“É uma experiência bem ruim ir ao enterro de um policial”
Terça-feira, 7 de maio de 2019

“É uma experiência bem ruim ir ao enterro de um policial”

Policiais no Brasil morrem assassinados. Policiais no Brasil cometem suicídio. O que poderia ter sido feito diferente para termos hoje aquele policial vivo?

Imagem: Policiais e familiares participaram do enterro de Luiz Gustavo Teixeira, comandante do 3º Batalhão da Polícia Militar do Rio, assassinado em 2017. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.

Por Martel Alexandre del Colle, policial militar 

 

No ano de 2018, eu realmente me cansei das estratégias do Brasil para diminuir o número de mortes violentas sofridas por policiais. Muitos policiais morrem no Brasil por mortes violentas. Alguns enquanto estão de serviço, mas muitos morrem de maneira violenta mesmo fora do horário de serviço e sem estarem utilizando o fardamento. Eu queria muito fazer isso parar.

É uma experiência bem ruim ir ao enterro de um policial para mim. Ver ali um ser humano que tinha a mesma profissão, os mesmos sonhos, a mesma forma de encarar com coragem os perigos que nos rondam. Enquanto muitos correm do perigo, nós, policiais, corremos de encontro a ele.

Policiais no Brasil morrem assassinados. Policiais no Brasil cometem suicídio. Isso dói muito em mim. Aquela sensação de impotência diante disso me incomodava demais: estava há quase 10 anos na polícia vendo todas as mortes de policiais serem tratados como “casos” isolados ou como “tragédias inevitáveis” pelas corporações policiais.

Sempre que um policial militar morria, eu procurava descobrir as circunstâncias e depois pensar em quais atitudes eu e a instituição poderíamos tomar para evitar o próximo caso. E meus cabelos caiam quando eu via que a corporação não mudava em nem um milímetro suas ações.

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Lembro-me de um policial que morreu atropelado enquanto tentava fazer uma barreira para impedir um grupo de assaltantes de fugir. A ação foi muito bem-intencionada, mas o policial ficou num lugar muito arriscado e acabou atropelado. Esse policial tinha saído do seu curso de formação há pouco e agiu de uma maneira que lhe custou a vida.

Jamais colocarei a culpa em um policial numa situação dessas. Ele foi um herói e morreu lutando por um país melhor, morreu lutando pelo que ele acreditava. Mas a corporação poderia ter reciclado todos os seus policiais sobre o procedimento de cerco, e instruído a tropa sobre por qual razão o policial não deve utilizar certos tipos de barreiras contra um criminoso em fuga. Mas o que eu ouvi da corporação foi silêncio. Foi mais um morto colocado na conta da tragédia.

Eu ainda não entendo o que tem na nossa cultura que impede as pessoas de assumirem os próprios erros.

Os eleitores do Aécio (que provavelmente são os mesmos do Collor, se já votavam na época) até hoje dizem que não tinham outra opção. Apagam da memória os outros candidatos do primeiro turno para que nunca saia da boca deles um: “pois é, eu me equivoquei na escolha que fiz com a desculpa de livrar o país da corrupção, talvez eu não seja um analista político tão bom quanto pensava ser. Talvez eu faça julgamentos ruins. Talvez eu deva ouvir mais, ler mais e falar menos.”

Depois disso, eles foram para o Dória (em São Paulo). E, por fim, Bolsonaro. E sempre vão arranjar alguém para culpar. Chegam a dizer que sou muito duro como o presidente, já que ele só tem poucos meses de governo. E eu me pergunto se isso é ignorância ou desonestidade intelectual. Se eles realmente acreditam que alguém vai esquecer as décadas de legislativo do “mito”. E é sempre bom lembrar que, nas décadas que esse indivíduo esteve no legislativo do Rio, tempo durante o qual só o que ele fez foi colocar a família inteira para mamar nas tetas do governo, ninguém o proibiu de tentar alguma vaga no executivo. Não tentou porque não quis. Não tentou antes porque é covarde.

Agora, fatores que nada tem a ver com competência, mérito ou preparo, fizeram com que o eleitorado colocasse este ser que era inerte no legislativo para ocupar o maior cargo do executivo achando que isso vai dar certo. É como pegar o vendedor que não vende nada e só reclama e colocá-lo para dirigir a empresa. Quais as chances de sucesso da missão?

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Sempre que um policial morria, eu analisava os fatos por conta. O que poderia ter sido feito diferente para termos hoje aquele policial vivo? Adianta sair matando pessoas a esmo em alguma comunidade? O policial volta? Pergunta para a família dele se eles gostariam de trinta execuções aleatórias em uma comunidade pobre ou prefeririam o filho vivo e com eles? Pergunta.

