“Se tua liberdade é mal-usada pelas autoridades então pega ela de volta”, desabafa policial
Terça-feira, 30 de abril de 2019

“Se tua liberdade é mal-usada pelas autoridades então pega ela de volta”, desabafa policial

É esse o nosso pacto social? Fechar a janela do carro para fingir que assim a criança que pede não passará mais fome? Isso é liberdade? É para isso que precisamos de um Estado?

Imagem: Policial de Tropa de Choque e manifestante compartilham um choro juntos. (Sofia, Bulgária/ 2013)

Por Martel Alexandre del Colle, policial militar 

 

Liberdade.

Não há felicidade sem liberdade.

Quando não foi possível ter toda a liberdade, o ser humano, assustado, renunciou a pequenas partes dela.

Mas a renúncia tinha um objetivo. E o objetivo era a liberdade. Confuso, não? Abandonar a liberdade para ter liberdade.

É por isso que você trabalha quando, na verdade, queria viajar. É por isso que você paga impostos quando queria usar esse dinheiro para outra coisa. Liberdade. É por isso que você não é livre para fazer o que quiser.

Renunciamos a toda a nossa liberdade para termos a garantia de um pouco dela. É por isso que você obedece ao policial, ao juiz. É por isso que você cumpre o que alguns homens brancos escrevem em papéis lá em Brasília ou nas câmaras da sua Cidade ou Estado.

É por isso que parte das horas do seu trabalho vão para sustentar essa estrutura, quando seu desejo talvez seja usar essa parte em um passeio com a família, com os amores da sua vida.

Eu sou policial. Eu já vi muita gente romper o cordão de isolamento para abraçar um corpo frio.

Porque eles te prometeram liberdade. O acordo era que você abandonaria algumas partes da sua liberdade para que eles lhe ajudassem a conservar as partes mais importantes: a sua vida, a sua opinião, a sua humanidade, a sua expressão no mundo como ser sendo. A chance de você viver e compartilhar momentos com seus afetos, com seus amores.

Agora me diz onde está a liberdade de Marielle Franco? Onde está a liberdade de Evaldo Santos Rosa? Onde está a liberdade dos quase 60 mil assassinados/ano no Brasil? E a liberdade das famílias deles?

Que liberdade lhes foi garantida pela renúncia que eles aceitaram de bom grado? Qual liberdade eles estão aproveitando? Qual liberdade você está aproveitando?

Eles eram humanos, cara. Humanos como eu e você. Humanos como sua mãe, seu pai, seus filhos. Como seu marido ou esposa. Como a pessoa que você mais ama nesta Terra. Eles, provavelmente, eram o grande amor de alguém. Como você também é. E os amantes tiveram o coração despedaçado por um afastamento repentino e cruel. E não só isso: um afastamento que podia ter sido evitado. Podia, cara. Nós sabemos que podia. E o que nós fizemos para impedir?

Eu sou policial. Eu já cansei de ver gente de joelhos e gritando com todas as forças o nome de uma pessoa que foi embora. Eu já vi muita gente romper o cordão de isolamento para abraçar um corpo frio enquanto as lágrimas rolavam pelo rosto.

O que estamos fazendo com nós mesmos?

Quanto mais o Estado erra, mais poder você entrega a ele, quando deveríamos fazer justamente o contrário.

Robôs, meus amigos. Robôs que fazem bolo enquanto o sangue esfria na calçada. Máquinas que trocam pneus enquanto a carne de alguém é cravada de projéteis.

O que nos tornamos? Era para isso que precisávamos de um Estado?

É esse o nosso pacto social? É fechar a janela do carro para fingir que assim a criança que pede não passará mais fome?

Por que a gente não chora quando a gente devia chorar? Devia! Morrem com tiros, morrem em acidentes, e nós continuamos. Continuamos sem mudar nada, torcendo para que o próximo tiro não rasgue a nossa carne ou a carne de quem a gente ama.

Ama o teu próximo, cara. Ama ele! Ela ama e ele sangra! Sangra como você, sofre como você, ama como você. Merece a mesma felicidade que você merece.

Se tua liberdade está sendo mal-usada por nossas autoridades então pega ela de volta. Pega ela de volta e seja livre para protestar. Se as relações de trabalho não te dão a liberdade de viajar, de passar tempo com quem você ama, de se sentir seguro, então falte a esse trabalho. Falte até a liberdade voltar. A sua primeira obrigação é amar, a segunda é ser feliz.

Comunique-se! Que seja com um protesto, que seja com um símbolo. Mostra para o vizinho que ele não está sozinho. Que tem mais humanos por aí.

Cadê a sua liberdade? Você que tem medo da noite. Você que tem medo de faltar ao trabalho para protestar contra os absurdos que estamos presenciando. Você está sacrificando sua liberdade para quê?

Para manter a economia girando? Girando para quê se você e os seus podem estar mortos amanhã? Você está sacrificando tudo por nada.

Quanto mais o Estado erra, mais poder você entrega a ele, quando deveríamos fazer justamente o contrário. Pois, quanto mais ele falha, mais você se cala, mais você trabalha, mais você ignora a dor do outro e torce para que ela não seja a sua amanhã.

O seu silêncio é um polegar apontado para cima dizendo que o show pode continuar. E por tudo o que é mais sagrado para você: Aponta esse polegar para baixo. Olha o que estamos vivendo!

Que vida é essa? Em que amanhã alguém vai ser assassinado e não faremos nada?

Você não é mais livre para chorar. Você não é livre para sentir a dor do outro. Você não tem mais o poder que te disseram ter. Dizem que seu voto é importante e que é só isso. Depois que as autoridades estão lá, você não pode fazer mais nada. Mas se isso fosse verdade eles não tentariam criminalizar a sua voz e o seu corpo. Você tem mais poder do que imagina.

Não aceite a posição de escravo. Escravo moderno.

Tudo está errado e você trabalha. Você é um escravo, mas acha errado destruir a senzala. Trabalha para que um dia o seu patrão seja livre e liberte os seus filhos da escravidão, mas você já está velho demais para acreditar que isso vai realmente acontecer. Ou trabalha acreditando que é melhor ser capitão do mato do que escravo, mas a dor de oprimir não é tão simples de se lidar, você deixará de amar, deixará de ser humano, não será mais livre que qualquer escravo, será uma máquina covarde que finge não ver o que acontece há palmos de você. Um cego com visão.

De qualquer forma: você não é livre.

O que estamos fazendo com nossas vidas? Estamos morrendo. Morrendo todos os dias. Abandoando nossos valores, nossos amores, nossos sonhos. Nossas famílias. O que nos tornamos? Incapazes de chorar pela dor dos outros, de sentir. O que nos tornamos?

Que vida é essa? Em que amanhã alguém vai ser assassinado e não faremos nada. Na qual o Estado debochará da sua miséria com um aumento de salário para eles mesmos, enquanto uma criança morre de fome. Morre de fome. Tenta ficar um dia sem comer, faça esse exercício. Depois tenta imaginar uma criança passando por isso por mais tempo e sem a previsão de que essa dor uma hora vai acabar.

Se você é livre, então por que você precisa fingir não ser humano de vez em quando? Por que você pode viver o melhor da vida quase nunca? Por que, tenta me explicar, a gente aceita o amor em gotas enquanto a gente pode ter o oceano todo?

Se parar é o preço, então que se pare.

Vamos viver uma vida inteira escondidos? Uma vida inteira com medo? Uma vida inteira esperando a economia melhorar para começarmos a viver?

Desperta tu que dormes. Pois, no Brasil, a morte faz questão de vir sem dizer a hora, mas repetindo o local, com predileção para certos grupos sociais e com bastante frequência.

Triste não é viver esse momento, triste é saber que podemos mudar isso e estamos acovardados, acomodados, amedrontados.

Põe a mão no coração e leva esse amor para fora, por favor. Lembra de quem você ama. Lembra de quem te ama.

Se parar é o preço, então que se pare. A cortina que não será vendida na HAVAN não pode valer mais que a vida de um ser humano.

Ouvi, nos últimos tempos, que sou corajoso, pois falo o que muita gente não tem coragem de dizer.

Isso não é coragem. Eu só não me vejo no direito de ficar calado. Não me vejo autorizado a desfrutar em tempo integral das minhas felicidades enquanto tem gente que não tem nenhuma gota.

Não podemos parar de caminhar. Não podemos parar de lutar. Tem muita felicidade e amor por aí, e eu não vou deixá-los ir embora sem gerar abraços, afetos e sorrisos.

E se no caminho eu morrer? Que direito eu tenho de dizer que minha vida vale mais do que a daqueles que estão morrendo todos os dias?

E viver sem ser quem eu sou já seria a morte.

Posso morrer, mas terei a honra de morrer humano.

Martel Alexandre del Colle é policial há 10 anos. É aspirante a Oficial da Polícia militar do Paraná.

 

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