções laborais e acesso ao mercado de trabalho. A experiência acadêmica deve favorecer, fundamentalmente, a faculdade do livre pensamento, com distinção em relação ao senso comum. Saber considerar o contraditório, justificar as próprias asserções sobre uma dada realidade, explicar por se adotaram tais medidas para conhecer e afirmar sentido sobre um fenômeno: a formação acadêmica ensina a pensar com base em evidências, mas também sem cair no afã narcisista da imposição dogmática, acolhendo a possibilidade do reconhecimento dos limites das próprias convicções diante de argumentos que os questionem justificadamente. É neste sentido que Nussbaum também afirma que a formação em humanidades (inclusive na educação básica) é fundamental, pois nos instrumentaliza para a experiência democrática do dissenso e da pactuação de interesses mediante acordos razoáveis.

Ainda, a historiadora feminista Joan Wallach Scott[2] nos ajuda a compreender que há uma diferença significativa entre a liberdade acadêmica e a livre expressão. Professora/es em universidades não estão livres para expressar dogmaticamente suas convicções pessoais, pois devem ensinar estudantes a livre pensar. Isso não significa que docentes sejam neutras e que precisariam ensinar todas as perspectivas disponíveis sobre dado fenômeno. Isso significa que docentes devem se ater ao campo de sua expertise, pois a partir desta posição justificam suas proposições baseadas em critérios compartilhados de validação do conhecimento. O contraditório deve sempre caber na experiência da sala de aula, embora também seja função da docência discriminar entre proposições fundamentadas de acordo com os critérios das ciências daquelas afirmações do senso comum, muitas vezes carregadas de dogmatismo e avessas ao questionamento crítico.

A liberdade acadêmica seria mais um dispositivo de proteção de unidades acadêmicas do que direitos individuais de docentes. Isso porque é na comunidade institucionalizada da academia que se legitima o que é conhecimento, reservando sempre o direito ao contraditório e a abertura para a revisão de teses que encontram seu limite epistemológico a partir do próprio aprofundamento de processos de pesquisa e sistematização do conhecimento. O que Jair Bolsonaro está afrontando, portanto, é a liberdade acadêmica, pois deslegitima áreas de conhecimento, com impacto sobre sua sustentabilidade como processo vivo de construção e reconstrução de representações sobre a realidade. Para Joan W. Scott, a liberdade acadêmica é violada quando instituições sofrem interferência do poder estatal, de modo a perder autonomia e autodeterminação.

Mais preocupante ainda é quando tais ataques à liberdade acadêmica não encontram nas instituições universitárias respostas formais na lógica da afirmação de sua necessária autonomia diante do poder instituído. No caso dos estudos de gênero, os ataques tem sido reiterados, envolvendo omissão de sua afirmação em políticas educacionais, deslegitimação do campo interdisciplinar como pseudocientífico, bem como agressões morais contra pesquisadoras do campo. O abandono de tais pesquisadoras e professoras, entregues à individualidade nas respostas a tais ofensivas, é um claro sinal de conivência das universidades com a violação da liberdade acadêmica.

O respeito à diversidade epistemológica é fundamental para a manutenção da liberdade acadêmica, e portanto a luta em sua defesa nunca deveria ser realizada individualmente, seja por meio de pessoas, seja por meio de campos disciplinares isolados. Esta deveria ser uma tarefa coletiva, de valorização da diversidade epistemológica e de afirmação da possibilidade da convivência diante do dissenso. Se estivermos ensinando, por meio da universidade, que estamos juntas e podemos contar apenas com as pessoas que pensam como nós, nossa missão terá fracassado. Precisamos das humanidades para viver coletivamente a experiência do dissenso não como afronta, mas motor de nossa própria capacidade imaginativa.

 

Tatiana Lionço é doutora em Psicologia e professora da UnB.

 

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________________
[1] Nussbaum, Martha (2015). Sem fins lucrativos – por que a democracia precisa das humanidades. São Paulo: Martins Fontes.
[2] Scott, Joan Wallach (2019). Knowledge, Power, and Academic Freedom. New York: Columbia University Press.

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