Depois da análise, eu instruía meus policiais sobre o fato, para que eles estivessem vacinados quando acompanhassem algo semelhante. Vacinação é sempre melhor do que esperar a doença chegar para ver se o paciente aguenta o tranco. E aí está mais uma bola fora do “mito” e seu ministro da justiça que só têm planos para depois que o crime aconteceu: castrar estuprador, matar ladrões etc.

Será que eles nunca pensaram que seria melhor evitar que o crime acontecesse? E pasmem, tem muito estudo sobre isso, estudos que eles ou não conhecem ou fingem não conhecer. Não há sociedade sem crime, mas existem sociedades com uma taxa menor de crimes violentos. Triste é ver exposto um ministro da justiça que nitidamente tem pouca noção disso. Acho sempre importante lembrarmos que temos limitações, e que não existe forma mais eficaz de se expor ao ridículo do que assumir um cargo que você não é capaz de ocupar. Deviam ter avisado Moro e Bolsonaro antes… E se eu tenho dó? Tenho dó é do povo que vai sangrar muito pela incompetência desses dois.

Voltando aos meus policiais, as instruções que eu passava a eles eram uma atitude interessante, mas eu não estava satisfeito. Comecei a postar no meu Facebook sobre cada morte. Citava o nome, as circunstâncias, contava o número de policiais que já haviam morrido no ano. E o número subia muito rápido.

A gente nunca sabe o verdadeiro alcance das nossas ações, mas me parecia que era inútil. Eu falava e os policias continuavam morrendo.

Eu via muito policial indignado, dizendo que ninguém ligava para a morte de um dos nossos. Eles comparavam a repercussão das mortes de policiais com a morte de Marielle Franco, por exemplo.

O que eles não percebiam é que quem começou a lutar por Marielle foram as pessoas próximas a Marielle, e nada acontecia com os policiais que morriam porque a polícia e os policiais mesmos não faziam nada. Eles queriam que os outros falassem por eles, mas os outros não podem falar daquilo que não sabem.

De tanto ouvir esse argumento dos policias, eu decidi organizar um protesto para trazer à tona essa realidade. Na época eu era seguido por uma quantidade razoável de policiais, então percebi que era possível fazer algo importante, algo que mudasse essa realidade.

Comecei a organizar a ação e recebi uma ajuda gigante de uma policial de Foz do Iguaçu. A minha ideia era fazer uma série de protestos em todo o Brasil. Todos no mesmo dia. Eu não sou bom em organizar eventos, mas tentei divulgar a ideia como pude. Criei o evento no Facebook e pedi ajuda para divulgar.

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Eu organizaria o protesto de Curitiba e a policial feminina L. organizaria o de Foz. Começamos a divulgar o evento. No dia combinado eles ocorreram nas duas cidades. Em foz compareceram mais de cem pessoas e a imprensa local cobriu o evento. O de Curitiba teve a participação de três pessoas, contando comigo.

Aprendi algumas lições ali. A primeira é que devemos lutar pelo que acreditamos independentemente de quantas pessoas virão conosco. Éramos três, mas estávamos lá fazendo a nossa parte, lutando pelo que acreditávamos ser o correto.

A segunda lição é que nem tudo o que as pessoas dizem querer mudar elas querem realmente mudar. Eu percebi, para minha tristeza, que tem muito policial que reclama da morte de policiais, mas não quer que elas acabem. Ele gosta dessa retórica, de ser o pobre policial que se sacrifica e ninguém defende. Quantas vezes acompanhei situações de policiais que morreram em serviço e alguns parceiros de farda só falavam em vingança, como se a vida daquele policial que se foi não merecesse um segundo de consternação, de dor. O morto não era importante, a família dele não era importante, a memória dele não era importante, a história dele não era importante. Importante era ter mais uma oportunidade de dizer: “Eu falei! Ninguém liga para o policial!”

Pena que quem usa esse discurso demonstra que também não liga. O policial é só um número. Quantas ações foram encabeçadas por Bolsonaro para diminuir a morte de policiais? Ele fala muito da morte de policiais, mas não parece interessado em acabar com elas. Muito pelo contrário, ele quer o policial no fronte, morrendo. Policial, você não é importante para o Bolsonaro, só a sua morte.

Você precisa morrer para ele ter mais um caso para contar. Ele não citará seu nome, porque você é um ninguém para ele. Ele não ajudará sua família e nem legislará para que ela tenha apoio, porque você já foi útil, você morreu, agora é descartável.

Mas Bolsonaro pode mudar. Eu acredito no poder da mudança. Se não acreditasse eu seria igual a ele, e bradaria por aí que bandido bom é bandido morto (a pessoa tem de ser muito arrogante e se achar muito acima de todos para proferir uma asneira dessa. Tem de se achar muito o centro do mundo, o deus encarnado, o bonzão). Eu só quero saber o que ele fará com o próprio filho se certas denúncias foram confirmadas. Tem uma referência no livro “a arte da guerra” com adaptação e prefácio do James Clavell a um general que estipulou regras tão rígidas que um dia acabou se condenando a morte por deixar seu cavalo pisar em uma plantação. O general acabou mudando a sua pena para uma mais leve. Poderemos ter uma nova versão dessa história, só que agora o general seria o Bolsonaro e o cavalo seria a garoto do rachadinho.

Não acho possível que Bolsonaro possa fazer um bom governo, ele não tem inteligência para isso. Mas ele pode admitir que não tem inteligência e adaptar sua governança para uma mais aberta, ouvindo pessoas realmente capacitadas – como ele havia dito que faria – e não apenas Moro, Guedes, Olavo, Vieira etc. Gente que estuda de verdade e não gente que fica delirando sobre conspirações comunistas ou postando fotos da máquina do tempo no twitter.

Todos nós podemos errar. O importante é mudar os rumos. É mais honroso dizer que fizemos uma má escolha do que dizer: “mas era isso ou PT”. Primeiro porque não era, tivemos muitos outros candidatos. E segundo que não vale a pena jogar a criança fora junto com a água do banho. Que ideia é essa de destruir o país porque não gostou de um governo? E agora vêm com o papo de que temos de torcer pelo país. Por que, então, não torceram nas urnas? Não joga essa culpa para mim não.

Pausa informacional: dias desses um hater me encontrou em uma de minhas escassas redes sociais. Ele começou com ofensas e me disse que o PT roubou trilhões. Eu perguntei de onde ele tirou essa informação. Ele me respondeu que eu deveria ver os jornais. Eu parei a discussão aí. Não vi nada de positivo em continuar a conversa, mas se quisesse eu faria uma aposta com ele, eu lhe daria uma hora para me enviar uma reportagem de um jornal com credibilidade afirmando que o partido dos trabalhadores roubou trilhões (reparem que é mais de um).

Mesmo sem a aposta eu lhe convido a procurar a notícia dos trilhões. Pode ser juntando bilhões e bilhões até chegar nos trilhões. Talvez seja bom descobrir quantos bilhões cabem em um trilhão. Depois é bom ver o PIB do Brasil para entender que, para levar trilhões, eles teriam de levar quase o país inteiro. E levariam para onde? Cuba? Por favor… 

Pesquise e você encontrará várias notícias tendenciosas, mas fatos você não encontrará. Só vai encontrar gente usando meias palavras para tentar te convencer do roubo, mas sem dados, sem valores, sem locais, sem dizer onde está o dinheiro e quem está com esses trilhões agora. É o típico jornal que presume que o leitor é trouxa e não vai se dar o trabalho de ler nada além da chamada da matéria e presume que o leitor jamais irá pesquisar os dados mais a fundo. Acho que isso é o suficiente para mostrar para alguns como é fácil manipular certas pessoas. Como essa galera consegue cair na falácia dos trilhões, na falácia da Ferrari de ouro? Por que tanto orgulho e tão pouca pesquisa?

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Não temos um problema para conseguir informações, temos um problema para aquilatar essas informações. E é nessa deficiência que crescem essas falas tão estúpidas que se o autor delas as repetisse na frente do espelho certamente ficaria com vergonha.

Por fim fica a pergunta: Bolsonaro vencerá? Ele conseguirá afundar o país de tal maneira que ele pareça até um cara ético? Certamente não.

Bolsonaro é representante do povo e não dono dele. Ele foi eleito presidente, e não promulgado imperador. Portanto o governo não mudou de mãos. Pelo menos desde 1988, data da promulgação da atual Constituição da República Federativa do Brasil, ele pertence ao povo.

Se o povo não quer reforma, então não deve ter reforma. Se o povo não quer um pacote anticrime tão malfeito, então o pacote deve ser refeito, melhorado, profissionalizado. Se o povo quer um país mais seguro e mais honesto, é nisso que o governo terá de investir seus poderes, e não em abafar o COAF ou promover filho de General em empresa pública. Se Bolsonaro continuar nesse caminho ele logo perceberá que, assim como o povo dá o poder, o povo também tira o poder.

Todo poder emana do povo, pertence ao povo, é o povo. E o dia que o povo não quiser mais que policial mate e morra em ações mal planejadas e sem sentido nas favelas, meus policias vão parar de morrer. 

Martel Alexandre del Colle é policial há 10 anos. É aspirante a Oficial da Polícia militar do Paraná.

 

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