Teoria do Desvalor: o fetiche da mercadoria precisa virar o fetiche do convívio social
Terça-feira, 14 de maio de 2019

Teoria do Desvalor: o fetiche da mercadoria precisa virar o fetiche do convívio social

A moeda era palpável, as transações digitais não o são. Precisamos de uma “Teoria do Desvalor”: a desconectividade com a abstração da forma material humana

Por André Márcio Neves Soares

 

O que é Valor? Parece fácil categorizar valor, mas é só impressão. Isso porque o significado de valor importa duas vertentes: a primeira é a objetiva, material, do dia a dia, quando pagamos por um bem qualquer, que entendemos ter um preço justo. O preço da mercadoria, traduzido em dinheiro, reflete instantaneamente a intensidade do desejo pelo objeto (e aqui, para fins do artigo, não importa se o bem é adquirido no momento ou não. O que importa é a materialidade do desejo).

A segunda vertente é a do valor como subjetividade humana. Em outras palavras, quais sentimentos mobilizamos internamente na valoração de um bem, seja ele físico, seja ele um afeto. Cada ser humano possui sua tripla conjunção de fatores que o definiu, define e o definirá sempre: a biológica, a ontológica e a cultural. É adequado supor que uma pessoa não valorizará as vicissitudes da vida igual à outra. Somos a única espécie que valoriza a subjetividade das coisas e dos sentimentos. Os outros animais ainda estão na ordem do desejo pela necessidade. O que importa para eles é o aqui e o agora. O amanhã eles desconhecem.

Pois bem, a valorização do valor subjetivo das coisas e afetos não é uma prerrogativa dos modernos. Não inventamos a subjetividade pelos canais da fibra ótica. Pelo contrário, os antigos já entendiam e praticavam essa subjetividade humana, como cita Rancière (2018) sobre a participação na política dos “sem-partes”, ou seja, do povo. Desafortunados por não conseguirem receber sua parte [1] na conjunção do todo de uma civilização, no caso a ateniense, mesmo assim são admitidos nesse todo que nunca é mesmo “todo”, nem poderia ser, visto que a equação entre os desiguais nunca fecha.

Nesse sentido, como o referido autor bem esclareceu, a política nasce para evitar o mal maior, qual seja, que a equação inacabada não acabe por devorar os que detêm as partes: os poderosos do momento histórico. O dano sem a subjetividade da política poderia levar ao caos uma sociedade que, se ainda não era dominada pelo fetiche da modernidade, pelo menos já tinha consciência das benesses que o lado objetivo da vida proporcionava aos mais privilegiados. Era preciso dar ao corpo falante uma falsa ideia, uma perspectiva de participação no “ethos” coletivo.

A democracia, portanto a política, surge na antiguidade para dar voz ao povo, ao igual que não é igual, justamente para calá-lo. O apaziguamento das potencialidades de confronto entre as diferentes formas históricas de opressores e oprimidos foi fundamental para que o valor material sobrepujasse ao valor afetivo no animal humano. Sem a válvula de escape das pedrinhas contadas nas assembleias atenienses, talvez a democracia como a conhecemos hoje não teria suplantado as outras formas políticas de opressão, para prosperar na maior parte do planeta, como ocorreu.

Entretanto, na atual lente da história, a modernidade foi madrasta em nos trazer uma nova categoria, na verdade uma subcategoria da primeira categoria Valor: o Fetiche. Subcategoria esta que depois ultrapassou o Valor como categoria autônoma, sem trazer novas formas de pensar politicamente as interações humanas. De fato, a democracia do século XXI tem tudo a ver com a democracia ateniense, ao mesmo tempo que, dialeticamente, muito pouco se parece com ela. As semelhanças consistem no nome e no pretenso propósito, pois, em grande parte dos cantos do mundo, ainda se chama democracia e o objetivo divulgado é dar ao povo a possibilidade de se expressar. E para por aí. Nem o ritual democrático é parecido, hoje com a participação de todos os seres humanos considerados capazes(?) de votar, nem os objetivos finais são tão simples como os de antigamente.

Realmente, se antes o povo que não tinha nada, formado de homens “sem-partes”, se embriagou com a aparente liberdade com qual a democracia o ungiu – ainda que a base da igualdade estivesse nas mãos da justiça do possuidor do bem, ou seja, dos “oligoi” (os poucos que detinham a riqueza) -, e hoje, esse mesmo povo comum, desprovido de mérito, dá de ombros para as históricas lutas de classes que se desenrolaram nos últimos dois séculos, em busca de uma nova reconfiguração do sentido da vida nua dita por Agamben. Nesse sentido, se não somos um animal qualquer, nem mesmo uma máquina sujeita a ferrugem, somos o quê? De acordo com o capitalismo, somos produto, mercadoria mesmo posta no mercado para produzir e consumir. Voltamos a ser meros fornecedores de ruídos numa sociedade que seleciona cada vez mais seus porta-vozes viventes.

