Na ditadura militar também houve a chamada reforma universitária
Quinta-feira, 9 de maio de 2019

Na ditadura militar também houve a chamada reforma universitária

Na ditadura militar houve a chamada reforma universitária, algo que já tinha sido levantado no governo de João Goulart em 1960. A universidade pública sempre representou um lugar de debate que em muitas circunstâncias se opunha ao governo, principalmente aos governos autoritários. Porém, naquela época a universidade era extremamente elitizada, possuindo, assim, um grande interesse da elite brasileira em mantê-la.

O interesse do governo brasileiro ditatorial em manter a universidade também tinha como plano conquistar os estudantes e professores. Assim, muito diferente do que podemos imaginar hoje, na ditadura militar houve uma certa valorização das universidades por meio da criação de departamentos, criação de um sistema nacional de pós-graduação, aumento do número de bolsas de estudos.

Essa valorização, pensando-se que foi feita em uma ditadura militar e comparada com um governo atual que defende essa ditadura, parece ser extremamente contraditória, porém se analisada de uma forma política foi estratégica e até em certo ponto inteligente, pois apesar de não conseguir barrar as manifestações universitárias contra o golpe, conseguiu, por um período, amenizar as tensões entre governo e estudantes. Foi um “cala a boca”  feito diante da economia crescente da época.

Porém, existem sim semelhanças da política adotada pelos militares com relação as universidades públicas e o governo do atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Na época da reforma universitária também houve um apoio maior à formação de engenheiros, economistas e tecnólogos com a justificativa de que são áreas estratégicas para o crescimento do país.

Outro aspecto que aproxima esses governos é que repressão empregada em que não se encaixava no modelo exposto. Os estudantes que foram contra algum ou todos os pontos implementados na reforma ou ao governo sofreram as devidas repressões típicas e já conhecidas do regime militar no Brasil.

Diante de tudo, é inevitável não abordar que as universidades públicas atualmente mudaram drasticamente, apesar de ainda ser um lugar de debate e oposição às políticas autoritárias, houve uma mudança fundamental em seu corpo de alunos. Com as cotas amplamente implantadas no governo Lula, houve a possibilidade de outras classes sociais terem acesso ao ensino superior público. A existência do debate sobre o descontentamento de parte da sociedade com essa política de inclusão, nesse momento, parece plausível com relação ao tratamento dado pela ditadura militar e pelo governo Bolsonaro aos estudantes de universidades públicas

Contudo, também não se pode deixar de entender que os governos que tanto assemelham-se possuem realidades econômicas diferentes, isso, é claro, impacta diretamente no tipo de postura que se toma com relação aos grupos de oposição, a parte de conquista, ou do “cala a boca” não é uma opção quando for necessária um grande esforço para ocorrer.

Logo, Bolsonaro não surpreende, apesar de suas medidas, não só na área de educação, serem dolorosas de serem vistas por pessoas que ainda acreditam na educação como principal ferramenta para a mudança do país. Ele tem a inspiração no governo militar de 1964, inclusive no privilégio que pretende dar aos cursos que diz ser estratégicos para a economia do país.

Assim, com o atual governo cumprindo as propostas de campanha, é muito fácil adivinhar quais serão os argumentos usados pelo atual Presidente para futuras medidas adotada com relação aos mais diversas áreas do governo, basta pegar um bom livro de história sobre o golpe militar que todos os argumentos atuais utilizados estarão lá, da mesma forma que a Bíblia e seus mandamentos são sagrados para um religioso, a ditadura militar e suas justificativas são sagrados para o atual governo e devem ser revividos em sua concepção militarista e autoritária.

 

Amanda Silva do Nascimento é graduada em Gestão Pública para Desenvolvimento Econômico e Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), graduanda em Direito pela UFRJ e pesquisadora da Faculdade Nacional Direito da UFRJ.

 

Leia mais:
Liminar do STF afasta possibilidade de gestantes e lactantes trabalharem em locais insalubres
Por que privatizar a Eletrobras e nossos recursos hídricos é um tiro no pé?
A criminalização do consumo de drogas: um erro histórico que finalmente poderá ser consertado


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Quinta-feira, 9 de maio de 2019
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend