No final, o empoderamento feminino de GOT se tornou uma falha de roteiro
Segunda-feira, 13 de maio de 2019

No final, o empoderamento feminino de GOT se tornou uma falha de roteiro

Não surpreendeu, nem agradou

Nem surpreendeu, nem agradou. A não ser pela atuação fantástica dos roteiristas em fazerem tudo aquilo que ninguém acreditou que eles fariam. Assim terminou o penúltimo capítulo de uma das séries mais esperadas e caras da história.

Poderia ter sido um final imprevisível e caberia inclusive um roteiro feminista. Escrito por dois homens, D.B.Weiss e David Benioff, talvez fosse pedir demais. Mas coube sim uma expectativa plausível, pois George RR Martin, o escritor original trouxe como característica fundamental da série a importância dada às personagens mulheres. Certamente, ele se saiu muito bem neste quesito em diversos momentos. Ainda vivendo um luto por este final de enredo, penso que talvez estivéssemos esperando por algo menos clichê e não sustentado sob os mesmos princípios machistas que norteiam a nossa sociedade desde tempos primitivos.

Sim, trata-se de uma ficção, não estamos falando de realidade. Seria difícil um discurso de empoderamento feminista prosperar naquela época, sem dúvidas, mas diante da evolução de cada uma das personagens mulheres isto seria condizente com a trama, que é mais atual que medieval. Se aceitamos dragões e zumbis, por que não mulheres sensatas no poder? Negar esta hipótese é permanecer nas masmorras da idade média, em pleno 2019.

Ao apressar o desfecho da série para apenas uma temporada com 6 episódios, a HBO concentrou seus esforços na produção cinematográfica com os efeitos especiais realmente impressionantes, mas esqueceram que Game of Thrones fez sucesso principalmente em razão da inteligência dos seus diálogos e personagens complexos.

George R. R. Martin, recentemente, ao se deparar com a pobreza do roteiro de D&D nesta última temporada, reclamou que os personagens tidos como principais ganharam um destaque excessivo e que os roteiristas poderiam desenvolvido melhor a história surpreendendo o público com os personagens secundários. Claro, para isto seria necessário mais tempo.

Possivelmente o destino dos personagens na série até seria esse na cabeça de George Martin, mas a princípio, a execução da jornada foi infeliz, faltou desenvolvimento. E isso se traduz na enxurrada de críticas no dia de hoje. Muitos personagens foram simplificados, perderam sua complexidade, por não ter tempo suficiente de diálogo.

Os dois problemas estruturais para este penúltimo episódio se concentraram na saga desajustada de Daenerys e Arya.

No caso de Khaleesi, a Nascida da Tormenta, é questionável a decisão de colocá-la como a destruidora de lares e matadora de inocentes se durante sua jornada ela se preocupou e aprendeu a liderar defendendo um discurso de “liberdade” do povo.

O problema somente se agrava ao perceber que conforme as cenas se desenrolam, Dany se torna louca, irracional e descontrolada para dar destaque ao Jon Snow. Nos últimos episódios, o bastardo de Ned foi alçado como o rei da centralidade, mesmo que para isto ele não precisasse fazer nada, literalmente. Jon, que apesar de ser um Targaryen, não se tornou louco, nem foi cogitada essa hipótese para ele, apesar disso é o rei das pesquisas como merecedor do trono de ferro. Só este fato é o suficiente para repensarmos o quão clichê é essa estrutura machista de pensamento. Aguardo ansiosamente o dia que veremos Snow surtar, já que a loucura dessa ‘Mad Family’ aparece assim do nada.

Não sou um meistre para lhe citar hisória, Vossa Graça. Minha vida foram as espadas, não os livros. Mas qualquer criança sabe que os Targaryen sempre dançaram perto da loucura. Seu pai não foi o primeiro. O Rey Jaehaerys disse-me um dia que a loucura e a grandeza eram dois lados da mesma moeda. “Sempre que um novo Targaryen nasce”, disse ele, “os deuses atiram uma moeda ao ar e o mundo segura a respiração para ver de qual lado cairá”. (Trecho do livro A Tormenta de Espadas – de George RR Martin, que inspirou a série GOT)

No jogar da moeda dos deuses, os escritores resolveram garantir que o homem tivesse o predomínio da razão e a mulher fosse resguardada o descontrole da emoção.

É certo que Khaleesi sempre flertou com seu orgulho, autoritarismo e o pensamento vingativo. Apesar disso sempre foi racional e calculista em suas decisões, e com isto ela aprendeu por diversas vezes com seus erros. O que sustentaria mudar toda a imagem criada de “Quebradora de Correntes” e concentrar no trecho “Nascida das Tormentas”?

Ela que salvou diversas cidades e libertou milhares de escravos. Prendeu seus pequenos dragões porque teriam matado uma criança inocente. Preferiram pintá-la de louca sem que houvesse ao menos tempo hábil para que esse discurso tivesse uma gradação aceitável de sua psicopatia. Tudo terminou em um surto que transcendeu toda racionalidade e maquiavelismo característico desta personagem. Apesar de toda sua assertividade punitiva, ao estilo “Dobra o joelho ou eu boto fogo”, ter causado a morte de mestres em Meereen, dos Tarlys e outros inocentes ao longo das temporadas, percebia-se que ela tinha a empatia como um traço que a distinguia de seu pai Aerys II. A empatia que ela tinha com as pessoas poderia ter anulado o diagnóstico dela de psicopatia.

Determinada e racional, ela poderia ter tido um desfecho sombrio e violento, como o que sucedeu, já que sempre deixou claro que faria o que fosse preciso para que seu objetivo fosse cumprido. Chegar ao trono! Mas o surto de loucura infantilizou um processo mental complexo da Khaleesi.

Daenerys sempre gostou de queimar pessoas, nada surpreende. Mas arrasar com uma cidade inteira, assim como Nero, não foi nada estratégico, posicionou-a como louca, transcendeu a racionalidade da personagem, que tinha como um dos seus objetivos mostrar ser diferente do pai. Tudo o que gostaríamos é que fosse respeitada a condição humana e complexa da personagem ao lidar com suas sombras, sem torná-la santa, ou má. Isto deu errado com os insensatos 20 minutos de destruição de Kings Landing, sem sequer ela ir atrás da Cersei para acabar com a história.

Vale a pena ler uma passagem do livro a Arte da Guerra de Sun Tzu, para nortear como um príncipe deveria calcar suas decisões em uma situação semelhante.

A vitória completa se produz quando o exército não luta, a cidade não é assediada, a destruição não se prolonga durante muito tempo. Por isso, um grande imperador dizia: “O que luta pela vitória frente as espadas nuas não é um bom general.: A pior tática é atacar uma cidade. Assediar, encurralar uma cidade só se leva a cabo com o último recurso.

Daenerys, no início submissa, abusada inúmeras vezes por seu irmão e “conje”, líder de uma tribo selvagem e sanguinária, dona de dragões geniosos, não poderia ser uma mulher  completamente doce espalhando amor e compreensão. Mas o final escolhido para ela foi clichê e burro, pois sustenta toda a sua trama na inconsistência de uma mulher louca psicótica.

E a diferença de um bom roteiro para um mau roteiro é quando percebemos o desenvolver gradativo e saudável dos personagens ao ponto de entender racionalmente como Cersei explodiu o Septor Baelor, com centenas de pessoas dentro, sem precisar ser rebaixada à condição de louca.

Os roteiristas, nesta tendência machista, descaracterizaram inclusive a personagem mais corajosa de todas, Arya Stark. Ela que matou o Senhor da Noite, deu um “not today” para o deus da morte, aguentou paulada durante uma temporada inteira quando estava na Casa de Preto e Branco, quando estava prestes a dar cabo na sua listinha de mortes, ARREGOU. Se não bastasse, a incrível lutadora Arya, que poderia ter matado Sandor Clegane em outras oportunidades, aceitou um sermãozinho do Cão que a mandou voltar para casa pois se tratava de uma Guerra perigosa para uma menina.

Mais uma vez os roteiristas rebaixaram o empoderamento da personagem para se colocar abaixo de um homem. A figura paterna representada por Clegane nesta cena diminuiu a coragem da personagem que regrediu novamente à figura de uma criança acuada. Em suma, Arya, que treinou sua vida inteira e viajou centenas de quilômetros para encerrar sua pequena lista de mortes matando Cersei Lannister, foi boicotada pelo discurso paterno de um personagem que ela já superou.

Por essas inconsistências que o roteiro não sustenta a grandiosidade de George RR Martin, que terá um desafio ao desfazer essas cagadas nos seus próximos livros. Talvez fosse melhor que a HBO tivesse economizado nos efeitos, aumentado o número de episódios e investido um pouco mais no roteiro. Se fosse possível, nas ideias progressistas que foram trazidas nesta série desde 2011.

Aguardando o último episódio, já não tão ansiosamente, só temos a certeza de uma coisa. Jon Snow nunca soube de nada.

 

André Zanardo é diretor de redação do portal de notícias Justificando.

 

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