Ora, o próprio núcleo temporal da atualidade força os seres humanos, essa espécie singular dotada da compreensão da sua própria brevidade, a um devir histórico distópico do ponto de vista da sua própria sobrevivência; quer pelas forças de um Estado cada vez mais fragmentado, dividido entre a pressão dos que nada têm, mas que têm voz (voto), e a pressão dos que desejam suprimir exatamente essa voz de uma vez por todas, onde o comum deixou faz tempo de ser comum para se transformar em exceção; quer por um ser falante que viu no alargamento do consumo fetichista o deus-material da felicidade.

E, se assim o é, os limites e os impedimentos acabam ofuscados por uma corrida desenfreada pelo aqui e o agora, sem a crítica necessária dessa dialética sujeito-objeto. Somos, ao mesmo tempo, sujeitos e objetos, ou uma hora sujeitos, outra hora objetos. Mas isso não faz a menor diferença, desde que possamos frequentar vários espaços que as “partes” onde a riqueza predomina também frequentam (os shopping centers são um exemplo), ainda que apenas para circular como ninguém, como nada, meros observadores da riqueza alheia. Ou talvez nem isso mais, posto que a verdadeira riqueza dificilmente aparece nesses locais hoje em dia.

A crítica do valor das coisas precisa estar hoje na razão primeira de uma universalidade abstrata dentro de um ”ethos” coletivo que, de coletivo, não tem mais nada. Se, no passado, as comunidades eram separadas por um conjunto de crenças (hábitos) e costumes que definiam o caráter moral dessas sociedades, separadas no tempo e no espaço pelos impedimentos das tecnologias da época, hoje a capacidade instantânea da comunicação não permite mais o amadurecimento desse “ethos” coletivo, enquanto tal.

Em outras palavras, o valor das coisas não pode esperar mais tempo do que a instantaneidade, sob pena de foraclusão [2]. Assim, para ressignificar a Teoria do Valor, talvez devêssemos ser radicais na dialética e propor uma nova Teoria do Valor, ou seja, uma Teoria do Desvalor: nada mais, nada menos que uma teoria que proponha uma desconectividade com a abstração da forma material humana.

Uma teoria que busque o bom viver dentro desse mundo superdimensionado pelas formas inumanas de conexão, onde a vida passa pelo crivo de um “like”. Não se trata de buscar resgatar algo que já perdemos, qual seja, a própria capacidade de criticar e reinventar o valor das coisas com base no “logos” de cada retórica. O busílis [3] é que não estamos mais na ordem do falante e falado, mas do que é digitado e quem digita. Nesse sentido, não se justifica mais buscar a forma de linguagem tradicional para comunicar ao seu semelhante algo que ele não irá compreender por não ser palpável.

A moeda (ou o dinheiro) era palpável, as transações digitais não o são. Portanto, já passou da hora das pessoas capacitadas usarem essa nova forma de mundo desproporcional entre o que está posto ou falado e o que está flutuando nas nuvens do artificial, para reintroduzir os seres falantes na seara política do espaço público. O fetiche da mercadoria precisa virar o fetiche do convívio social.

André Márcio Neves Soares é Mestre em Política Sociais e Cidadania pela Universidade Católica do Salvador – UCSAL. Especialista em Direito do Trabalho pela mesma Universidade.

 

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Notas:

[1] Rancière separa o termo parte em dois: “parte” entre aspas é a pessoa, o ser humano. Porém, parte sem aspas é o objeto, o bem material.

[2] Foraclusão ou Forclusão é um conceito psicanalítico elaborado por Jacques Lacan[1] (1901-1981) a partir do termo alemão Verwerfung utilizado por Freud. Lacan usou a palavra francesa forclusion para traduzir o termo alemão Verwerfung, anteriormente representado em francês como rejet (repúdio). Sigmund Freud tinha introduzido o termo Verwerfung, juntamente com negação (Verneinung) e repressão (Verdrängung) como um mecanismo de defesa. Foraclusão é uma forma de defesa primordial, porque não age em um significante que já está inscrito dentro da cadeia de significantes, mas sim, rejeita a própria inscrição. A foraclusão é, assim, a antítese de Bejahung (afirmação). 

[3] busílis é o cerne da questão ou do problema; a dificuldade principal

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