Cortes de verbas para pesquisa é também uma questão de gênero
Terça-feira, 14 de maio de 2019

Cortes de verbas para pesquisa é também uma questão de gênero

O governo federal anunciou cortes no financiamento da educação em todo o país, o que deve impactar as Universidades e Institutos Federais em todas as suas atividades de graduação, pós-graduação e pesquisa no país. Em contrapartida, movimentos sociais, políticos e as próprias Universidades convocaram para o dia 15 de maio manifestações em oposição a essa política de desmonte trazida por Jair Bolsonaro e Abraham Weintraub.

Na esteira da Emenda n. 95, herança do Governo Temer, a imposição de um Teto de Gastos Públicos aliada à clara intenção de desnaturação do Estado Social em toda a sua extensão trazem um discurso de inoperatividade das instituições públicas de ensino, bem como de um “moralismo” aplicado àquilo que o governo vê como sua “oposição”.

Ao afirmar que as Universidades são marcadas pela “balbúrdia”, o que se faz é deslegitimar o processo educacional público do país e desconsiderar por completo o papel central que essas instituições têm no país. Essa posição é associada ao combate daquilo que a direita brasileira e mundial chamam de “marxismo cultural” – e as universidades públicas seriam o berço e a multiplicação dessa “doutrinação”.

Marxismo cultural, segundo essa óptica, seria uma conspiração socialista que busca mudar a sociedade culturalmente a partir de conceitos como gênero fluido, ambientalismo e combate às mudanças climáticas, globalização, movimentos LGBTs, movimento negro, movimento feminista, entre outras “subversões” a uma sociedade “tradicional”.

A tônica de toda a campanha presidencial de Bolsonaro foi essa: um retorno à “família tradicional brasileira”, combate à “ideologia de gênero” e ataques à educação, que incentivaria comportamentos “antinaturais” nas crianças e adolescentes. O governo segue a mesma linha, combatendo conspirações.

Assim, para deslegitimar a pesquisa e a qualidade de ensino realizadas nas instituições públicas, notadamente as federais, o governo as classifica como centros de “perversão” e de reprodução acrítica de ideologias de esquerda.

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Para além das questões gerais acerca dos cortes anunciados, é fundamental compreender que há uma questão de gênero oculta nesse debate. As mulheres assinam hoje no Brasil 72% dos artigos científicos publicados[1], são 53% dos estudantes de pós-graduação e recebem 60% das bolsas de pesquisa fornecidas pela CAPES[2]. Além disso, segundo indicadores da CAPES, as mulheres receberam 54% dos títulos de doutorado concedidos no país em 2017, representando a maioria entre os pesquisadores de 6 das 9 grandes áreas da ciência.[3]

Em uma sociedade em que as mulheres recebem em torno de 77,5% do rendimento dos homens[4], o financiamento da pesquisa acadêmica é um setor que não faz essa diferença. Os valores pagos por bolsas da CAPES e do CNPq são iguais para homens e mulheres – e, necessário relembrar, são hoje no valor de R$ 1500,00 para mestrado, R$ 2200,00 para doutorado e R$ 4100,00 para pós-doutorado[5], sendo necessária a dedicação exclusiva do pesquisador à atividade e docência na instituição de ensino em que esteja cursando o programa de pós-graduação. Os valores não recebem reajuste há 6 anos.[6]

As Universidades públicas ainda carecem de inclusão às mulheres professoras e pesquisadoras. Precarizar ainda mais esse setor pode significar não apenas o fim das pesquisas de ponta vinculadas às universidades, mas uma drástica redução do número de mulheres protagonistas em pesquisas em diferentes áreas e a expansão da desigualdade de gênero nas universidades.


Letícia Kreuz é doutoranda e mestra em Direito do Estado pela UFPR e Vice-presidenta do Instituto Política por.de.para Mulheres.


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[1] Disponível em: https://www.gazetaonline.com.br/noticias/brasil/2019/03/mulheres-assinam-72-dos-artigos-cientificos-publicados-pelo-brasil-1014173563.html
[2] Disponível em: https://www.capes.gov.br/sala-de-imprensa/noticias/9375-mulheres-representam-60-dos-bolsistas-da-capes
[3] Disponível em: http://revistapesquisa.fapesp.br/2019/03/07/titulos-de-doutorado-no-brasil-participacao-feminina/
[4] Disponível em https://www.infomoney.com.br/blogs/economia-e-politica/economia-com-renata-barreto/post/7589891/desigualdade-salarial-entre-homens-e-mulheres-quem-esta-certo
[5] Valores podem ser consultados em: https://capes.gov.br/acessoainformacao/perguntas-frequentes/bolsas-de-estudo/4914-posso-acumular-a-bolsa-da-capes-com-atividade-remunerada
[6] Disponível em: http://www.diretodaciencia.com/2019/03/15/sem-reajuste-ha-6-anos-bolsas-de-pos-graduacao-estao-fora-da-realidade/

Terça-feira, 14 de maio de 2019
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