13 de maio: Não há o que se comemorar, mas há o que refletir e exigir
Segunda-feira, 13 de maio de 2019

13 de maio: Não há o que se comemorar, mas há o que refletir e exigir

Neste 13 de maio, ao invés da princesa, pensemos em Luiz Gama, André Rebouças, José do Patrocínio e tantos negros e negras que lutaram por sua libertação

Imagem: detalhe da capa norte americana de Cumbe, obra do artista e escritor brasileiro Marcelo D’Salete, ganhador de diversos prêmios nacionais e internacionais com suas graphic novels que contam histórias de luta e resistência protagonizadas pelas populações negras escravizadas no Brasil. 

Por Luanda Julião

 

Hoje é 13 de maio. Há 131 anos o Brasil assinava a lei Áurea, oficializando a libertação dos escravos.

Lembro que durante a minha infância, na década de 1980, quando eu ainda frequentava a quarta série numa escola pública, eu e minha turma apresentamos uma pequena encenação sobre a abolição dos escravos. É claro que nessa pequena peça a figura engrandecida era a da princesa Isabel. Todas as meninas brancas da minha sala queriam encenar o papel da princesa. E é claro que a garota que tinha a pele mais clara ficava com o papel. Os escravos apareciam como coadjuvantes e não como protagonistas da sua própria alforria. Para o papel dos escravos não havia briga ou discordância. Pelo contrário, a maioria das alunas e alunos pretos e pardos resistiam em representá-los. 

A peça foi apresentada e com ela aprendemos que uma princesa benevolente, generosa, libertou os negros escravizados no Brasil. Era assim também que os livros didáticos nos ensinavam. Não havia uma reflexão crítica sobre a data, nenhuma menção à resistência do Brasil como o último país a libertar os seus escravos, nenhuma referência à Inglaterra, que exigiu e forçou a libertação dos homens e mulheres escravizados, pois era-lhe muito mais rentável trabalhadores assalariados e livres. Sem dúvidas, a escola nos expunha um único discurso: o da elite branca.

Essas encenações unilaterais perseveraram no decorrer dos meus anos escolares. E durante muito tempo nada mudou. As alunas brancas disputavam o papel da princesa. Eu e os outros alunos pretos e pardos encenávamos os escravos libertados. E como sempre, um silêncio pesava sobre a luta da população negra, sobre a sua resistência diante do sistema colonialista e imperial.

O que ficava escancarado nessa encenação toda era a ideia de que uma princesa branca havia nos feito um favor. No entanto, sabemos muito bem que não há como falar do Brasil sem falar da importância dos negros (e também dos índios) para a construção desse país. Digo isso hoje, porque muitos anos se passaram para que eu finalmente pudesse compreender que os materiais didáticos da escola introjetavam em mim e nos outros alunos uma imagem preconceituosa e depreciativa sobre os povos e culturas não oriundos do mundo ocidental, pois nos doze anos de minha educação básica, não houve discussão ou debate sobre a importância dos negros (e dos índios) na construção da identidade brasileira.

Hoje sabemos que a narrativa historiográfica foi delineada por um discurso que sempre colocou o branco como herói e o negro como vilão. Por isso que eu acho importante falar sobre o 13 de maio, principalmente nas escolas. Não como uma data para se reverenciar uma princesa ou comemorar algo que na prática não se efetivou de fato: a real cidadania dos negros e negras brasileiros.

Falar no dia 13 de maio é importante para tirarmos os holofotes da princesa e destacarmos a luz, o brilho e a importância de Luiz Gama, André Rebouças, José do Patrocínio e tantos outros homens e mulheres, negros e negras que foram ofuscados e silenciados pelo racismo e machismo dos registros historiográficos.

Hoje olho para o 13 de maio como uma data para emergirmos o protagonismo dos negro em sua própria libertação, pois não se deve esquecer que muito antes de 13 de maio de 1888, a população negra já organizava movimentos de resistência. Entre esses podemos citar as rebeliões nas senzalas, a formação dos quilombos, a revolta dos Malês, a Balaiada, a Sabinada, a Cabanagem. Os negros protagonizaram também a primeira tentativa de independência nesse país, através da formação do Quilombo de Palmares, um estado organizado e independente que durante mais de cem anos manteve-se firme diante dos ataques do colonialismo.

13 de maio é uma data que serve também para relembrarmos que há muito o que lutar, pois embora a lei Áurea tenha oficialmente extinguido a escravidão, ela se eximiu de incluir socialmente e economicamente os negros e negras, deixando-os à margem e à própria sorte. Por isso, não há o que se comemorar, pois a abolição no dia 13 de maio de 1888 não trouxe medidas e soluções eficientes para a integralização dos ex-escravos em nossa sociedade.

131 anos após a assinatura e oficialização da cidadania dos negros e negras, muitos ainda hoje se encontram em condições desiguais em relação à população branca.

13 de maio é portanto uma data para denunciarmos o racismo, a pobreza, a falta de oportunidades e trabalho, a disparidade entre brancos e negros, pois ainda somos minoria no ensino superior, no magistrado, em cargos de liderança, na política, na publicidade, na literatura, no cinema e na ciência. A data serve para relembrarmos que é preciso continuar lutando pela inclusão social e econômica neste país que hoje concentra o maior número de população negra fora do continente africano.

Luanda Julião é Doutoranda em Filosofia Francesa Contemporânea pela Universidade Federal de São Carlos. Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo. Professora de História e Filosofia na Escola Estadual Visconde de Itaúna.

 

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