“O conto da Aia” começou no meu colégio evangélico
Quinta-feira, 9 de maio de 2019

“O conto da Aia” começou no meu colégio evangélico

No meu colégio evangélico, Deus, espécie de régua moral que beirava um ditador nazista, servia ao propósito de fazer arder no inferno quem não cumprisse suas regras

Arte: imagem baseada em ilustração do jornal The Washington Spectator sobre a série “O conto da Aia” (The Handmaid’s Tale) e livro homônimo de Margaret Atwood.

Por Eduardo Rossler


Este é um relato real

Minha educação no ensino médio foi péssima. Estudei em um colégio evangélico fundamentalista que pregava uma doutrina que misturava a culpa (da existência) e o medo (de existir/ser). Tamanha era a desconexão com a realidade que vi muitos conhecidos sucumbirem psicologicamente diante deste mar de charlatanismo barato (mas muito eficiente). Falavam mais do demônio do que de Deus. Satanás significava para eles, ao fim e ao cabo, a expressão de tudo o que era humano. Tudo o que estava no campo do sensível (ou sensual, se quiser). Deus, uma espécie de régua moral que beirava um ditador nazista, servia ao propósito de fazer arder no inferno quem não cumprisse estritamente suas regras.


O exercício do medo era praticado por adultos que, por maldade ou loucura, nos diziam coisas do tipo:


“O papa é a personificação do Diabo”


“As mulheres devem servir aos homens”


“Casa-se virgem”


“Queimei seus discos/cd’s pois a música é obra do demônio”


“Na guerra final entre anjos e demônios, Satanás terá como braço direito Napoleão Bonaparte e ele é quem comandará seu exército”

Esta última frase eu ouvi de um amigo meu, que foi corroído por uma esquizofrenia grave, fruto de uma vida de repressão.

Lembro-me também da aula de educação sexual (que oficialmente era chamada de aula de religião). Homens brancos, mais velhos, falando sobre o mal da descoberta sexual. Lembro que um desses sujeitos disse em sala um dia: “As mulheres podem se masturbar apenas cruzando as pernas, sentadas, e ninguém saberá que estão praticando este ato. Então, meninos e meninas, prestem atenção se sua colega está pecando”As garotas da minha sala, meninas de 14-15 anos, constrangidas por esse abuso de poder, essa lascividade machista foram assim assediadas e humilhadas publicamente por um homem de mais de 30 anos.

Diziam, ainda, que as universidades públicas eram um antro de orgias e festas, e prestar o vestibular para elas seria o mesmo que entregar sua alma ao demônio. Ofereciam em troca uma solução cristã (claro): A universidade pertencente a sua própria seita, hoje espalhada pelo Brasil e pelo mundo.

O tema do sexo era central. Tudo girava em torno do sexo (a repressão do) e a culpa/medo pelo pecado que poderia ser cometido (sempre como potencialidade). No fim das contas, supressão de toda e qualquer fagulha de sensações. Inventavam histórias de que uma garota foi possuída pelo demônio dentro do dormitório feminino por se entregar aos pecados da carne. Diziam que uma outra menina foi pega fazendo um ménage a trois em um dos alojamentos e foi expulsa. Diziam que as mulheres tinham o poder da sedução e que os homens precisavam entender essa “natureza” feminina para que pudessem se proteger.

A relação sexual (apenas depois do casamento) era permitida em duas hipóteses: Para a procriação e, se por prazer, era necessário uma oração antes e depois do sexo, para que o ato fosse divino.

Este complexo educacional transformou o bairro do entorno em um local de fundamentalistas, onde todos os serviços giravam em torno desta seita. Lembro de quando ia almoçar na casa de colegas, a primeira coisa que me perguntavam era: “Qual tua religião?.”
Na prática, isso significava que todos ali eram obrigados a se relacionar (pessoal e profissionalmente) com membros da própria religião, o que fomentava uma economia gigantesca e concentrava renda nas famílias, gerando um bairro muito rico. Dinheiro, poder e religião. Todos em um mesmo espaço.

Tomei para mim o papel de abrir os olhos de meus amigos para este escândalo. Fiz tudo o que pude para ser um aluno cuja missão era subverter a ordem daquele lugar. Mostrar quem eram essas pessoas. Mas eles eram muitos e, claramente, bem mais espertos do que um adolescente querendo bancar o herói. Me deixaram fazer tudo o que eu queria fazer, e nunca me deram sequer uma advertência. Depois eu entendi o porque: Minha presença era necessária para mostrar aos já convertidos o exemplo a não ser seguido. Eu era o arquétipo do que eles combatiam. O herege, o não convertido. O inimigo necessário.

Anos mais tarde, com os poucos contatos que ainda tenho com essas pessoas, percebo nas eleições o esforço desta comunidade em eleger o Bolsonaro para presidência, com os mesmos discursos e a mesma maldade, só que agora munidos de um complexo educacional-teocrático rico, poderoso e muito perigoso. E falo isso com a experiência de anos de convivência com essa turma.

Digo tudo isto para fazer um alerta: O crescimento da direita no Brasil é um processo longo, que tem no fundamentalismo religioso um de seus alicerces. Uma parte desse fundamentalismo é de matriz norte-americana, que continua obtendo sucesso em tornar-se invisível na discussão política, porque dissimulam seus objetivos através de uma pretensa “educação de qualidade, cristã e ética”.

Nada é por acaso no Brasil.

Eduardo Rossler é mestre em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos e membro do Grupo sobre Violência e Administração de Conflitos (Gevac) da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

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