Tales morreu na contramão atrapalhando o sábado
Quinta-feira, 2 de maio de 2019

Tales morreu na contramão atrapalhando o sábado

Durante o desfile da 47ª edição do São Paulo Fashion Week, no sábado, dia 27 de abril, o modelo Tales Cotta, de 25 anos, desmaiou na passarela e morreu. Enquanto era atendido e levado ao hospital, o desfile, após uma breve suspensão, recomeçou. A organização do evento informou que mesmo após o conhecimento do óbito, as marcas desfilantes decidiram por manter a programação. Tales morreu na contramão atrapalhando o sábado.

Esse primeiro fato, por si, já provoca diversas reflexões. As condutas da organização do evento e das marcas envolvidas e a preferência por dar continuidade já denunciam, por si, o desvalor da vida e a sacralidade das coisas exaltadas no momento. Contudo, podemos nos concentrar num segundo momento para problematizar ainda mais reflexões.

Durante o encerramento dos desfiles, o rapper Rico Dalassam, que faria uma participação, subiu ao palco e anunciou o tom das suas palavras. “Me chamou… me chamou porque quis…”. E seguiu. “Não era para ninguém tá aqui. O garoto acabou de morrer e vocês estão aqui como se a vida não valesse nada! Nada! Nada! Nada! Nada! Não era pra ninguém estar aqui, certo? Enquanto os vivos não lamentarem as mortes dos negros, dos brancos e da humanidade das pessoas, a agonia vai tá no travesseiro de todo mundo! Agonia no travesseiro de todo mundo.”

Pra além da sensatez que veio nas palavras do rapper, representante de um movimento artístico que nasce e é, em sua natureza, letrado em denúncias e disruptivo, é impressionante assistir como, depois da morte do modelo, o discurso é recebido: com certa euforia, aplausos e gritos para, logo em seguida, sucumbir em uma completa apatia para que as coisas voltassem à estranha normalidade. A crítica foi consumida como sendo apenas mais uma parte de um grande espetáculo para o público.

Angustiante é lembrar, nessa situação, de um episódio da série Black Mirror. A série aborda questões da natureza humana e a evolução tecnológica, sobretudo a sociedade moderna e os conflitos entre tais questões. O segundo episódio da primeira temporada (Fifteen Million Merits) – spoiler – é uma distopia em que se satiriza os programas de entretenimento do tipo reality shows. Durante uma performance ao vivo de um show de talentos, o protagonista interrompe sua dança para sacar um fragmento de vidro e apontar para o seu próprio pescoço, ameaçando cometer suicídio na frente de todos. Durante o ato, em evidente desespero, o personagem lamenta as injustiças de um sistema em que as pessoas se tornaram frias e superficiais. Contudo, no lugar de provocar reações reflexivas, o comportamento eleva a audiência do programa e toda a indignação é cooptada pelo próprio sistema para ser mais um objeto de exploração e atenção da audiência.

A série de TV aborda a questão enquanto uma distopia. É desanimador pensar que, enquanto a utopia é tida como uma narrativa de uma sociedade perfeita, que atinge um ideal de felicidade, e por isso é posta como inatingível, a distopia é uma narrativa que se caracteriza por  tratar de uma sociedade em que há uma extrema opressão e controle social, mas nem por isso é tomada como impossível de ser alcançada. Na etimologia dos termos, utopia significa “lugar nenhum”, portanto, um lugar impossível. Já a distopia significa apenas “lugar ruim”, mas nem por isso um lugar impossível.

O que aproxima a distopia da série de TV e o ocorrido na SPFW é a reação do público aos eventos e desdobramentos. De onde vem essa capacidade de neutralizar as reações e emoções é um questionamento perturbador.

Byung-Chul Han diz que o desaparecimento da alteridade demonstra que vivemos numa época pobre de negatividade. A negatividade, em diversos aspectos, foi neutralizada pela sociedade moderna. Os elementos negativos, entre eles os sentimentos e as emoções que humanizam os indivíduos, passam por um processo de isolamento ou neutralização para dar lugar a uma constante e excedente positividade. Em nome de uma potencialização da capacidade de desempenho de cada indivíduo, deixa-se de lado possibilidades como a capacidade de contemplar, sentir-se frustrado ou permitir reconhecer as nossas incapacidades. Criou-se um indivíduo que é capaz de múltiplas tarefas, com atenção dispersa e plural, incapaz de dizer não. Um indivíduo supostamente livre de instâncias imediatas de domínio, mas que alcança níveis de autoexploração doentios, o que é possível através do excesso de positividade.

Essa positividade excessiva é a atmosfera que envolve as pessoas para negar o luto e o sentimento de respeito e tristeza, e também o medo de presenciar a finitude da vida de alguém sobre as luzes e os olhares de todos. É a partir dessa sociedade da ditadura da positividade que se tem uma neutralização, ou até negação, das negatividades. Esta atmosfera também é a que faz com que a crítica à todos seja acompanhada de aplausos e gritos eufóricos. Não advém de uma manifestação de apoio e solidariedade ao discurso crítico feito, mas sim uma reação mecânica e automatizada de indivíduos que estão em uma sociedade que isola a capacidade de sentir coisas negativas, indispensáveis ao processo crítico reflexivo.

Embora pareça precipitado, sobretudo para o contexto periférico, anunciar a morte de uma sociedade da disciplina baseada na opressão, a sociedade do cansaço de Byung-Chul Han parece coexistir em nossa realidade brasileira, formando uma complexa e terrível simbiose entre o indivíduo explorado e autoexplorado.

A pergunta é como tocar o outro e a nós mesmos. Como ultrapassar a muralha de isolamento do sujeito do desempenho que só enxerga os acontecimentos pela visão da positividade e aplaude a tudo e todos. Curioso é que o próprio excesso de positividade, para Byung-Chul Han, é o responsável pelo adoecimento psíquico da nossa sociedade, trazendo o aumento da depressão e do esgotamento.

 

Rochester Oliveira Araújo é mestre em Direito Constitucional e Defensor Público do Estado do Espírito Santo.

 

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